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    29 January

    FERMENTO NA MASSA

    Frei Betto

    Por que um homem que pregou a submissão à vontade de Deus, o amor aos inimigos, o poder como serviço, foi assassinado na cruz? O que havia de tão ameaçador na pregação de Jesus, a ponto de dois poderes políticos, o romano representado por Pilatos, e o judaico, representado pelo Sinédrio, se unirem para condená-lo?

    Assim como soa ridículo culpar os atuais habitantes de Roma pela morte de Jesus, não é justo reforçar o anti-semitismo atribuindo aos judeus a culpa pela condenação do nazareno. Há que ler os textos dentro de seus contextos.

    A terra dos palestinos, invadida, cerca do ano 1.000 a.C., pelos hebreus provenientes do Egito, foi ocupada, no século VI a.C., pelos babilônios e, em seguida, controlada pelos persas, pelos gregos, pelos ptolomeus greco-egípcios e pelos selêucidas greco-sírios. No tempo de Jesus, era uma colônia do Império Romano, assim como, hoje, Porto Rico, no Caribe, é uma colônia dos EUA.

    Jesus nasceu sob o imperador Augusto. Segundo a Eneida, de Virgílio, ele descendia das relações da deusa Vênus (Afrodite) com o humano Anquise. Havia sido concebido divinamente por Apolo e Átia. E foi divinizado por um decreto do Senado romano por ocasião de sua morte, no ano 14 de nossa era.

    Como seria possível, em tal contexto, distinguir entre religião e política? Tibério, que sucedeu Augusto, era chamado “filho de Deus”, e em sua homenagem Herodes Antipas, governador da Galiléia (e assassino de João Batista), construiu, à beira do lago onde Jesus pescava com seus discípulos, a cidade de Tiberíades. Portanto, só Roma detinha o reino, o poder e a glória.

    Dentro desse contexto, anunciar o Reino de Deus, um outro reino que não o de César, era o mesmo que, hoje, propagar um outro sistema social que não o capitalismo. Esta a subversão de Jesus: desmerecer o reino de César em favor do reino de Javé, o Deus dos judeus. Os romanos respeitavam a crença judaica, desde que o povo se sujeitasse a ser vassalo de Roma. Porém, por que suplicar a Javé “venha a nós o vosso reino”?

    Jesus nem sequer possuía uma moeda romana quando lhe perguntaram se era lícito pagar imposto a Roma. E ao responder “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” os fariseus entenderam o recado: esta terra não é de César, como é esta moeda. Esta terra é de Deus e, portanto, não se justifica a sua dominação por estrangeiros.

    “Seja feita a sua vontade assim na terra como no céu”. No céu predomina, todos sabemos, a vontade de Deus. Jesus propugna que o mesmo ocorra na Terra. E a vontade de Deus é que todos “tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10). Portanto, ao contrário do reino de César, no de Deus não há lugar para a opressão, a discriminação, a exclusão.

    Indignado com a pretensão de Jesus, Pilatos mandou afixar na cruz a inscrição: “Rei dos judeus”. Era a forma de desmoralizar a descabida proposta de contrapor ao todo poderoso reino de César um outro reino, o reino do Pai nosso que está no céu e que haverá de assegurar a todos o “pão nosso”, os bens necessários a uma vida digna e feliz.

    Para Jesus, o Reino de Deus não se situava “lá em cima” e sim lá na frente, no horizonte histórico. Não na utopia, que significa “lugar nenhum”, e sim da eutopia, um “lugar muito bom”.

    Hoje, o reino capitalista neoliberal, hegemonizado pelo governo dos EUA e idolatrado na onipresença do Mercado, se contrapõe ao Reino de Deus, cujas características estão descritas no Sermão da Montanha: viveremos sem ambições desmedidas, com espírito despojado; promoveremos a paz; teremos fome e sede de justiça; seremos misericordiosos; agiremos com mansidão; e encararemos como bênção, e não como maldição, a perseguição por causa da justiça.
    Resta-nos transformar os valores de nossa espiritualidade em projetos políticos, de modo a fazer de nossa fé efetivo fermento na massa.

    *Texto extraído do Blog do Sérgio Pavarine
    *Frei Betto é escritor, autor da biografia de Jesus “Entre todos os homens” (Ática), entre outros livros.

    25 January

    Otimismo e esperança

    Rubem Alves

    Hoje não há razões para otimismo.

    Hoje só é possível ter esperança. Esperança é o oposto do otimismo.

    Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro.

    Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.

    Camus sabia o que era esperança. Suas palavras: E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível...

    Otimismo é alegria por causa de: coisa humana, natural. Esperança é alegria a despeito de: coisa divina.

    O otimismo tem suas raízes no tempo.

    A esperança tem suas raízes na eternidade.

    O otimismo se alimenta de grandes coisas.

    Sem elas, ele morre.

    A esperança se alimenta de pequenas coisas.

    Nas pequenas coisas ela floresce.

    Basta-lhe um morango à beira do abismo.

    Hoje, é tudo o que temos ao nos aproximarmos do século XXI: morangos à beira do abismo, alegria sem razões.

    A possibilidade da esperança... 

    O texto desta página é um trecho da crônica Sobre o Otimismo e a Esperança, publicado originalmente no livro Concerto para Corpo e Alma (Ed. Papirus).

    19 January

    Uma parada na vida pra pensar em sua brevidade

    Tales Messias

     

    Em meio a Muruci, Cupuaçu, Açaí, Peixe Filhote, Taperebá, Tucupi, Takaká, Tucunaré, Maniçoba e tantas outras delícias do Pará...após dias longe de casa...conseguí parar. Parar um pouco. Pra pensar, escrever, encontrar-se comigo.

     

    Penso em como a vida é breve (como bem refletiu Sêneca em seu “Sobre a brevidade da vida”). Penso e relembro de momentos antigos, de amigos antigos (que só encontramos agora virtualmente, no orkut). Lembro de momentos felizes (de alguns destes, só fotos restaram). Relembro tempos de tanta agonia na alma, e choro. Alegro-me em poder ver que a maioria daqueles tormentos e fantasmas se foram.

     

    Como a vida é breve...somos como sopro...que vai-se rapidamente...

     

    Hoje, logo cedo, no café, lia o jornal local anunciando a trágica morte de dois bebês, misteriosamente, em um hospital. Em outra notícia, estampa-se a morte de uma jovem, muito bonita, estrangulada por um namorado porque tinha ciúmes do ex-namorado. Aos pais...apenas lamentações...e saudades.

     

    Volto a pensar na vida e em sua brevidade. Por que, sendo ela breve não valorizamos o que perdura por mais tempo? Por que não nos ocupamos com o que valoriza a vida...já que a temos por tão pouco tempo? Por que gastamos tanto dinheiro com o que é supérfluo? Para que valorizar tanto uma máquina? Para que hipervalorizar uma construção? Por que demandar tanto tempo com carros, shoppings, consumo, compras, TV? Essas coisas só ganham valor se se voltarem para um fim humano. Se no shopping formos não para “gastarmos tempo”, ou dinheiro. Mas, se formos para sentar com um amigo e tomarmos um bom café, regado a comunhão e compartilhamento.

     

    Hoje, após viver um pouco mais...nossos valores mudam. Continuo gostando de computador, TV, Shopping, carro. Mas, um tantinho de tempo com minha filha é mais precioso. Há dias longe dela, adoro ouvi-la dizer no telefone: “chaudade, painho”. Longe de minha esposa, vejo o quanto vale a presença e o amor dela. Na saudade, notamos o valor da presença. A pouco liguei para meus pais, apenas para ouvi-los dizer: “está tudo bem”. Ainda hoje pela manhã, um amigo do trabalho me contava da história de sua sogra, com 55 anos, que caiu de um degrau, pequeno, mas suficiente para quebrar seu pé, com fratura exposta. Em minha mente, visualizei meus pais. Num instante, quase automático, meus pensamentos juntaram-se com os de Deus...em oração. Ali, na mente, olhos fechados, enquanto ouvia aquela história, “falei” a Deus: “cuida de meus pais, Senhor. Cuida deles. Poderia ter sido eles. Cuida. Só peço isso. Amem”. São momentos...tempinhos de ligação com a eternidade...com o divino...um sorriso amigo, um abraço de quem ama e amamos...um beijo de uma criança...um café com um amigo que termina com lágrimas nos olhos por contar segredos tão bem guardados mas necessitados de serem manifestos...uma ligação de alguém especial apenas para nos dizer o quanto lembra de nós...uma gentileza de um desconhecido apenas por vontade de ser gentil...um “bom dia” num elevador, simples, mas suficiente para iniciar uma pequena relação... um elogio não esperado...um cartãozinho sincero dizendo coisas que o outro já sabe mas que precisa ouvir...esses momentos se eternizam. Esses sim se perpetuam.

     

    Após isso...peço apenas que eu viva mergulhado no dia a dia tão regado por urgências não importantes, mas que eu lembre daquelas coisas que são mais importantes...mesmo não ganhando o caráter de urgentes. Peço isso. A Deus também.

     

     

    15 January

    UM SER HUMANO MELHOR

    Jose Comblain encerrou seu sermão no THEOLOGANDO INTERNACIONAL realizado em São Paulo ( Outubro/2007 ), com uma pergunta que, segundo ele, a missão da igreja hoje, isto é, a igreja precisa decidir se ela deseja expandir a instituição religiosa ou se parecer com Cristo. Quer dizer, para de fato realizar sua missão na terra, primeiro ela, a igreja, tem que responder esta pergunta, EXPANDIR A INSTITUIÇÃO RELIGIOSA OU SE PARECER COM CRISTO? Pelo que temos visto, tanto a Igreja católica, quando a chamada igreja protestante e todas as suas derivações, todas, sem exceção, já decidiram, isto é, EXPANDIR A INSTITUIÇÃO RELIGIOSA é a missão da “Igreja Institucional”, insisto, sejam quais forem as vertentes desta igreja. Agora, é obvio que o cristão mais simples, acho que até mesmo os simplórios, sabem que o propósito final de Deus em nós, é nos tornar parecidos com Seu Filho, e que a tarefa maior da igreja é fazer, produzir, criar seres humanos melhores, que, num processo segundo Paulo, de Glória em Glória, chegarão à estatura de varão perfeito. Sabendo e crendo que a missão da igreja no mundo é se parecer com Cristo e, portanto, produzir seres humanos melhores, penso que o maior desafio das comunidades que desejam ser parecidas com Cristo é vencer a tentação de se institucionalizar. Digo isto porque, como hoje faço parte de um grupo informal, que apenas se encontra para reler o evangelho, celebrar o encontro, e  no encontro a presença de Deus, e na presença de Deus resignificar a vida, o que mais ouço, claro, não dos que estão sendo curados, restaurados e se reencantando com o evangelho de Jesus de Nazaré, não, estes estão felizes e livres, mas, dos que, embora com um discurso de que desejam se parecer com Cristo, ainda vivem para expandir a instituição religiosa, sim o que mais ouço é, VOCÊS À MEDIDA QUE CRESCEM INEVITAVELMENTE SE INSTITUCIONALIZARÃO. Terão que se estruturar, se organizar, formalizar e formatar. A tentação de se institucionalizar é grande. Primeiro, como dizem todos, é uma questão de ordem, isto é, se tornar uma pessoa jurídica, para tanto, estabelecer uma diretoria, que, certamente terá que desempenhar funções. Depois, segundo outros, não tem como, é necessário departamentalizar, isto é, criar os  chamados ministérios e daí por diante todos já conhecemos bem o final, ou seja, gente servindo a estrutura  e mantendo o bem estar da instituição religiosa. E para manter a instituição e sua estrutura tem que treinar seus membros e torná-los eficientes em servir a instituição e tudo isto com aquele discurso de que Deus se agrada disto e, portanto, Ele abençoará todos os que se tornam voluntários nos ministérios, nos departamentos e no desempenho das chamadas funções segundo seus dons, talentos e habilidades. Não importa quem são essas pessoas em seu chamado no mundo privado. Não importa que tipo de homens e mulheres são. Que tipo de profissionais, que tipo de cidadãos, que tipo de maridos, esposas, pais e mães, filhos. Importa que estão “servindo a Deus” através da instituição religiosa em sua estrutura. Importa que sejam “bons” presbíteros, diáconos, ministros, diretores de departamentos, etc...Por melhores que sejam os modelos, o que tem ficado cada dia mais claro é que as pessoas não estão sendo ensinadas a serem melhores seres humanos, elas estão se tornando mão de obra gratuita nas mãos de seus líderes e expandindo suas instituições, seus ministérios, suas TORRES, e que TORRES. As pessoas ficam boas, melhores equipadas pra eles, pra estrutura, pra instituição, não necessariamente pra vida e para os outros.  Seres humanos melhores não necessariamente é a preocupação destas instituições. Fosse a igreja voltar à sua missão, com que ela deveria se ocupar? Claro, com o que é o tema central do evangelho, ou seja, ensinar os seres humanos a olhar como Jesus olhou, ouvir como Jesus ouviu, tocar como Jesus tocou, perdoar como Jesus perdoou, repartir o pão como Jesus repartiu. Aprender ir a festas e velórios. Freqüentar os altos escalões do mundo corporativo, mas, freqüentar também os hospitais. Transitar pelos corredores dos palácios governamentais, mas, transitar também nas associações de bairros, nas favelas e nas periferias. Percorrer corredores de condomínios de alta classe, mas, também corredores de presídios. Saber ir a praia, mas, ir ao deserto também. Um ser humano melhor é o resultado dos que são confrontados com Jesus e na presença dEle e sob a influência do Seu Espírito, tornam-se homens e mulheres melhores. Homens e mulheres melhores ocupam-se consigo mesmos para viverem em equilíbrio e tomarem decisões com bom senso. Cuidam do corpo, buscando nunca exagerar em nada. Cuidam de suas almas buscando manter suas emoções em níveis adequados. Cuidam de seus espíritos para que haja saúde espiritual suficiente para suprir a si mesmos e a outros. Nem mesmo seres humanos com BOM SENSO a instituição tem produzido. Seres humanos melhores olham a volta e vêem o outro tornando-se solidários, encorajadores, suporte na vida de muitos. Seres humanos melhores ocupam-se com o bem estar do planeta e acabam se engajando em projetos que visam fazer com que o mundo dure mais e nossos filhos e netos possam ver o que nós vimos. Seres humanos melhores lutam contra a pobreza, a injustiça, os pré-conceitos, as discriminações, as desigualdades sócias, raciais, culturais, religiosas, etc...Ficam algumas perguntas ou sinceras reflexões como: No que um suntuoso templo torna um ser humano melhor? No que ricos utensílios, equipamentos de primeira, aparatos tecnológicos,  logística, estratégia, organização pode tornar um ser humano melhor. No que a mídia nas mãos de religiosos em todas as suas infinitas possibilidades torna um ser humano melhor? No que os treinamentos mais apurados torna um ser humano melhor? O Reino de Deus é simples, então, porque tanta sofisticação, e, no que esta sofisticação torna um ser humano melhor? Jesus resume tudo em um único mandamento, “AMA A DEUS E AO TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO” No que as estruturas religiosas tem contribuído para que tenhamos seres humanos que AMEM A DEUS, AMEM O PRÓXIMO COMO A SI MESMOS? Entre seres humanos melhores só existe uma competição, qual seja, QUEM AMA MAIS A DEUS, QUEM AMA MAIS AO PRÓXIMO COMO A SI MESMOS. Enquanto estivermos competindo para construirmos torres maiores que as do próximo, certtamente ainda estaremos distantes do ideal de Deus para aqueles a quem Ele tanto amou. Ideal que tem a ver com uma compreensão mínima, básica do evangelho da Graça  do nosso Senhor Jesus Cristo.  É hora de tornarmos os seres humanos melhores para Deus, melhores para o próximo e melhores para si mesmos. É hora de libertar os seres humanos do julgo imposto pela estrutura religiosa que os tornam escravos de homens e sistemas. É hora de, no mínimo, colocar as estruturas religiosas a serviço das pessoas. É hora de romper com este sistema religioso que algema seres humanos. É hora de uma DOCE REVOLUÇÂO, que torna os seres humanos em seres livres. Livres em suas consciências visitadas e transformadas pela Graça de Jesus que os faz serem hebreus, nômades, andarilhos, desinstalados, desapegados, mortos para o sistema mundano e vivos para viverem o amor e graça. Sendo no mundo, sal, luz, perfume, cura, perdão e tudo aquilo que é decorrente de uma vida entregue e abandonada nas mãos do Eterno, que se revelou em Cristo na eternidade e na historia e que habita entre nós e em nós para que tudo nEle se convirja e se aperfeiçoe. A Ele honra e glória para sempre. Amém.

    Carlos Bregantim