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12 January DEUS QUER ESSA CRIANÇA VIVA.Tales Messias Ferreira Eram pouco mais de seis horas da manhã do dia 09 de fevereiro de 2005. Eu fui chamado no quarto por minha esposa. Ela, com rosto expressando dor, avisou-me que as contrações haviam chegado. Ligamos para a médica. Ela aconselhou que aguardasse até ao meio dia e só então ligasse novamente para, confirmando-se as contrações, proceder à cirurgia do parto.
Nós não obedecemos à médica. Às 08 horas da manhã já estávamos no hospital. Pensamos: “se vamos esperar, esperaremos já no hospital”. A pediatra de plantão fez o primeiro exame em minha esposa às 08 horas. A pedido nosso. Ela, após o exame, olhou espantada para nós dois e nos alertou: “Ligue imediatamente para sua médica. O parto precisa ser realizado rapidamente. Já há presença de muito mecônio (substância semelhante a fezes expelida pelo bebê quando diante de algum sofrimento. O que faz com que ele fique literalmente “mergulhado” nessa substância dentro da placenta absorvendo-o). A médica, então, contactou toda a equipe médica. Mas esta só chegou ao hospital ao meio dia pois, por ser quarta-feira de cinzas, muitos estavam viajando. Às 13 horas a cirurgia foi iniciada. Pude assisti-la por ter estudado odontologia (segundo a médica, apenas pessoas ligadas à área de saúde tinham permissão. Muitos pais atrapalhavam a cirurgia com desmaios e etc). Tudo corria muito calmo. Mais calmo do que eu imaginava. Rouse, tranqüila, encostava a cabeça em minha barriga. Eu apenas acariciava a cabeça dela e a tranquilizava. Toda a preparação foi feita. Os cortes já haviam sido feitos. A pediatra já estava a postos para receber a criança. A gestação havia sido perfeita. Sem nenhuma anormalidade. Tudo indicava que seria extremamente tranquilo. A não ser pela presença de mecônio....
Finalmente minha filhinha estava saindo. Sendo tirada pela cabeça. Metade do corpinho dela já estava de fora. Foi quando a médica, estupefata, olhou pra mim com olhos arregalados. Tensos. De imensa surpresa. O bebê estava todo “preto-azulado”, língua de fora , olhos arregalados e imóveis. Os bracinhos caíram ao lado do corpo, como mortos. A médica me olhou, como quem diz: “o que o pai vai fazer agora?”. Da forma em que eu estava entendí tudo: “Minha filha morreu”. Apenas gesticulei para a médica com as mãos como quem diz: “continue, pode continuar. Está tudo bem.”. A criança foi trazida para uma mesa ao meu lado. Um pouco acima da cabeça de Rouse para que ela não enxergasse, apenas eu. Ali, sem vida, ela foi limpa. Um tubo foi colocado nela a fim de retirar todo o mecônio de dentro dela. Uma substância marrom escuro começou a sair por esse tubo de forma constante, por minutos. E a minha criança continuava da mesma forma, imóvel e com aqueles olhos fixos, abertos, bonitos mas sem vida.
Rouse perguntou-me: “por que ela não chora?”. Apenas dizia a ela: “Ela está bem. Ela está bem. Relaxe, está acabando.”.
A sala e cirurgia, a esta altura, estava completamente em silêncio. Apenas se ouvia os sons metálicos dos instrumentos cirúrgicos sendo colocados na mesa. Ninguém ousava falar nada. A médica não me olhava. Olhos fixos na cirurgia. Tristes.
Repentinamente, para surpresa de todos, ouviu-se (e apenas ouviu-se devido ao silêncio da sala) um leve gemido. Muito baixo. A pediatra, que cuidada do bebê, de súbito deu um grito para a equipe pedindo um tubo mais largo. O tubo anterior foi tirado e um tubo grosso foi colocado. Eu via o pescoço de minha filha mexer, enquanto o tubo entrava nela. Aquele líquido jorrava agora num volume muito maior de dentro dela. Um aparelho respiratório foi colocado nela. Toda a equipe médica voltou-se para o bebê. Finalmente ela foi desentubada. E um choro – fino, ainda baixinho – encheu a sala cirúrgica. Ela foi colocada no peito de Rouse. Apenas por uns segundos pois a pediatra disse que ela precisava ser levada de imediato para a UTI.
Nesse momento o clima da sala era outro. Risadas. Conversas paralelas. Todos falavam. A médica, finalmente, olhou para mim de novo. Fitou meus olhos enquanto continuava a costurar Rouse. E disse: “Deus quer essa criança viva. Deus quer essa criança viva. Só pode ser isso”.
Após todo o processo concluído. Deborah na UTI. Rouse de volta ao quarto onde os familiares estavam. A médica veio conversar conosco e nos contou todo o processo que Deborah enfrentou (e que enfrentaria nos próximos 11 dias na UTI e nos próximos três meses em casa). Por fim ela nos disse que de cada 10 crianças que enfrenta o que ela enfrentou, apenas uma sobrevive ao parto e ao pós-parto.
Encurtando toda essa história pois teria muito ainda a escrever - todos os dias termos que enfrentar o sentimento de ir embora e nossa filha ficar na UTI com a médica nos alertando sobre a possibilidade de ela não reagir e morrer; os três meses em casa que ela enfrentou diversos sufocamentos devido ao tempo em que ficou entubada na UTI e diversos outros traumas – por fim tudo passou. Escrevo agora com minha Deborah, nesse exato momento, passando final de semana na casa dos avós, com quase 04 anos de idade. Perfeita. Linda.
Mas, uma frase ainda ressoa em minha mente: “Deus quer essa menina viva”. Converso com minha esposa sobre essa frase e somos unânimes em reconhecer que parte dessa frase hoje entendo. Que parte da razão de Deus querê-la viva eu já entendo. Eu e minha esposa enfrentamos uma crise conjugal terrível após um ano do nascimento de Deborah. E nos separamos. Após mais de um ano e meio separados, estamos novamente juntos. E muito bem juntos. E vemos claramente o quanto Deborah foi essencial em nos manter ligados. Ela salvou nossa família. Ela, sem saber, foi o elo que não deixou que uma família se esfacelasse.
Mas, ainda há mais. Somos unânimes também em concordar que ainda há mais por explicar a razão de Deus querer nossa Deborah viva. Tenho certeza que no futuro - talvez um futuro longínquo – eu vou olhar para trás e vou me lembrar do que aquela médica disse. Vou olhar para trás – vendo no que Deborah se tornou – e vou dizer, junto da minha esposa, “hoje estou entendendo porque Deus queria minha filha viva”. Não tenho a mínima idéia do que seja. Da razão de sua manutenção. Mas, sempre cri que todos nascem para algo dentro de um projeto maior de Deus. E Deborah está inserida nisto.
Minha oração e desejo: que eu nunca atrapalhe essa caminhada que é só dela. Que eu, por ser pai, não perca de vista que ela tem um caminho diverso do meu. Que eu, por ser pai, não queira realizar meus sonhos através da vida dela. Que eu, por ser pai, não queira dominá-la a ponto de interferir no processo natural da vida dela desde o nascimento. Que eu seja apenas pai. Para que o Pai a guie. Que eu seja amigo. Que eu seja disciplinador a fim de que ela se discipline. Mas, que eu não seja dono dela. Que eu entenda que ela tem um vôo próprio, apenas dela, para que eu entenda um dia a razão do porque de Deus querer minha Deborah viva.
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