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    20 October

    Com toda certeza, sabemos o que é relevante. O que aconteceria se pensássemos um pouco no que é irrelevante?

    Philip Yancey

    Houve um tempo em que eu considerava os eremitas reclusos intratáveis, caracterizados principalmente pela obsessão com eles mesmos e pela falta de traquejo social – pessoas parecidas com o Unabomber. Thomas Merton corrigiu meu erro. “Para ser loucos, precisamos de outras pessoas”, explicou ele. “Quando ficamos sozinhos, logo nos cansamos de nossa loucura. Ela é exaustiva”.
    Um livro recente de Peter France, Hermits (Eremitas), ajudou a completar o quadro. France desistiu de uma carreira bem sucedida na BBC para se dedicar a uma vida de contemplação em uma ilha grega. Não fez isso como ato de sacrifício, mas sim para buscar a sabedoria que apenas os que vivem em solitude encontram. Viver longe da pressão da opinião popular “confere percepções que não estão disponíveis na sociedade”, concluiu ele.
    Santo Antão do Egito, o famoso Pai do Deserto, escolheu a vida de eremita para um contraste deliberado com sua vida elitizada. Depois de 20 anos isolado, sem ver um rosto humano sequer, ressurgiu saudável, equilibrado e cheio de conselhos sábios. Daí em diante, passou a alternar períodos de isolamento com visitas pastorais. France compara esse padrão ao dos cientistas que trabalham sozinhos na busca de cura para doenças fatais.
    Claro que não se pode ler sobre eremitas sem encontrar estranheza. Certo monge desejava uma bela mulher. Ela morreu e ele foi até o túmulo, tirou-lhe a túnica e secou com ela os fluidos do corpo da mulher. Com o mau cheiro perto dele, em sua cela, ele dizia a si mesmo: “É isso que você desejava – aproveite bem”.
    Há monges que competem em um tipo de Olimpíada asceta, observando quanto tempo conseguem ficar sem alimento, água ou sono. Eles também possuem um método em sua loucura: as privações causam tanto sofrimento que não deixam espaço para pensamentos carnais.
    France narra outras histórias que lançam uma luz diferente sobre esses eremitas. Um irmão se gabava de sua disciplina alimentar. O orientador espiritual respondeu: “Não me importa, filho, se você passou 30 anos sem comer carne. Mas quero saber a verdade: quantos dias você passou sem falar mal de seu irmão? Sem julgar o próximo? Sem permitir que seus lábios pronunciassem palavras vãs?”.
    A sede de isolamento parece crescer toda vez que a sociedade entra em turbilhão. Os judeus essênios se retiraram para o deserto nos dias de Jesus; Buda afastou-se de todos para se purificar de ilusões sociais; Gandhi mantinha silêncio total às segundas-feiras, prática que não interrompeu nem para reunir-se com o rei da Inglaterra.
    A solitude arranca todas as máscaras e disfarces e quebra dependências desnecessárias aos bens materiais. Henry Thoreau demonstrou uma mistura peculiar de ascetismo, amor à natureza e autoconfiança. Um dos amigos dele comentou que Thoreau aproveitava mais 10 minutos passados com um rouxinol do que a maioria dos homens desfrutaria em uma noite com Cleópatra. Thoreau insistia: “Nunca encontrei companheiro tão agradável quanto a solitude”.
    No fim do século 18 e início do 19, os ingleses da baixa nobreza contratavam “eremitas de ornamentação”. Reconhecendo o valor da solitude, mas sem disposição para suportar os rigores que ela impõe, os ricos abrigavam esses substitutos em pequenas habitações nos jardins luxuosos. Se você não pode se dedicar a uma vida de simplicidade e oração, por que não pagar alguém para fazer isso em seu lugar?
    Thomas Merton foi o melhor apologista da vida de solitude em nosso século. Considerava a vida em sociedade um verdadeiro sacrifício e solicitava constantemente o privilégio da solitude, que só lhe foi concedido após 24 anos. Merton ansiava por se unir aos “homens nesta terra miserável, tumultuada e cruel, homens que saboreavam a alegria maravilhosa do silêncio e da solitude, que habitavam em celas nas montanhas esquecidas, em monastérios isolados, onde notícias, desejos, apetites e conflitos do mundo não os alcançavam”. Ainda assim, insistia que “a única justificativa para uma vida de solitude deliberada é a convicção de que ela ajudará a amar não apenas a Deus, mas também o semelhante”.
    Merton provou que a vida de solitude não leva, necessariamente, ao isolamento ou à estranheza. Nosso século não conheceu observador da política, da cultura e da religião mais preciso do que esse monge que raramente falava e não deixava quase nunca o monastério.
    Fico surpreso por a Igreja não ter reagido ao tumulto do século que termina com um movimento rumo à solitude. Elias, Moisés e Jacó encontraram-se com Deus quando estavam sozinhos. O apóstolo Paulo, João Batista e o próprio Jesus saíram para o deserto em busca de alimento espiritual.
    É fato certo que dominamos a relevância. As páginas de organizações religiosas na internet são um primor técnico. Novos grupos de música cristã brotam aos montes, em resposta à menor alteração cultural. O que aconteceria se buscássemos um pouco de irrelevância?
    O que aconteceria se todos os cristãos fizessem uma caminhada de duas horas pela natureza todas as semanas, sem falar? Ou se, como Gandhi, observássemos um dia de silêncio? Ele escolheu as segundas-feiras. O que aconteceria se ficássemos em silêncio todos os domingos, depois da Escola Dominical? Sendo ainda mais radical, o que aconteceria se silenciássemos todos os eventos esportivos da televisão e do rádio nos domingos?
    É melhor que eu pare por aqui. Como os eremitas nos mostram, essas disciplinas espirituais podem sair de nosso controle.
    12 October

    Sou evangélico demais para continuar sendo “evangélico”

     Tales Messias

     

    Acredito demais no evangelho para continuar me identificando com a mensagem e práticas da maioria evangélica.

     

    Acredito demais nos benefícios da confissão e transparência (por isso, que todos meus tropeços públicos foram confessados publicamente, nunca descobertos por alguém) para continuar comungando do sentimento homicida da maioria evangélica que adora matar os pecadores confessos;

     

    Acredito demais na Graça de Deus que nos acolhe da forma que somos (e estamos) e que também nos transforma para continuar me identificando com o conteúdo moralista / legalista da maioria evangélica;

     

    Acredito demais no sacerdócio universal e nos dons que se manifestam em todos para continuar concordando com a liderança sacerdotal da maioria dos pastores evangélicos, que necessitam de uma multidão dependente deles, que – por serem tão inseguros – precisam tanto de títulos a fim de que afirmem através deles. Eles não só se afirmam, mas passam a ter apenas identidade pessoal caso esteja acompanhado de seu título de pastor / reverendo.

     

    Acredito demais na mensagem de Jesus para que continue concordando com o dízimo sendo ensinado como uma obrigação a todos os fiéis, inclusive chamando de ladrão aqueles que não dizimam. Jesus chamou de mercenário os líderes que se tornam “pesados” ao povo, que enriquecem as custas do povo, que desfilam de carro novo as custas do povo, que viajam nas férias para suas casas de praia as custas do povo. Alguns inclusive pedem que seus salários sejam mascarados em várias contas (aluguel de casa, estacionamento, etc) a fim de que o salário líquido seja menor e assim possam sonegar imposto de renda. Esses são os ladrões e mercenários que Jesus intitulou. O povo dá dinheiro conforme determinou no seu coração não conforme o pastor determinou.

     

    Acredito demais na mensagem do evangelho para que eu valorize a massa e grandes multidões, quando Jesus disse que onde estiverem dois ou três reunidos em nome dEle, Ele estaria no meio destes.

     

    Acredito demais no apelo do evangelho para que vivamos como irmãos, em comunhão, para que eu acredite nas mega-igrejas;

     

    Acredito demais no Espírito Santo para que eu continue comprando os “pacotes” prontos dos executivos da fé, que prometem nos ensinar sobre todas as boas estratégias sobre absolutamente tudo: como amar, como fazer a igreja crescer, como ser santo, como ser dominado pelo Espírito, como evangelizar, como pregar, como descobrir seus dons, como fazer a igreja ter comunhão, como curar as feridas da alma...etc. No fundo eles domam o povo a fim de que pensem de uma só forma. Matam a diversidade. A criatividade do Espírito. Cerceiam o povo a fim de que pensem da forma que a liderança pensa e apenas façam aquilo para o qual foram domadas a fazer.

     

    Acredito demais no louvor a Deus para que continue concordando com a redução dele à música e para que eu continue assistindo ser pregado que aquelas músicas que se cantam na igreja são as únicas formas de se louvar.

     

    Acredito demais no evangelho que nos ensina a irmos em busca dos excluídos e esquecidos para que eu continue assistindo a elitização das igrejas onde a voz é dada prioritariamente aos ricos. Isso é a reprodução do pecado social dentro das igrejas. Jesus nunca fez isso. Nunca desprezou os ricos, mas ensinou a eles de onde vêm a desigualdade social e como dividir faz parte de nossa conversão a Ele.

     

    Acredito demais em Jesus, em como Ele viveu, em como Ele andou, nos atos que praticou, no Reino que inaugurou, no evangelho, para que eu continue me identificando com os “evangélicos”. Agradeço hoje a Deus por ser cristão, seguidor de Jesus Cristo. Apenas isso. Mas com todo o significado que tudo isso significa.

     

    Acredito demais nos evangelhos para que eu me orgulhe do que foi dito. Foi dito, mas com pesar e tristeza. E com muita paz por saber que Jesus é que continua tendo a palavra final sobre a igreja dEle.

     

     

    01 October

    SIMPLESMENTE GENTE

     
    Bráulia Inês Ribeiro
     
    Gente é ruim, mas é boa. Todas as gentes do mundo têm algo de Deus. Um indivíduo, um sujeito qualquer – gente simples, que vai construindo a história de Deus no mundo
     
    Uma vida é importante. Um indivíduo, um sujeito qualquer – Maria, Pedro, Carolina, Raimundo... Gente qualquer, gente simples. Gente que vai construindo a história de Deus no mundo. Não é fácil viver à luz deste entendimento. Vivemos cercados de aparatos que nos afastam da realidade simples de quem nós somos. Entretenimentos, atos, rituais, sistemas conceituais religiosos. É difícil a gente ser real; ser apenas gente. Na maioria das vezes, representamos. Representamos o que gostaríamos de ser ou que pensamos que Deus gostaria de que nós fôssemos. Representamos religião – como se Ele, que vê lá de cima e sabe tudo, não soubesse quem somos, totalmente e pelo avesso.

    'Gente quer ser feliz, gente quer respirar pelo nariz', diz Caetano Veloso. Gente é pra brilhar. No filme Central do Brasil, as caras do povo pedindo cartas sempre me fazem chorar. 'Fala pra mãe que eu estou bem', diz a prostituta, que tem família católica que a ama; 'Vê se me esquece, seu cafajeste!', fala outra mulher dolorida. Saudade, amor, vergonha, dor; coisa de gente.

    Amo a Dôra de Central. Ela teve a cara de pau de vender a criança, trocando-a por uma televisão com controle remoto, na sua ética dúbia de uma vida ressequida, deserta de amor. Mas tem coragem de resgatá-la de volta, e vai se entregando a ela aos poucos, aprendendo com uma criança solitária uma linguagem nova. Da vida de antes, Dôra só conhecia amarguras – amargura contra o pai, contra si mesma, contra todos. Mas vai aprendendo com o menino a língua do amor. 'Você está bonita, Dora, diz o menino, e lhe compra um vestido. E ela anda com ele no meio da multidão de casinhas iguais e lhe encontra a família. Aí tem que tomar a decisão de deixá-lo, para o que ela considera um destino melhor do que poderia lhe oferecer. Dôra se arruma na madrugada, coloca o vestido novo e passa batom. E no ônibus, indo embora, lhe escreve: 'Me lembro que meu pai me deixou apitar a locomotiva, coisa muita importante, que não era pra ele fazer pra uma menininha...' Pela primeira vez, Dôra perdoa. Alcançou a redenção pelo tanto que foi amada pelo menino solitário.

    Gente é ruim, mas é boa. Todas as gentes do mundo têm algo de Deus. Uma vez, quando eu cruzava uma rua de Belo Horizonte com uma amiga, ela disse uma coisa que me martela na cabeça até hoje. Havia um bêbado caído no meio-fio, semimorto, imundo. Visões assim são tão normais na cidade grande que a gente olha sem ver. 'Veja, Bráulia, a imagem e semelhança de Deus', apontou. Era verdade. Gente legal e gente desconjuntada, todos somos a imagem do Criador. Nossa jornada com ele não começa quando nos convertemos, como alguns pensam, como se o Senhor fosse cego para nós antes de pertencermos ao rebanho evangélico, ou como se o Pai fosse algum tipo de religioso que discrimina pessoas.

    A cantora Baby do Brasil diz que Jesus não é evangélico, e eu concordo inteiramente. Ele é Deus. Sua jornada conosco começa antes de nós nascermos, já que seus olhos nos viram quando éramos embriões, conforme diz a Bíblia – e prossegue nos vendo enquanto ainda respirarmos. Sua jornada conosco leva em conta nossas experiências, ainda que dolorosas: as tribulações que passamos, os dons, e até as dúvidas e falta de fé que carregamos. Não é tudo anulado aos pés da cruz, mas tudo é reorganizado de forma a fazer sentido, a gerar vida em outros, a produzir cura para nós e para quem chegar perto.

    Lembro-me daquele homem 'pobre mas sábio' que, com sua sabedoria, salvou sozinho uma cidade. E nós repetimos o bordão que diz que 'uma andorinha não faz verão', achando que está certo. E o que dizer de tantos outros homens mencionados nas genealogias, pessoas de obscuras trajetórias mas de cujo nome que conhecemos hoje e até colocamos em nossos filhos. O que fizeram e deixaram de fazer ficou para a posteridade. Abraão tinha fé; mas também era covarde, já que mentiu sobre sua verdadeira relação com sua mulher Sara. José perdoou a seus irmãos, mas Davi deixou de perdoar seu filho Absalão. 'Gente espelho da vida, doce mistério...'

    Jesus, ressuscitado, caminhava na estrada com dois discípulos. Abatidos, eles narravam para sua percepção do que havia acontecido alguns dias antes. O 'profeta' havia morrido. Fôra assassinado pelos religiosos. Deviam estar pensando que, afinal de contas, aquele rabi não era quem eles esperavam que fosse. Jesus se impacienta um pouco com eles: 'Como é que vocês custam a entender e demoram a crer em tudo o que os profetas falaram?', questiona. O Deus que eles esperavam não era gente – então, não poderia ter morrido. Mas Jesus, o Deus Criador em quem habitava toda a plenitude da divindade, ainda era gente. E os discípulos de Emaús não o reconhecem ali no ato religioso, enquanto ele lhes ensinava as escrituras. Não o reconhecem pela pregação, apesar de depois perceberem que tinha sido poderosa. Vieram a reconhecê-lo quando se sentaram juntos para comer. No partir do pão, quando Cristo deu graças e lhes ofereceu uma porção – ato cotidiano e rotineiro, ou seja, atitude de gente, não de um religioso ou de um pastor –, só aí seus olhos se abriram para reconhecer o Salvador.

    Às vezes, me pergunto se a Igreja sabe quem é. Nós nos cremos representantes de Cristo na terra, mas pensamos ser melhores que ele. Não precisamos ser gente – basta-nos o ofício religioso, o distanciamento cultural do que chamamos de 'mundo', e que confundimos com santificação. Basta-nos falar um jargão próprio e criar redomas santas onde nos escondemos. E aí, pensamos estar ganhando o mundo e nos aproximando do Senhor. Nesse processo, esquecemos quem somos, e de que é tudo muito mais simples.

    'Gente espelho de estrelas, reflexo de esplendor

    Não, meu nêgo, não traia nunca esta força não

    Esta força que mora em seu coração'