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25 November SÓ A DISCRIMINAÇÃO TEM CORTales Messias
“Negras sofrem discriminação em dose dupla”, foi o título do artigo de um jornal de minha cidade na semana passada. Neste, eram apresentadas estatísticas onde mostrava-se a cruel realidade das negras, no Recife: - elas ganham 55% menos que as mulheres brancas; - elas ganham cerca de 40% menos que os homens negros; - elas ganham cerca de 110% menos que os homens brancos.
Esse artigo precisa adaptar-se em minha mente como alguém em estado febril. Precisa servir de termômetro, sinal interior. Precisa apontar para algo errado nas entranhas de nossa sociedade. Precisa servir ao menos como uma “luzinha” de nosso painel de carro apontando para algum defeito sério em nosso mecanismo social. Demorei dias com esse texto em mente...e só agora decidi escrever...como minha réplica...
Já é madrugada. Hora de descanso. Mas, em alguns dias, hora de reflexão e inquietação. Hora onde, cessado à inquietação interna do dia – geralmente gasto em atividades externas a nós – nos encontramos conosco mesmos e mergulhamos em áreas que buscamos fugir. E me enxergo com diversas perguntas...muitas. Algumas pessoais, individuais...outras à sociedade...ainda outras a algumas instâncias institucionais dessa sociedade:
- Que tipo de educação quero dar a minha filha? Já que ela provavelmente não sofrerá discriminação racial e nem ganhará menos por não ser negra? - Como cristão, é só isso o que ando fazendo que devo continuar fazendo? Resume-se a isso o cristianismo? Onde coloco aqueles ensinamentos de Jesus onde ele nos pede pra cuidarmos dos fracos e dos desamparados socialmente? Onde enfio Provérbios que nos manda erguer a voz pelos excluídos socialmente? Para que buraco jogo Miquéias, o profeta, que ergueu sua pregação forte contra aqueles ricos que esqueciam os pobres e suas madames – chamadas de vacas pelo profeta – que davam-se ao luxo e à mordomia? Para debaixo de que tapete largo outro profeta – Isaías – que condena aqueles que acumulam riquezas e terras tornando-se “os donos da terra”? - Como cristão, é só isso o que devo continuar fazendo? Onde estão as negras em meu bairro? Em meu trabalho? Eu as enxergo pelo menos? Ao menos eu sei que elas enfrentam discriminação no dia-a-dia? Ou, de tão insensível, já se tornou imperceptível? - Para que meus cultos dominicais se tudo se resume aos domingos? Para inspiração para a semana inteira? Para isso realmente é ótimo! Mas...é só isso? - Falando em igreja... onde estão elas...onde estão os negros nela? E onde as negras? Quanto elas ganham? Ganham o mesmo nível de salário que as discriminadas da pesquisa? Não?? Sei a razão...é porque sequer estão empregadas lá. Na verdade, sequer freqüentam. Para que as igrejas existem? Perguntaram a Jesus se o que está funcionando hoje é o que Ele projetou? Digo isso porque o vejo andando entre os pobres, entre os mancos, entre os leprosos, entre os coxos, entre aqueles que ninguém queria andar, tocando nos que eram considerados impuros e indignos, libertando aqueles que a sociedade escolheu para viverem presos, chamando para perto aqueles que viviam “de largo”, pelos caminhos. Ele devolveu à casa aqueles que viviam sem família, com ânimo hiperativo, correndo em locais desertos e sombrios. Condenou aqueles que achavam-se sãos e limpos. Achou o diabo dentro de lugares tidos como santos, tal qual sinagogas. Jesus viveu assim. E nós? E eu? Será que não estou privilegiando aqueles lugares e pessoas que Jesus condenou? Será que não estou vivendo o averso do que Jesus afirmou? - Quanto ao governo...não tenho mais o que dizer...ele fala por si mesmo...o atual estado de descrença apresenta raízes: cansaço de ver mensalões, de ouvir frases ocas de “lulas” sem que o “polvo” seja ouvido; estafa por ver diariamente repetidas “cuecas” sujas; “caducos” cadocas realizando festas; Partido, partido, dos Trabalhadores; Infantis “Garotinhos” e “marmotas” Suplicys; políticos viciados em poder e que, após anos, mesmo de mandato infrutífero, tentam retornar a ele com suas “barbas”, Vasconcelos. Cansei destes. E como só se deve atirar pedras aquele que está sem pecado... agora eles fecham as portas... e secretamente votam em todos como “inocente”. Para que seus próprios pecados não venham à tona, pois tornar todos os culpados em inocentes vem a “calhar”, como Calheiros.
Preciso rever meus caminhos. E preciso rever sempre. Nossas injustiças e patologias socias estão tão intrisecamente espalhadas em nossa cultura que corremos o risco de, gradualmente, irmos nos acostumando com elas. Até que algum “profeta-jornalista-escritor” nos chame a atenção, para nós mesmos e nossa sociedade.
Porque o grande mal de nossas vidas é a rotina. A rotina tem poder de nos roubar a sensibilidade, de nos furtar a percepção dos detalhes. O resultado é que acabamos nos acostumando com situações que nunca deveríamos nos acostumar. Perdemos a capacidade de nos indignarmos com aquilo que nunca deveríamos ter nos acostumado. Isso pode acontecer conosco, pode acontecer com as instituições e acabam por tomar conta de toda a sociedade. Por isso que olhamos para as negras discriminadas, para os meninos de rua, para os mendigos e, de tanto ver, nos acostumamos. Eles se tornaram parte do cenário. A situação deles não nos afeta mais. Não nos sensibiliza mais.
Termino aqui com uma cena acontecida com o Martin Luther King: Ele estava preso. Por causa de sua luta contra o racismo e segregação racial. Ele, um pastor batista, cristão, lutou veemente contra a discriminação...e foi preso. Um dia, um grupo de 10 pastores brancos foi visitá-lo na cadeia. E, por muito tempo, eles tentaram convencer Luther King de que não deveria continuar sua luta e seu movimento. Ele deveria “esperar em Deus”. Ele, então, com olhos cheios de lágrimas, respondeu a eles ... “Vocês me pedem para parar com minha luta porque vocês não têm em casa uma filhinha. Negra. Assistindo televisão e vendo uma propaganda de inauguração de um novo parque na cidade. E minha filhinha vira-se pra mim e pede “papai, eu quero ir. Você me leva?”. E eu tenho que explicar a ela que ela não pode ir lá. E ela me pergunta: “Por que, papai?”. E eu só tenho uma resposta: ‘Porque você é negra, minha filha. Porque você é negra. Deus lhe fez assim.’ Vocês me pedem isso, porque vocês não precisam passar por isso!”
Que Deus e nossa consciência nos ajude a enxergarmos o outro. Os que sofrem. Os esquecidos, desamparados e discriminados. Que nos ajude a enxergá-los. E após vê-los, olharmos pra nós mesmos para que possamos ver nossa própria culpa na manutenção dessa sociedade da forma em que ela está. Incluindo nossas casas.
16 November VER e ENXERGARTales Messias
Hoje acordei. E não me vi.
Liguei TV. Não me enxerguei.
Corrí ao trabalho. Nessa corrida, não me reconhecí.
Trabalhei, cumprí metas, adquirí novos objetivos
Me enfurnei em planilhas, apresentações,
Excell, Power Point, Corel,
Estatísticas, clusters, cálculos, novas visões.
E não me vi.
Estafado, retornei. Após um banho, um bom café,
olhei de lado...
Vi minha filha, minha esposa. Vi não, enxerguei-as.
Ainda cedo, elas já estavam lá.
Eu não. Não perceptivelmente.
Lembrei das pessoas com quem estive no trabalho.
Lembrei dos que estavam lá.
Notei que lá não estive.
Lembrei de minha corrida para lá chegar.
Mas, vi que durante esta, não me via.
Só então vi que...
É quando me vejo, que passo não apenas a olhar,
mas também a enxergar. É quando vejo o olhar dos
outros, de minha filha, de minha esposa, de meus amigos,
de meu próximo. Olho e vejo, então percebo: o olhar de dor,
ou de alegria, o que cabisbaixo está, o olhar do outro.
Ao me ver, vejo. E vejo que posso continuar
vivendo, acordando bem cedo, correndo, trabalhando,
pressionado...mas, ainda assim, desafiado a continuar enxergando-me.
Que esse olhar pra mim mesmo, seja termômetro, seja indicativo...
de saúde...ou doença... mais que isso, seja também remédio,
diagnosticando e curando, à medida que discerne (pois até o
dicernir é ato divino, por isso já terapêutico).
Mais que isso ainda: que esse olhar seja também esperança,
pois me traz vida em meio a tantos sinais de morte.
Seja ainda luz, pois me clareia os olhos na direção
dos outros...a fim de que me livre da tentação de
centrar-me em mim. Centrando-me em mim,
acabo por não ver o outro.
Mas...que dilema...não afirmei que enxergando
a mim é que vejo o outro?
Se fito os olhos apenas em mim...perco-me em mim.
Se me encontro em mim - vendo quem sou -
além de me encontrar...encontro também o outro.
Minha oração: Me faz ver... primeiro essa! Pois já
disse um pensador que pior que ser cego é não
ter visão.
Me faz ver quem sou. Pois assim encontro-me.
Negando-me a um estilo de vida longe de
meus valores.
Me faz ver o outro. Pois assim, evito ver apenas
quem sou e livro-me da pior das cegueiras:
a insensibilidade à dor do outro.
A ti, Deus. 11 November COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZTales Messias
Hoje, domingo, num desses raros dias onde podemos descansar sem outro compromisso agendado, assistí a um filme: “Como se fosse a primeira vez”. É a história de uma jovem, muito bonita, que após sofrer acidente de carro, passa a ter um problema mental onde sua memória curta é perdida durando apenas um dia. Cada dia, após o acidente, é completamente novo. Com isso, ela esquece de tudo o que houve com ela no dia anterior. Inclusive de um rapaz que a conheceu após esse acidente, e que por ela se apaixona. Todo o restante do filme é uma grande lição de vida: o “namorado diário”, que a ama muito, precisa conquistá-la a cada dia. Como se fosse o primeiro encontro dos dois. Ele precisa, todo dia, fazer com que ela se apaixone por ele. A despeito da família e de todo mundo, que tenta afastá-lo dela, por não acreditar no relacionamento deles, ele, diariamente, de todas as formas possíveis a conquista. Sabe ele que quando ela fecha os olhos...todas as memórias do dia esvaem-se.
Esse filme leva-me a mim mesmo.
As rotinas têm o poder de levar de nós os sentimentos mais importantes. Furta aqueles sentimentos que fizeram nos apaixonar. Nos rouba da mente detalhes que um dia nos impressionou. Tem poder de esfriar o que um dia já foi efervescente. Consegue potencializar em nós grosserias contra aqueles por quem poderíamos morrer. De forma impressionante desfaz sabores do que dantes só trazia prazer.
Olho pra mim...não me vejo no filme...isso me preocupou...e me levou à oração...
“Deus, me ensina e me ajuda a abrir os olhos, cada manhã, ciente e grato pelo trabalho que tenho... com as dificuldades, pressões, prazos e tensões... mas lembrando que, um dia, quando nada tinha, orava pedindo a ti por um trabalho... e quando prometia a mim mesmo que iria dedicar-me a ele, valorizando-o, por saber a dor de não tê-lo.
Me ensina e ajuda a tomar meu café...cada dia...com sabor diferente...pela gratidão de tê-lo a cada dia...
Quando acordar e for dar o primeiro abraço e beijo na minha filhinha...que seja como sendo o primeiro...que seja doce, forte, emocionante, cheio de amor como se só tivesse aquele dia com ela...
Quando for dar um beijo em minha esposa, que este não se pareça com um aperto de mão e nem se torne rotina diária, ritualmente determinado, para a despedida ao trabalho. Mas, que nesse beijo, haja respiração, olhar, toque e intensidade de alguém que queira demonstrar todo o amor sentido...que seja longo...não apressado...que seja sincero e fisicamente bem expressado e que reflita a não vontade de despedir-me.
Que eu ame a quem eu encontrar no caminho...ao meu próximo...como se aquele momento fosse o primeiro...ou último...
Que eu ame a Deus com a mesma paixão e intensidade que um dia me fez despertar pra Ele. Quando um dia decidi, movido por Ele, a ser dEle. Que O ame acima até de mim. Isso fará com que ame os outros, da forma como amo a mim mesmo. Isso fará com que, cada dia, cada manhã, em cada almoço, em cada adormecer, em cada oportunidade dada, eu saiba que preciso viver diariamente, dia a dia, amando as pessoas, os momentos e a Deus como se fosse meu último dia.
E que isso traga de volta algumas ações que teimam em perder-se no tempo e na rotina: - Um café da manhã na cama para minha esposa e filha; - Uma surpresa para quem amo; - Uma cartinha de amor; - Uma tarde num parque totalmente dedicada a minha filha; - Uma palavra de amor e gratidão pelo amor e coerência de meus pais; - Uma tarde dedicada à reflexão e silêncio, para estar comigo e com Deus; - Uma auto-análise sobre como tenho dedicado meu tempo aos pobres e àqueles excluídos; E um sem-número de outros detalhes da vida...que por estarem sempre presente...perdem-se na nossa incapacidade de vê-los...tornando-se ausentes.
Enfim, que a rotina não faça com que me “acostume” com detalhes da vida a ponto de ignorá-los. E que, por isso, eu encare tudo do meu dia “como se fosse a primeira vez" |
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