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30 November HIPOCRISIA E MATURIDADETales Messias Ferreira
Hipócrita é uma palavra grega que significava “aquele que representa”. Ou seja, utilizada para quem era ator. Para alguém que representava um papel irreal num palco. Hoje, com outro uso, refere-se àqueles que, no cotidiano, comportam-se de forma irreal, diferente do que são realmente. Àqueles que, de forma incoerente, externam aquilo que não são internamente. É quando há dissociação entre o interior e o exterior. Quando agimos coreograficamente. Quando reagimos em contrariedade ao coração. Já fiz muito isso. Muito! Já apertei a mão quando tive vontade de xingar. Já elogiei quando tive vontade de humilhar. Já me humilhei quando interiormente sentia orgulho. Já demonstrei piedade sem que o coração sentisse nenhuma ponta de compaixão. Já abracei com vontade de manter-me distante. Já sorri tendo a alma vazia e em prantos. Já me vesti bem sentindo-me desnudo. Já aparentei felicidade sentindo-me oco. Já fechei os olhos demonstrando emoção quando na verdade – em conversa comigo - desejava ir embora daquele lugar. Já beijei sem sentimento. Enfim, já ornamentei tantas vezes meus comportamentos com o fim de que, ao ser observado, transmitisse aquilo que eu gostaria de ter. Ciente, porém, da ausência daquelas virtudes em minha vida.
O tempo passa. A idade – junto com as tempestades da vida – vão transformando nossos valores. Gradualmente começamos a perceber que o palco vai perdendo valor para os bastidores. Nos notamos diferentes. Começamos a valorizar mais a copeira, a faxineira do que os artistas principais. Pois começamos a enxergar o quão patológico é viver-se sempre num palco. Preocupado e tenso com os aplausos. Ansioso quando estes não vêm. Felizes apenas quando se ouve o barulho das palmas. Pois começamos a enxergar a solidão do palco. Nele não há espaço para a informalidade pois tudo foi ensaiado. Nele não há estímulo a uma vida particular pois tudo é exposto. Nele não há liberdade para se errar, pois as vaias virão. Nele não há tempo de se olhar pra si mesmo, pra dentro. Para a alma. Pois tudo é feito com a preocupação de agradar o público.
Quanta gente vive assim. Neurótica. Com a mesma eterna preocupação interior: “o que vão pensar e falar de mim”. É o peso sufocante da opinião alheia.
A libertação vem quando descobrimos quem somos. Quando nos percebemos como pessoas inacabadas e por isso mesmo em constantes mudanças. Quando percebemos que nem Deus nos cobra que sejamos moralmente perfeitos de forma imediata. Ao contrário, Ele nos ensina que isso será feito ao longo da vida...dia a dia. Tal qual um nascer do sol, na aurora do dia. Vagarosamente vai crescendo, um pouquinho de cada vez. Até ser dia completamente. Quando entendemos isso, então nos libertamos! Não para o comodismo. Mas para entendermos que o processo de “construção e acabamentos” será realizado em toda a vida. Diante disso, caem as máscaras. Desfaz-se a necessidade de se representar. Não é mais necessário demonstrarmos quem não somos. Nos rendemos a nós mesmos. A vida se torna mais leve. O humor é melhorado por sabermos que sempre – em toda a vida – haverá o que se aperfeiçoar. O moralismo dá lugar à sensibilidade. O legalismo dá lugar ao respeito pelo que o outro já alcançou. Os julgamentos dão lugar à misericórdia por perceber o que o outro ainda não alcançou. O dedo em riste, apontando os defeitos do outro, dão lugar às mãos unidas, em oração, por notar nossas próprias limitações e fraquezas. Meu desejo permanente: que eu perceba que o processo é longo; que eu deseje sempre caminhar por ele; que eu entenda que pode-se caminhar por ele levemente – de bom humor – aproveitando-se o caminho pois que não estamos sós. É um caminho coletivo. Com Deus.
08 November “No fundo dos meus olhos, pra dentro da memória eu te levei...”Tales Messias Ferreira
Grandes verdades são, por vezes, ilustradas em pequenos detalhes e momentos. Hoje, em dois acontecimentos, uma grande verdade “saltou aos meus olhos”. Nada novo. Mas, geralmente esquecida. Logo cedo assisti uma reportagem sobre o jovem Marcos Mena, ex-vocalista da banda LS Jack. No melhor momento da banda aquele jovem, por vaidade, quis submeter-se a uma lipoaspiração o que resultou numa parada respiratória de 20 minutos vitimizando ele a um sério distúrbio mental. Muitos deram a ele um final na carreira. Mas hoje, cinco anos depois, vi espantado ele lançar num programa da televisão seu novo CD e contar (ainda com fala e raciocínio lentos) emocionado como retornou a vida. Ele, para isso, precisou desdobrar-se em um grande esforço, voltou a ter aulas de música e canto, passou a praticar exercícios físicos diários e a se submeter a uma série de outras disciplinas com o intuito de exercitar a mente e o corpo. Nas palavras da mãe dele: “meu filho está melhor hoje do que antes da tragédia em sua vida”. Nas palavras dele mesmo no programa: “Deus me ajudou e eu voltei”.
Ainda hoje, durante a tarde, assisti a um filme extremamente sensível – por isso raro – e com uma mensagem riquíssima: Noites de Tormenta, todos tem uma segunda chance. A história do filme inteiro, com aguda sensibilidade, nos passa uma mensagem de que é possível retornar e reconstruir aquilo que julgávamos perdido e terminado. Nem sempre o recomeço vem pela reconciliação. Às vezes a separação é necessária para um novo começo. Outras vezes, são necessários humildade e perdão para que haja reconciliação e chance de se reconstruir uma história já tida como encerrada.
Esses dois momentos de meu dia me ensinaram muito. Me relembraram o que ando esquecendo. Trouxeram a mente o que tinha preterido. Me levaram novamente a pensar sobre o que tenho priorizado. Constrangeu meu coração a uma auto-avaliação de meus relacionamentos. Mais que isso, me fez questionar minhas motivações escondidas em cada relacionamento. Me desnudou para minha própria consciência. Tudo isso ao final fez com que eu fosse dormir com muitas perguntas para minha alma: me questionando sobre o local que minha esposa ocupa em meu coração e vida; sobre se tenho sido pra minha filha um pai sensível e presente; sobre minha própria mente e como tenho dissensibilizado ela quando priorizo atividades ao invés de pessoas; sobre meu coração e alma avaliando que tipo de alimento tenho enviado a eles diariamente e sobre como tem sido minha espiritualidade a fim de que não corra o perigo de transformá-la em ritual ensinado, aprendido e reproduzido sem que seja um efervescer diário que brote a partir de momentos e fatos dos mais simples da vida transformados em profundas experiências de minha existência. Por fim, como me ensinou o Marcos Mena e o filme, desejo que cada área de minha vida conheça a possibilidade divina de um novo começo, de uma mudança possível de rota, e que me leve sempre acreditar que há sim – a cada dia – disposição e disponibilidade em Deus para nos levar a um novo começo porque as misericórdias dEle se renovam a cada dia, como bem afirma o texto sagrado.
ONDE DEUS ESTÁ NO MEIO DE TANTO SOFRIMENTO?Tales Messias Ferreira
Semana triste em minha vida. Dessas que a terminamos com um enorme peso emocional nos exigindo um desabafo. Por isso escrevo. Principalmente por dois fatos principais essa semana foi negativamente marcante: por um lado assisti chocado o seqüestro de duas adolescentes - por um jovem de 23 anos - terminar de forma tão trágica: a ex-namorada do rapaz baleada na cabeça e virilha e por isso terminando num estado gravíssimo de coma induzido (depois, morte) e sua amiga com um tiro na boca. Quanta tristeza. Quanta dor reproduzida. Penso nos pais, sendo eu pai também. Penso nos pais do rapaz. Penso no rapaz, em seu desequilíbrio emocional e em tantos outros jovens igualmente desequilibrados emocionalmente que devem existir bem perto de nós (E nem sempre os motivos do desequilíbrio se encontram neles próprios). Penso na dor dos pais das meninas e vejo que meu pensamento confunde-se com um medo horrível de um dia me encontrar em situação semelhante. Penso nas meninas e nos traumas e seqüelas emocionais e físicas. Penso em como a população de forma imediata trata o rapaz como “louco” e “monstro” sem discernir que por vezes nós mesmos criamos um ambiente propício a essas “loucuras” e “monstruosidades” brotarem. Às vezes, inclusive, dentro de nossa própria casa. O outro fato, igualmente triste, foi eu ter presenciado - retornando do trabalho - um assassinato. Aconteceu a poucos metros de mim. Vi um Policial matar um jovem (depois li que era um ex-presidiário) a queima roupa com quatro tiros, em Boa Viagem. Voltei pra casa naquela noite transtornado. Por um lado vi a violência pela televisão, mas com a proteção por estar apenas assistindo sem que estivesse fisicamente próximo da violência. De toda forma nos dá uma sensação de que aquilo está longe de nós. Por outro, vejo o quanto todos nós estamos vulneráveis a sofrer violência ou assisti-la de forma extremamente próxima. Uma pergunta sempre presente quando em meio a muito sofrimento é: Por que Deus permite que fatos como esses aconteçam? Ou ainda: Se Deus é bom, por que permite tanto mal? A única resposta que encontro diante de tudo isso é que Deus nunca planejou que vivêssemos mergulhados em tanta maldade. Deus nunca projetou que a criação dEle (criada por Ele e para Ele) se afastasse tanto de seu Projeto Original. Mas, diante disso, sempre uma outra pergunta vem a mente: “Ele é impotente para que nada possa fazer diante da maldade crescente?”. E a resposta dEle foi vir aqui nos ensinar a viver. A resposta dEle foi ter vindo aqui não apenas trazer redenção futura, mas nos ensinar a viver hoje. Nos ensinar a ser gente. Por isso, enquanto Jesus tocava em leprosos Ele não tinha apenas intenção de curar pontualmente alguém mas ensinar a humanidade de que todos nós precisamos sentir a dor do outro e, mais que isso, que todos nós precisamos ir em direção daquele que vive excluído socialmente (como eram os leprosos). Quando Jesus citou - naquela cena magnífica da mulher flagrada em adultério e merecedora de apedrejamento segundo lei judaica – que “atire a primeira pedra aquele que não cometeu pecado” queria nos ensinar a não considerarmos monstros e loucos o erro dos outros sem, antes, pararmos para considerar nossos próprios erros, loucuras e monstruosidades, feitas às vezes em secreto. Quando Jesus multiplicou pães para famintos nos ensinava que muito das dores dos outros podem ser aliviadas através da solidariedade. Por isso, diante de tantas más notícias e tristezas apenas posso desejar aprender mais com Jesus sobre como eu devo ser. E afirmar que há um novo modo de ser gente, de se viver, de se relacionar. Olhando para o Cristo.
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