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    19 February

    SOBRE O SOFRIMENTO HUMANO

    Tales Messias Ferreira

     

              Uma observação rápida nos jornais é suficiente para nos chocarmos diante de tanta violência e auto-destruição: uma garotinha de 11 anos morta na garagem do edifício de seus tios, espremida entre o carro e uma pilastra; o Estado preocupado com o uso das “buzinas” como droga, entre a juventude, no período do carnaval; bebê que leva um tiro dentro de um ônibus durante tentativa de assalto; violência aumentada no Quênia devido a guerra entre tribos que já levou a morte quase 1000 pessoas. O sofrimento humano nos encontra e nos deixa vulneráveis a todo instante. As perguntas que geralmente surgem em momentos assim são: Onde Deus está? Por que Deus não termina com esse sofrimento? Se Deus é bom por que tanta maldade causadora de tanto sofrimento? Se Deus é Todo-Poderoso por que não demonstra poder e vontade em acabar com todo esse sofrimento? Por que seu silêncio e aparente apatia diante de todo o sofrimento humano?

               Jesus, como afirmam alguns, não veio aqui apenas para ser um Profeta, ou uma “pessoa iluminada”. Além de nos trazer salvação, por sua morte e ressurreição, Jesus inaugurou um novo Reino, onde, neste, a vontade de Deus é realizada tanto quanto existe no céu. Um novo Reino, com novo estilo de reinado, com o fim de uma nova humanidade. Ou a restauração desta. Neste novo Reino, uma de suas marcas seria a solidariedade. Por esta, muito dos sofrimentos seriam sanados...ou minimizados. Quando Jesus tocou em leprosos, gente que ninguém poderia tocar na época, ele não queria apenas curar aqueles doentes, ele pretendia curar a humanidade de sua natureza excludente, preconceituosa e insensível. Queria nos ensinar sobre solidariedade. Quando Jesus envergonhou aqueles homens que queriam apedrejar a mulher pega em adultério, afirmando que só deveria atirar pedras quem não tivesse pecado, ele não queria apenas “livrar” a mulher das pedradas. Não só isso. Ele queria ensinar que em seu Reino, a humanidade deveria se despir de toda hipocrisia, inclusive religiosa, que lotam os templos e que pregam piedade e religiosidade mas que não consegue enxergar os pecados dos outros como dignos de serem ajudados e, ainda, que impede de nos vermos como iguais, como pessoas potencialmente capazes de sofrer os mesmos problemas e cometer torpezas tanto quanto o outro. Sem distinção de gênero, de cor e muito menos de função, pois muitos de nossos títulos apenas nos servem de esconderijo para nossos desvios morais travestidos de piedade.

              Se aprendêssemos com Jesus, nos importaríamos menos com nossas estruturas materiais eclesiásticas e mais com nosso próximo - e este pode ser encontrado em qualquer estrada diária (tal qual o samaritano da Bíblia); enxergaríamos os olhos marejados por tanto sofrimento; perceberíamos, no trabalho, aqueles que lutam internamente – e silentemente – com tantos problemas e que necessitam de um amigo com quem dividam as cargas; leríamos os jornais e as más notícias como sendo co-responsáveis para buscarmos mudanças e transformações sociais, mesmo que em nível micro: em nossos ambientes de trabalho, em nossa casa, em nossa rua; olharíamos para os pobres como Jesus os enxergou - “sempre que deste um alimento, um copo de água a um destes pequeninos, a mim me deste...sempre que os cobriste...a mim me cobriste...”.

             Solidariedade. Amor ao próximo. Os valores de um Reino. Não de uma religião. Não de um movimento. Não de uma instituição. Valores de um novo Reino, que busca simplesmente tornar homens, em homens semelhantes a Jesus. Que foi homem. Que viveu entre nós. Que nos ensinou a ser homens. Uma nova humanidade. Como a que Ele criou. Um retorno. Diante do sofrimento Deus nunca esteve apático, ausente. Nos enviou Jesus para nos ensinar uma nova consciência de como deveríamos viver. Solidariedade.

     

     

    12 February

    Quem é meu próximo?

    Rubem Alves
     
    E perguntaram a Jesus: "Quem é o meu próximo?" E ele lhes contou a
    seguinte parábola:

    Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um
    garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste.
    A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco.
    Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma
    vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas
    na mão e disseram: "Vá passando a carteira". O garçom não resistiu.
    Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão
    pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente,
    deixando-o desacordado no chão.

    Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no
    seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele
    homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou
    com palavras religiosas: "Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um
    vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você."
    Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um
    gesto sacerdotal de absolvição de pecados: "Ego te absolvo..."
    Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por
    ter consolado aquele homem com as palavras da religião.

    Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor
    evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de
    oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e
    gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou,
    baixinho: "Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu
    foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você
    não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando
    ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno.
    Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus
    problemas serão resolvidos!" O homem gemeu mais uma vez e o pastor
    interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse,
    então, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter
    permitido salvar mais uma alma.

    Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o
    homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu
    não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana
    é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação
    têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez
    numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a
    alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está
    paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem.
    Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a
    evoluir." Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe,
    levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do
    karma.

    O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro,
    brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom.
    Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer
    uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e
    o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos
    cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam
    distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o
    colocou no bolso do homem ferido.

    Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Alguns já o
    olhavam com ódio. Jesus, porém, os olhou com profundo amor e lhes
    perguntou: "Quem foi o próximo do homem ferido?"

    07 February

    O EFEITO DA OPINIÃO ALHEIA

     TALES MESSIAS

     

    “Eu já não consigo mais lembrar...de quanto rastro de incompreensão já deixei” (Lulu Santos)

     

    Há um poder, sutil e dissimulado, no meio da sociedade. É o poder da opinião alheia. Ela é capaz de pôr dúvidas nos mais bem intencionados. Ela é capaz de amedrontar os mais convictos. Ela é capaz de calar até aqueles que discursavam com intrepidez. Lya Luft discorreu sobre isso em seu excelente livro “perdas e ganhos”:

    “A sociedade em que vivemos tem muitos olhos e braços, que nos vigiam e interferem em nossa realidade. Um deles chama-se opinião alheia. Não a de algumas pessoas amadas e respeitadas, mas essa entidade informe, onipresente, quase onipotente, do “o que eles vão pensar”. Sem pedir licença entra em nossa casa e nossa consciência, limitando, podando.” (pp 31)

     

    Todos os dias estamos mergulhados em um dilema: realizar e buscar aquilo que nós cremos e sonhamos ou, render-nos aos sonhos e vontades de outros. De um lado, nossas convicções, vontades, desejos e percepções pessoais. Do outro, uma massa, chamada sociedade, que nos impõe o que é certo e aceitável para se buscar e sonhar. Ela, incansavelmente, nos remete mensagens sobre aquilo que devemos fazer e a forma como devemos nos portar. É uma coerção que pode esconder muitas faces: ela acontece através de uma recriminação aberta quando somos confrontados verbalmente, mas ela tem outras faces, como um olhar de ironia, uma palavra dita no ouvido de alguém de onde surgem risos demonstrando desprezo por nossos atos. Outras vezes, toma proporções maiores como expulsão de alguma comunidade, de uma igreja, de uma associação e até de uma equipe esportiva (pouco tempo atrás, na última copa, um jogador foi impedido de jogar pelo seu técnico. O motivo: seu cabelo estava grande demais, desgostando o técnico). São as interferências que colocam sobre nossas vidas, mesmo em questões de extrema privacidade, que tentam moldar-nos a fim de que sejamos “aceitáveis”. Com isso, não me refiro, em hipótese alguma, sobre questões onde tragam prejuízo ao outro. Nesses casos, a sociedade realmente precisa intervir. Refiro-me, porém, a pequenos gestos, gostos, vontades, estilos de vida, onde ninguém é prejudicado. Ou talvez sonhos que temos que ninguém mais precisa seguí-los caso não queiram.

     

    A fim de conseguir êxito na sua coerção, a fim de conseguirem nos amoldar aos seus gostos e desejos, os manipuladores se utilizam de tantas artimanhas. Por exemplo, se um adolescente é tímido, recatado, tido, por isso, como “diferente” ou “estranho”, ele é  coagido a mudar seu visual e postura através da rejeição. Rejeitam a ele, escanteiam-no, a fim de que se sinta complexado e impulsionado a ser igual aos outros. Com isso, ele rejeita quem ele é, na verdade, para buscar aprovação social. No futuro, ele terá que se redescobrir pois esqueceu-se de quem era para ser aquilo que desejavam que ele fosse. Outro exemplo, nas igrejas cristãs, principalmente evangélicas: adota-se um conjunto de regras “não oficiais” morais a fim de que todos se sintam pressionados a serem e agirem daquela forma. Tudo isso geralmente estimulado pelo pastor ou padre em suas preleções, utilizando-se de sua figura pastoral para dizer coisas como “Deus não quer você usando essa roupa. Deus não quer você ouvindo esse tipo de música. Deus não quer você fazendo isso. Deus não quer você fazendo e usando isso que você faz. Não é vontade de Deus” E o pior de tudo é que a Bíblia, livro onde os cristãos se inspiram para sua vivência, não afirma absolutamente nada sobre estas coisas. Por fim, o líder religioso utiliza-se de um último recurso quando alguém diz a ele: “Mas, pastor (padre), isso não está na Bíblia !”. Ele, então, responde dizendo “Mas está escrito ‘Não escandalizeis’. E você está escandalizando”. E aí, o pobre coitado, manipulado, ultrajado em seu desejo e vontade, é forçado a amoldar-se aos outros; perdendo, assim, o direito de ser quem ele acredita que deveria ser.

     

    Opinião alheia. É tão difícil conciliar esse poder oculto com nossos sonhos, projetos e desejos quando eles se chocam. Há tanta gente contida, domada, tratada como cãozinho adestrado, a fim de que ele simplesmente repita o que todos já fizeram, ou a fim de que ele apenas realize o que os outros desejam. Parece que só os líderes têm consciência, só eles sonham, só eles têm visões, só eles ouvem o Espírito Santo, só eles, os que regem, sabem ler e interpretar a realidade. Viola-se a consciência daqueles que acreditam que poderiam fazer aquilo que eles têm ouvido lá dentro no próprio coração. Como bem afirmou Mahatma Gandhi:

    “Nas questões de consciência, a lei da Maioria não conta”

     

    Eu o desafio a ouvir a voz interior que fala em sua vida. A sonhar sonhos jamais concebidos. A perceber caminhos que nunca foram trilhados. Por que vivemos aprisionados, como pássaros que nasceram para o céu, mas acostumados que estão com as gaiolas, sentem-se bem nelas, mesmo tendo poder de abrí-las para voar. Por que? Por que nos rendermos às vontades daqueles que têm vocações diferentes das nossas e, por essa razão, fazem de tudo para se utilizar das massas para, na verdade, usá-las para o cumprimento de seus próprios sonhos e projetos ambiciosos ?

     

    Há, na sociedade, um processo semelhante ao que se faz com um animal selvagem nos circos. Eles são tirados de seus habitats naturais, desvirtuados de seus instintos e vontades, e passam por um processo que eles chamam de “domesticação”. Isso nada mais é do que fazer com ele perca sua essência a fim de amoldar-se aos caprichos do ser humano. Isso é maldade disfarçada de entretenimento. Isso é feito também conosco a cada dia, em cada espaço onde há hierarquia de posições, ou pela sociedade envolvente. Lya Luft afirma que:

    “Queiram os deuses que nesse processo de domesticação a gente consiga preservar a capacidade de sonhar. Pois a utopia será o terreno da nossa liberdade. Ou acabaremos como focas treinadas cumprindo corretamente nossas tarefas, mas soterrando aquilo que chamamos psique, self, eu, ou simplesmente alma. Seremos roídos pela futilidade, tão mortal quanto a pior doença: ataca a alma, deixando-a porosa e quebradiça como certos esqueletos. A alma com osteoporose.” (pp 24)

     

    Ouse ser quem você é. Ouse ser aquilo que você acredita que deva ser. Ouse fazer e realizar aquilo que você acredita que é sua vocação. Porém, não caminhe sozinho. Busque a Deus e também conselheiros, mentores. Não qualquer um. Apenas aqueles que são realmente sábios. Não aqueles que querem fazer de seus mentoreados, alunos, pessoas iguais a ele. Esses não servem. São personalistas e acreditam que suas vontades são sempre as melhores e as únicas realmente “divinas”. Menosprezam o desejo dos outros.

     

     

    Como bem disse Amos Bronson :

    “O verdadeiro professor defende os seus alunos

     contra sua própria influência”

    Busque pessoas que saibam ouvir, que respeite seus sonhos, que seja sensível às suas dores, que compreenda que sua vocação nunca será igual a dele e que a função dele é ajudar o mentoreado a encontrar: ele mesmo, suas capacidades pessoais e suas crenças e sonhos.

     

    Ouse, porém, ir atrás daquilo em que crê. Não acostume-se com o habitual mesmo que a rotina seja mais confortável. Não se acostume a ela. Como já afirmou um escritor:

    “Sair do estabelecido e habitual, mesmo ruim, é sempre pertubador.

    O desejo de ser mais livre é forte. O medo de sair da situação conhecida, por pior que ela seja, pode ser maior ainda.”

    Ouse caminhar para caminhos que só você pode trilhar, mesmo diante da incompreensão dos outros.

     

    Talvez você precise, para conseguir isto, parar para pensar. O que, na verdade, já é uma grande vitória. Pois o mundo que nos impõe o que devemos ser, utiliza-se, também, de uma estratégia para alcançar isto: distanciar-nos da reflexão. Com isso, julgamos perigoso o uso da mente e da auto-reflexão.

    “Não gostamos de refletir e decidir: ‘se a gente parar para pensar, tudo desmorona’, me disse alguém. Temos receio de encontrar a ponta do fio dissimulada na confusão do novelo, e, puxando por ela, ver tudo se desmontar.

    Mas pode ser positivo: poderíamos recolher os cacos e recomeçar. Quem sabe criar uma estrutura interior mais natural e boa do que essa em que nos fundamos, e baseados nela dar aos filhos um legado – e um recado – tranquilo e positivo, que não está em livros e nem em consultórios.” (Lya Luft, perdas e ganhos, pp 42)

     

    Ouse sonhar e descobrir quem você é. Não se intimide a ir em busca de seus sonhos. Não seja apenas o que os outros desejam para você. Talvez você seja julgado como alguém esquisito, diferente, estranho. Mas, será feliz por ser você e não o que desejam que você seja. Será realizado por ter buscado o que crê e não por ter sido adestrado a buscar o que outros buscam. Talvez, como disse a frase inicial do Lulu Santos, você deixe um rastro de incompreensões, porque nem todos concordarão com você. Mas, em compensação, sua alma estará tranquila porque você não a vendeu por medo das coerções, ou por dinheiro, ou por medo de perder amizades. Às vezes, ao escolhermos andar pelos caminhos que cremos, até sozinhos somos obrigados a ficar:

    “Se temes a solidão, não tentes ser justo”

    Jules Renard

     

    Seja o que for, busque ser você, busque seus sonhos, caminhe os caminhos que estão propostos a você. Não dependa dos outros para suas ações e sonhos.