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    31 March

    COERÊNCIA CONTRADITÓRIA

     Tales Messias

     

    Por que insistimos em dizer que somos completamente sãos?

    Por que necessitamos afirmar que dificilmente nos enganamos?

    Por que a infantil preocupação de parecermos seguros?

    Perdoem-me mas os infantes não são assim...eles assumem sua fragilidade.

    Aos adultos cabe esse ofício de precisa demonstrar força e poder.

     

    Por que teimamos em refletir uma imagem de plena segurança?

    Por que nossa ânsia imatura de sermos conhecidos como aqueles que não perdem o controle?

    Por que o medo de mostrar nossas sombras?

     

    Você não concorda com o que digo? Não....? Será que estou enganado...

    Ou nunca prometemos o que sabíamos não sermos capazes de cumprir?

    Ou nunca demonstramos falsamente uma apreciação por alguém quando, no íntimo, havia reprovação e desgosto?

    Ou nunca fizemos, escondidos, algo que sabíamos ser digno de gozação?

     

    Quantos amores declarados...que foram se esvaindo com o tempo.

    Quantas amizades, oralmente declaradas, que foram esquecidas.

    Quantas palavras de fidelidade tornaram-se, no mínimo, indiferentes.

    Quantos sorrisos espalhados quando, na verdade, apenas queríamos ser gentis.

    Chamamos educação a isso... impossível chamar falsidade. Seria vil. Melhor o esmalte

    externo que o frágil barro interior de um vaso.

     

    Quantas falsas impressões refletimos na busca insana de parecermos o que não somos.

    Quantas roupas caras compradas com a intenção de cobrir nossa alma pequena, complexada.

    Quantos sapatos valiosos adquirimos a fim de escondermos os frios caminhos

    por onde andamos.

    Quantas acusações e condenações lançamos apenas para não vermos nossos próprios

    e semelhantes erros?

     

    Como é difícil nos vermos, nos enxergarmos.

    Como dói a dura realidade da alma humana.

    Como tentamos nos desvencilhar de nós mesmos

    A exposição direta ao que somos nos envergonha.

    É tão melhor a doce ilusão, por isso falsa, de quem imaginariamente gostaríamos de ser.

     

    Mas, é libertador nos aceitarmos frágeis.

    É sábio aquele que conhece suas potencialidades mas não rejeita suas imperfeições.

    Que, em si, percebe força e fragilidade, sensibilidade e sequidão, coragem e medo,

    inteligência e imprudência, conhecimento e superficialidade, desejos e impossibilidades.

    Tensão morando em nós. Como a saudosa brincadeira do "cabo de guerra". Guerreando,

    agora, em nossa alma. Vive-se, ao contrário do que se pensa, em paz, quem aceita e enxerga essas duplicidades humanas. Quem as vê como algo inerente ao espírito humano.

    Isso é assim, adâmico, desde a história da origem humana na tradição judaica.

     

    Vive em maior guerra aquele que, ao contrário, não aceita ser portador desta guerra interna.

    Pois vive na ânsia inútil de não ser humano. De ser protótipo do que deveríamos ser. Originalmente. Vive escondido, encaramujado, obrigando a alma a ser eremita, todos os que - em nome de uma falsa religião, ou moralismo, ou legalismo neurotizante - buscam refletir uma imagem do que nunca foram. À semelhança de um malabarista de circo que, na busca de não deixar prato algum cair no chão, ocupa-se exclusivamente de fazê-los rodopiar num bastão, não tendo tempo de desfrutar de mais nada, nem mesmo de sua própria atividade. Assim vivem esses, pseudo-humanos, eternos mantenedores de uma imagem que nunca houve, mas que eles insistem em revelar.

     

    Somos aquém do que gostaríamos. Vivemos com esperanças. Sonhos. Seremos e viveremos melhores quando, finalmente, desistirmos de ser deuses. E aceitarmos que, no máximo, somos semelhantes. Ele, apenas Ele, é. Nós existimos e sub-existimos e nos movemos  nEle....porque Ele, sim, é.  

     

    21 March

    HIPNOTISMO SOCIAL

    Tales Messias

     

    Já valorizei ter sucesso mais do que ter amigos;

    Já me enchi de prazer em ter uma agenda cheia sem perceber os malefícios conseqüentes;

    Já olhei para uma vida bem sucedida com mais brilho do que o sorriso de minha filha;

    Já gostei dos aplausos, mais do que a benéfica palavra crítica de um amigo;

    Já desejei mais reuniões de planejamento do que um café num terraço de um amigo;

    Já amei mais sapatos do que chinelos;

    Já palpitei mais por palavras como "visão" e "estratégias" do que "paixão" e "sinceridade";

    Já me enxerguei me deliciando com o palco sem encontrar as virtudes dos bastidores;

    Já me encontrei cego, guiando e sendo guiado por outros cegos, desejando as sombras tal qual a caverna platônica;

     

    Enganei-me. Deixei-me seduzir. A vida não estava ali, por mais bem intencionado estivesse. A vida não brotava de uma aridez absurdamente atraente. Ao contrário, imperceptivelmente não notei que sutilmente ia ficando tal qual as paredes brancas, idolatradas, ornamentadas, límpidas dos templos (semelhantes, na maioria, às paredes de um sepulcro) mas duras, secas, insensíveis que rodeavam-me.

     

    Um hipnotismo. É o que hoje percebo.

     

    O divino nos encontra quando numa flor tocamos.

    Quando frágeis nos percebemos.

    Quando um sorriso sincero se descortina pra nós.

     

    Num café. Rodeado de paz e reflexão. Não no meio do vendaval diário dos religiosos e executivos.

    Mas na brisa suave da sensibilidade, do amor, da gentileza, do perdão, de uma palavra doce e contrastantemente suave.

    Não nos atrativos arrebatadores da riqueza, da moda e do poder.

    Mas, no olhar silente, até solitário, de uma criança em desamparo.

    Na evolução diária, lenta, humanamente imperceptível, do brotar de um girassol.

    No canto solitário de um pássaro buscando harmonia com o nascer do dia.

    Num copo de água, quando sedentos.

    Em situações e fatos que, outrora, julguei pequenos, irrelevantes.

    Mas capazes de nos encher. Enchendo a alma.

     

    No abandono do que fui e desejei, não encontrei um novo modo de vida, encontrei-a finalmente. E assim, me encontro.

    11 March

    TORNANDO-SE ADULTO

    Tales Messias

     

    “Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”

     

    Essas são palavras de Jesus para Pedro. Sempre admirei Pedro! Não pelos milagres realizados por ele. Não por sua liderança. Não por ser um dos pilares do cristianismo primitivo. Sempre o admirei por sua humanidade. E, por essa razão, sempre me vi nas atitudes de um Pedro temperamental (quantas vezes quis enfiar uma espada em alguém. Mesmo que conseguisse arrancar só uma orelhinha); de um Pedro extremista, exagerado (quantas vezes teimei com Deus – tal como Pedro que não quis  que o Mestre lavasse seus pés – para logo em seguida abrir-me completamente a Ele – assim como o Pedrão: “lava-me completamente, Senhor); de um Pedro que quando acerta algo (“bem-aventurado és Simão...porque do céu te foi revelado”) logo se enche e se incha levando-o a pecar e tendo que ser corrigido por Deus(“arreda, satanás, tu és para mim pedra de tropeço...”).

    Por isso, o que mais me causa admiração em Pedro é sua semelhança comigo. E por isso sempre penso: “se houve jeito para Pedro, há jeito para mim também”.

     

    Com a frase de Jesus para Pedro (“Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”), apesar do evangelho afirmar que essa frase foi dita com a intenção de indicar qual a morte que Pedro teria (crucificado, tal qual Jesus), quero propor um outro modo de interpretá-la. Isso não é idéia minha. Costumo citar as fontes de minhas idéias: esse novo modo de interpretar esse texto é do Henry Nouwen. Ele entende que essa frase nos leva ao discipulado. Com essa frase Jesus queria nos ensinar que quando jovens – não apenas na idade, mas na maturidade – guiamos nossas próprias vidas. Caminhamos segundo nosso próprio pensamento e desejos. Não pensamos nos outros. Não medimos conseqüências. Não calculamos os prejuízos. Somos guiados apenas por nossos desejos e por aquilo que apenas nos satisfaz.

     

    Quando vem a maturidade...continuamos tendo desejos escusos. Obscuros. Maliciosos. Distoantes. Mas, com a maturidade entendemos que maior que nossos desejos está a vontade dEle e também o que chamamos “bem comum”. Na maturidade, entendemos o que é amar ao próximo como a nós mesmos. Entendemos que precisamos pensar no outro e buscar o bem do outro. Aprendemos a renunciar nossa própria vontade em favor do bem alheio. Não chamem isso de massa manipulável. Nem de “Maria vai com as outras”. Não é disso que falo. Falo de solidariedade (quando doamos algo nosso a fim de que todos ganhem). Falo de sensibilidade (quando passamos a sentir as dores do outro como sendo nossa própria dor). Falo de coletividade (quando buscamos o que é bom para todos e não apenas o que beneficia a mim). Falo de comunidade (quando entendemos que vida em comum exige renúncia a fim de que todos cresçam. É o oposto de egoísmo).

     

    Pedro tornou-se nesse homem. Alguém que se doou a fim de que todos recebessem. Alguém que renunciou crenças e paradigmas e que reconheceu que necessitava expandir-se em várias concepções e convicções (quando foi conscientizado por Deus – e por Paulo – de que precisava considerar os gentios como sendo iguais aos judeus). Alguém que deixou ser preso pacificamente porque reconheceu ser privilégio sofrer pelo evangelho.

     

    Se houve jeito para Pedro, há jeito para mim e você.

    “...quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”. Desejo aprender isso um dia. Quero ser vestido por outro, aprender que outros poderão me cobrir de meu “frio” e necessidade, reconhecer que por outras pessoas posso ser “aquecido”, protegido. Quero aprender a renunciar meus próprios desejos. Quero aprender a não ver a mim mesmo. Quero aprender a ter prazer em ver os outros me guiando. Mesmo que para caminhos que eu não deseje ir. Mas, quero aprender a ser guiado. Desde que não contrariem minhas convicções de fé. Mas, quem sabe se até nas minhas convicções não precisarei reaprender com outros? Quero aprender esse caminho.

     

    Sempre fui ensinado que quanto mais maduro mais nos tornamos bons chefes. Por esse texto aprendo que quanto mais maduros mais nos tornamos abertos à liderança de outros. E que quanto mais maduros líderes formos, saberemos pensar no outro, viver para o outro.

     

    Se houve jeito para Pedro, creio que haverá jeito para mim e para você.

     

     

     

    02 March

    CAMINHANDO...

    Tales Messias

     

    CAMINHANDO...

    (Baseado na história bíblica do Bom Samaritano)

     

    Certo homem, seguro de si, num dia aparentemente comum, caminhava. Caminhava com destino certo. Ele tinha morada certa e andava para um local já conhecido. De Jerusalém ele se encaminhava para Jericó. A estrada era conhecida, o percurso e os percalços também. Enquanto aquele homem caminhava, num dia comum, numa estrada conhecida, para um local não desconhecido, exalava em seu rosto tranquilidade e segurança.

     

    Qualquer pessoa que tenha conhecimento da estrada que trilha, do rumo que tomou e do destino de sua peregrinação, vive externando segurança. Seu semblante é de alguém que tem a vida sob controle. De alguém seguro.

     

    De repente, porém, subitamente, algo estranho, inesperado, fora do script pré-determinado acontece: aquele homem é golpeado, espancado, esmurrado incansavelmente. Não só fisicamente é atingido mas, a essa altura, sua suposta segurança foi abalada. Aquela estrada conhecida guardava mistérios. Sua alma, antes segura, agora sofre pelas surpresas. Como é difícil ser surpreendido por tragédias e mudanças de rumo!!! Assaltantes, então, espancam aquele homem, roubam tudo e o deixam quase morto na estrada. E nu.

     

    Muita poeira, muito sangue, muita dor, tantas dúvidas agora. Sem mais nenhum senso de direção, sem mais forças pra reagir, fugiu dele aquela  antiga sensação de segurança e controle. Assim ficou aquele homem.

     

    Assim ficamos nós quando, inesperadamente, a vida muda o rumo. Sem avisos prévios. As surpresas nos tiram aquela falsa sensação de segurança e controle. O poder de reação às vezes nos foge. A direção fica confusa. Um profundo sentimento de solidão aparece. Nu ficamos. Vulneráveis.

     

    De repente, passos. Aquele homem, abrindo um pouco os olhos, vê se aproximando alguém com roupas conhecidas: um sacerdote. Novamente teima em voltar aquele sentimento de segurança pelo que se conhece. E o homem pensa: “que bom. Estou salvo. Um homem bom, de Deus, me ajudará.” Ele, então, fecha os olhos – cansados e doloridos – aguardando um toque em seu corpo, uma mão amiga a ajudá-lo. Os passos, porém, não diminuem o ritmo. E vão se esvaindo, indo embora... As dúvidas retornam...e aumentam...

     

    Novos passos, os olhos se abrem novamente, menos esperançosos agora. Novamente um estilo de roupa conhecido: um levita. “É um homem de Deus, esse me ajudará.” Novamente os passos se vão, e com eles a esperança. Vem, porém, a frustração, o medo, o sentimento de desamparo.

     

    Pela terceira vez, novos passos. Ele já nem mais abre os olhos. Cada vez sente-se mais morto e menos disposto. No corpo e no espírito. Mais inseguro. De repente...um toque...uma voz...alguém o segura forte. Dói muito aquele toque. Mas, agora, são mãos de ajuda. O homem é colocado sobre um cavalo. Cada pisada do animal, faz o homem gemer. O homem é levado a uma pousada, deitado numa cama, tratado, amado... e dorme. Antes, porém, abre mais uma vez os olhos... e vê quem o ajudou... um samaritano ?! Um inimigo ?!

     

    Tantas são as vezes que, no meio da dor e de tanta aflição, somos surpreendidos pelo amor  de pessoas que nunca pensaramos receber. Um amor desobrigado, apenas amor!

     

    Dias depois – até porque a cura dificilmente vem de forma instantânea nem através de fórmulas pré-estabelecidas– aquele homem vai embora. Descobre, antes, porém, que todas as despesas já foram pagas.

     

    Ao retornar, há um misto em seu coração. Temor por reconhecer que era falso aquele sentimento de segurança e controle. A vida, por vezes, nos surpreende com notícias e eventos que nos tiram completamente a sensação de controle e administração de nossa vida.

     

    Mas, além de temor, um profundo sentimento de que sua vida foi levada a um novo, e mais alto, patamar. De que aquela experiência, de ter sido subjugado, maltratado, espancado, desrespeitado, roubado, deixado nu ...trouxe à sua alma uma sensibilidade nunca antes sentida. As perdas, as falências, as humilhações e solidões trazem muita dor, mas, junto a ela, vêm sensibilidade – a Deus e aos que sofrem – vêm disposição para a meditação e reflexão, entendimento de que muito do que se fazia era mera coreografia, enfeite, sem profundidade para a alma, ganha-se solitude diante de Deus, respeito à vida sem esquecer-se de que ela, por vezes, nos lança num epicentro de um furacão.

     

    Aquele homem, antes tão seguro ...volta agora, pra casa, pensativo e refletindo. Vez por outra, ainda caminhando, lágrimas saem dos seus olhos. É ele percebendo que sua vida pode ser muito mais profunda do que já foi. Pode ser menos previsível do que já foi. Que irá confiar menos em si mesmo, em suas capacidades e conhecimentos, do que antes. Que aquele senso de que podemos administrar completamente a vida, tê-la sob controle, é uma ilusão. Que não podemos fugir às perdas, desilusões e falências mas que a profundidade e a maturidade vêm anexadas aos sofrimentos.

     

    E assim ele volta... e ... finalmente ...aquela estrada se tornou um caminho.