Tales's profileTales MessiasPhotosBlogListsMore ![]() | Help |
|
28 March Abraçando para o arrependimentoTales Messias Ferreira
Há textos que nos saltam aos olhos de tempos em tempos. Assim tem sido para mim a parábola do filho pródigo relatada no livro do médico Lucas (cap 15). Principalmente quando ele relata o encontro do Pai com o filho mais novo. Aquele filho que tinha pedido sua parte na herança e tinha gasto tudo com prostitutas e festas. Aquele que tinha dado as costas à família indo morar o mais longe possível do Pai. Aquele que perdeu parte da herança ganha as custas do trabalho do Pai. Aquele tido como o mais irresponsável da casa. E o texto nos diz que esse filho decide voltar para casa, humilhado, com fome, desejando receber o tratamento que os empregados de seu pai tinham. A motivação de seu retorno: fome. Teve fome e lembrou que na casa de seu pai ninguém passava fome, nem mesmo os empregados de seu pai. Decide voltar e pedir que seja tratado como um empregado e não mais como filho. Pois tinha gasto a parte que lhe cabia na herança como filho. Ele não parece estar arrependido. Ele não parece ter voltado por ter tido a consciência de seus erros e falhas. Ele não parece decidido a voltar porque avaliou suas atitudes e enxergou-se errado nelas. Não! Ele teve fome! Passou a comer comida de animais (e não qualquer animal mas sim porcos. Que era um animal tido como impuro para os judeus). E diante da extrema necessidade e fome, decide voltar.
O retorno é marcado por emoção: o pai o vê de longe e, cheio de compaixão, corre ao encontro do filho. Para a época, um ancião correr em direção ao filho era sinônimo de humilhação. Era algo inaceitável. O Pai da história faz isso. Sequer ouve o filho pedir que o trate como empregado. Pede que traga para o Filho uma capa, um anel e uma sandália a fim de que se sinta filho novamente (o anel sinalizava isso), distinto dos demais (apenas empregados andavam descalços) e acolhido.
Sabe o que acho interessante por demais nessa história? O Pai não esperou o filho à porta. O Pai não fez questionamentos a ele. Não esperou ele primeiro explicar-se dos seus erros. Não precisou primeiro demonstrar arrependimento de seus pecados, erros e ingratidões. Não foi necessário submetê-lo a humilhação. Não foi necessário puni-lo.
O Pai não quis abraçar o filho arrependido. O Pai não quis abraçar o filho caso ele demonstrasse arrependimento. Ele abraçou o filho PARA o arrependimento. O abraço era sinal de perdão antecipado. O abraço não era resposta ao arrependimento mas sim catalizador para que isso acontecesse. O abraço era movido por um amor não diminuído diante dos erros. Abraço para arrependimento e não abraço caso haja arrependimento.
Nos nossos piores momentos precisamos de um abraço para o arrependimento. Pois o amor nos constrange a isso. O Pai da história representa Deus. Meu maior desafio é entender que cada vez que Jesus agia enquanto por aqui andou ele me ensinava como o ser humano deve ser. Cada história, como essa, que Jesus contava ele estava gritando para nós de que o ser humano devia ser e viver de uma forma diferente do que temos vivido. Por isso, enquanto leio, ouço Jesus sussurrando em meus ouvidos e dizendo: “seja assim, Tales...abrace. Mesmo quem não se arrependeu. Mesmo quem não demonstra consciência de pecado. Com seu abraço, talvez ele faça isso. Simplesmente ame. Assim, talvez, ele caia em si... e volte. E lembre-se: eu ensinei a você como fazer isso pois fiz e faço isso com você. Todos o dias”.
21 March A HUMILHAÇÃO VEM DE DEUS ?Tales Messias
Certa vez ouvi um preletor a quem muito estimo afirmar que “toda humilhação vem de Deus”. De imediato aquela frase me causou estranheza. E discordei dela. Pensei comigo nas diversas injustiças vistas diariamente por causa de tantas desigualdades sociais. Lembrei-me dos pobres, daqueles que enfrentam horas a fim de serem atendidos nos hospitais públicos. Daqueles que não possuem condições de pagar um advogado diante de injustiças sofridas. E tantas humilhações que os excluídos são obrigados a enfrentar e que não parecem, de forma alguma, coadunar-se com a vontade e desejo de Deus. Deus nunca nos ensinou a tratarmos os outros de forma diferente. Deus nunca nos mandou “criar” um mundo e um sistema com tamanhas desigualdades e injustiças. Deus nunca nos ensinou isso... isso é coisa nossa. Fruto do homem. Conseqüência de nós mesmos. Contra nós mesmos.
Mas, por outro lado... anos depois...aquela frase ainda soa em meus ouvidos...será que a humilhação vem de Deus? Não seria mais correto afirmar-se que Deus, por ser onipotente, utiliza toda forma de humilhação para nos ensinar a sermos gente? Será que não seria mais fácil afirmarmos que Deus, sendo como é preocupado na formação de uma humanidade mais parecida com aquela que ele idealizou, quer nos ensinar que é possível e digno vivermos aprendendo a humildade e amor?
Pois não é possível negar o quão pedagógico é passarmos algumas humilhações, sofrimentos, angústias e momentos de choro. Não há nada que nos ensine mais na vida do que momentos assim. Não há melhor professor do que momentos onde as lágrimas se tornam nossa bebida (como diz o salmista). São nesses momentos que somos transformados. Que somos confrontados com nossa pequenez e limitações. Que somos confrontados com nossas inadequações e incoerências. Que nos enxergamos iguais aos outros. Que nossas máscaras e escudos caem e nos sentimos indefesos e desnudos. Onde precisamos mostrar quem de fato somos. São nas humilhações que aprendemos a chorar. A pedir ajuda. A não sermos tão independentes de Deus e dos outros. São nas humilhações que nossa imagem externa é esquecida, posta de lado, importando apenas aquilo que sabemos que somos. Não mais aquilo que demonstramos ser.
Olhando-se a partir dessa ótica, chego a quase concordar com aquele preletor. Não acho que “Toda humilhação vem de Deus” mas sim que “Deus está presente em todas as humilhações”. Usando-a para nos tornar pessoas melhores. Usando-a para nos ensinar a perdoar. Sim! Porque após sofrermos humilhação e desonra nos vemos iguais aos outros. Nos enxergamos como potencialmente capazes de fazer e sofrer o que todos fazem e sofrem. Dessa forma, como iguais, nos tornamos mais humildes para entender o outro. E distribuir perdão e compreensão. 10 March Saudades de um amigo silente e do silente amigoTales Messias Março 2009
De um lado, temos hoje imensa dificuldade de encontrar aquele amigo que nos conhece pelo olhar. Apenas por ele. Sem precisar dizer absolutamente nada. Sem sentir-se constrangido a emitir opinião. Sem sentir-se obrigado a ser conselheiro. Sem que precise ter última palavra para sentir-se útil. Apenas o olhar. E bons ouvidos.
Saudades daqueles amigos que, diante de uma crise, sabem apenas estar junto. Recostar a cabeça no ombro. E ir embora. Sabedor que palavras não consolam. A presença, sim. Palavras instruem. Dão conhecimento. Enchem o intelecto. Algumas até a alma. Mas, só. Um abraço, um sorriso, uma lágrima, um carinho, um olhar piedoso são, sim, capazes de trazer conforto.
Saudades de um amigo silente...
Por outro lado, tenho saudades do silente amigo, daquele tempo solitário – em silêncio – a fim de que nossa alma finalmente seja vista. Aquele tempo em que nos despimos para nós mesmos, onde roupa alguma é capaz de embelezar ou esconder algo. Onde as máscaras não são necessárias. Onde a alma e todas as sujeiras são expostas. Onde o espelho interior nos faz ver quem de fato somos mas, pela corrida diária, nos escondemos.
Tempos onde não precisamos encenar, transparecer quem não somos, tentar convencer pelo semblante o que nossa alma sabe ser mentira, tempos de decepção necessária por vermos quem de fato somos e por nos percebermos imensamente diferentes de quem gostaríamos de ser. Tempos pedagógicos. De silêncio. Para nos ouvirmos.
Saudades do silente amigo...
Desejo ter os dois silêncios de volta à minha vida, mais freqüentemente. 08 March Nota Pública sobre as declarações do presidente do STF, Gilmar Mendes
Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional Assessoria de Comunicação NOTA PÚBLICA “Ai dos que coam mosquitos e engolem camelos” (MT 23,24)
Nota Pública sobre as declarações do presidente do STF, Gilmar Mendes
A Coordenação Nacional da CPT diante das manifestações do presidente do STF, Gilmar Mendes, vem a público se manifestar.
No dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de terras no Pontal do Paranapanema, o ministro acusou os movimentos de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica ações ilegais. Cobrou do Ministério Público investigação sobre tais repasses. No dia 4 de março, voltou à carga discordando do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para quem o repasse de dinheiro público a entidades que “invadem” propriedades públicas ou privadas, como o MST, não deve ser classificado automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários. Esta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento das apelações dos responsáveis pelo massacre de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em 2005. Quem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT, com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais, são 23 os assassinatos). Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram. Causa estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo tomada neste momento. A prioridade pedida pelo CNJ será para o conjunto dos conflitos fundiários ou para levantar as ações dos sem terra a fim de incriminá-los? Pelo que se pode deduzir da fala do presidente do STF, “faltam só dois anos para o fim do governo Lula”... e não se pode esperar, “pois estamos falando de mortes” nos parece ser a segunda alternativa, pois conflitos fundiários, seguidos de mortes, são constantes. Alguém já viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra escrava?
Ao contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações de educação, de assistência técnica, e em ações comunitárias. O ministro não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às suas entidades de classe.
Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê na organização dos trabalhadores sem terra, sobretudo no MST, uma ameaça constante aos direitos constitucionais.
O ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado está. Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios. Para ele e para elas os que valem, são os que impulsionam o “progresso”, embora ao preço do desvio de recursos, da grilagem de terras, da destruição do meio-ambiente, e da exploração da mão de obra em condições análogas às de trabalho escravo. Gilmar Mendes escancara aos olhos da Nação a realidade do poder judiciário que, com raras exceções, vem colocando o direito à propriedade da terra como um direito absoluto e relativiza a sua função social. O poder judiciário, na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento ou omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande latifundiário no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias, inclusive de tentativa de corrupção.
O Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos, vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).
Que o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes!
Goiânia, 6 de março de 2009
Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges Presidente da Comissão Pastoral da Terra
Maiores informações: Assessoria de Comunicação - Secretaria Nacional da CPT |
|
|