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23 June
Tales Messias
Eu sei, eu sei que decidimos amar. Que amar é fruto de uma decisão consciente.
Sei que podemos reger e alimentar racionalmente nosso amor dia a dia...para que não corramos o risco de vê-lo esvaindo-se pouco a pouco.
Sei que podemos agir de forma que, propositalmente, o sintamos crescendo ou diminuindo dentro de nós.
Mas, sei também ...ou melhor apenas “sinto” pois diante de questões do coração nem sempre temos plena certeza (“pois o mesmo é enganoso”) ... que existem dias onde amar se torna mais difícil, onde nos vemos incapazes de disso. Nos sentimos impotentes. Frios. Distantes. Com imensa tendência ao deserto e silêncio. Mesmo à solidão. Sentimos nosso coração com desejo de estar perto apenas de nós mesmos. Mesmo que isso também não nos dê sentimento de preenchimento.
Nesses dias, só buscamos nossa sombra por companhia. Nesses dias apenas ansiamos pelo suspiro de nossa própria alma. Buscamos alguém perdido. Esquecido. Alguém que se foi em nossa história. Buscamos pelos fatos e momentos onde essa pessoa vivia mais perto. Buscamos, lá dentro, alguém simples, humilde, com tempo para nos ouvir, com tempo para nos aconselhar a alma. Tempo em que eu podia chorar sem medo. Tempo em que eu podia ser eu mesmo com esse “alguém” sem medo de sentir-me rejeitado e nem pressionado a ser outro. Em dias assim, procuro esse “outro” esquecido... o “Tales” que se foi no tempo... que era meu melhor amigo. Busco por mim naquele tempo... a fim de restaurar algo que não se restaura: o tempo. Busco de mim o que nunca deveria ter perdido. Busco aquele que nunca deveria ter se despedido.
Faço isso não de forma previsível. Não há agendamento para se buscar a nós mesmos. Ouve-se apenas a própria alma. Ela se habilita a nos avisar quais são esses dias. Pois nesses, ela nos busca. E nos procura. Quando sente saudades do que éramos. Ela então nos sinaliza...de que precisamos parar. Rever em quem nos tornamos. A fim de que a perda não seja nunca defitiva...nem completa.
Por fim, percebo que nesses dias em que nossa alma geme...ansiando por nós mesmos...por sentir que houve perda... nesses dias é difícil amar o outro. Porque amamos quando sentimos coerência em nosso coração. Amamos quando coração e mente obedecem a uma só razão. Quando isso foge, no máximo nos apaixonamos . Ou, ao contrário, nos irritamos com o que é singelo e verdadeiro. Há engano! Há falsidade! Há confusão de sentimentos!
Por isso, em dias que se percebe ser difícil amar... aconselho (a mim mesmo!) ir em busca de mim mesmo. Pois em dias em que não me encontro, dificilmente inclino-me a encontrar o outro. Em dias onde me sinto solitário – mesmo em meio a quem me ama – preciso buscar quem de mim deixei pra trás. Pois, quando integralmente presente, e em Deus, e mergulhados no amor de Deus – pois só nEle nos encontramos completamente – nos inclinamos a amar também. NEle, nos vemos e nos encontramos. Nesse encontro conosco, vemos o outro.
20 June
Época de festa: São João. Época de música,poesia, comida de milho. Época de alegria...mas também pode ser tempo de reflexão...reflexão vinda do sertão...sobre o sertão...por isso, deixo aqui um texto-poesia-profecia do nosso Luiz Gonzaga. Leiam com a mente e também com coração aberto...
A Triste Partida
Luíz Gonzaga
Composição: Patativa do Assaré
Meu Deus, meu Deus Setembro passou Outubro e Novembro Já tamo em Dezembro Meu Deus, que é de nós, Meu Deus, meu Deus Assim fala o pobre Do seco Nordeste Com medo da peste Da fome feroz Ai, ai, ai, ai A treze do mês Ele fez experiênça Perdeu sua crença Nas pedras de sal, Meu Deus, meu Deus Mas noutra esperança Com gosto se agarra Pensando na barra Do alegre Natal Ai, ai, ai, ai Rompeu-se o Natal Porém barra não veio O sol bem vermeio Nasceu muito além Meu Deus, meu Deus Na copa da mata Buzina a cigarra Ninguém vê a barra Pois barra não tem Ai, ai, ai, ai Sem chuva na terra Descamba Janeiro, Depois fevereiro E o mesmo verão Meu Deus, meu Deus Entonce o nortista Pensando consigo Diz: "isso é castigo não chove mais não" Ai, ai, ai, ai Apela pra Março Que é o mês preferido Do santo querido Sinhô São José Meu Deus, meu Deus Mas nada de chuva Tá tudo sem jeito Lhe foge do peito O resto da fé Ai, ai, ai, ai Agora pensando Ele segue outra tria Chamando a famia Começa a dizer Meu Deus, meu Deus Eu vendo meu burro Meu jegue e o cavalo Nóis vamo a São Paulo Viver ou morrer Ai, ai, ai, ai Nóis vamo a São Paulo Que a coisa tá feia Por terras alheia Nós vamos vagar Meu Deus, meu Deus Se o nosso destino Não for tão mesquinho Ai pro mesmo cantinho Nós torna a voltar Ai, ai, ai, ai E vende seu burro Jumento e o cavalo Inté mesmo o galo Venderam também Meu Deus, meu Deus Pois logo aparece Feliz fazendeiro Por pouco dinheiro Lhe compra o que tem Ai, ai, ai, ai Em um caminhão Ele joga a famia Chegou o triste dia Já vai viajar Meu Deus, meu Deus A seca terrívi Que tudo devora Ai,lhe bota pra fora Da terra natal Ai, ai, ai, ai O carro já corre No topo da serra Oiando pra terra Seu berço, seu lar Meu Deus, meu Deus Aquele nortista Partido de pena De longe acena Adeus meu lugar Ai, ai, ai, ai No dia seguinte Já tudo enfadado E o carro embalado Veloz a correr Meu Deus, meu Deus Tão triste, coitado Falando saudoso Com seu filho choroso Iscrama a dizer Ai, ai, ai, ai De pena e saudade Papai sei que morro Meu pobre cachorro Quem dá de comer? Meu Deus, meu Deus Já outro pergunta Mãezinha, e meu gato? Com fome, sem trato Mimi vai morrer Ai, ai, ai, ai E a linda pequena Tremendo de medo "Mamãe, meus brinquedo Meu pé de fulô?" Meu Deus, meu Deus Meu pé de roseira Coitado, ele seca E minha boneca Também lá ficou Ai, ai, ai, ai E assim vão deixando Com choro e gemido Do berço querido Céu lindo e azul Meu Deus, meu Deus O pai, pesaroso Nos fio pensando E o carro rodando Na estrada do Sul Ai, ai, ai, ai Chegaram em São Paulo Sem cobre quebrado E o pobre acanhado Percura um patrão Meu Deus, meu Deus Só vê cara estranha De estranha gente Tudo é diferente Do caro torrão Ai, ai, ai, ai Trabaia dois ano, Três ano e mais ano E sempre nos prano De um dia vortar Meu Deus, meu Deus Mas nunca ele pode Só vive devendo E assim vai sofrendo É sofrer sem parar Ai, ai, ai, ai Se arguma notíça Das banda do norte Tem ele por sorte O gosto de ouvir Meu Deus, meu Deus Lhe bate no peito Saudade de móio E as água nos óio Começa a cair Ai, ai, ai, ai Do mundo afastado Ali vive preso Sofrendo desprezo Devendo ao patrão Meu Deus, meu Deus O tempo rolando Vai dia e vem dia E aquela famia Não vorta mais não Ai, ai, ai, ai Distante da terra Tão seca mas boa Exposto à garoa A lama e o paú Meu Deus, meu Deus Faz pena o nortista Tão forte, tão bravo Viver como escravo No Norte e no Sul Ai, ai, ai, ai
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