Tales's profileTales MessiasPhotosBlogListsMore Tools Help

Blog


    26 July

    MOSTRANDO QUEM É O LÍDER

    Ariovaldo Ramos (Extraído do site www.ariovaldoramos.com.br)

    Estava conversando com um casal amigo, que me contou o ocorrido em sua igreja de origem, no interior de São Paulo.

    O pastor titular resolveu mostrar a todos quem era o líder, e como deveria ser tratado. Na frente de toda a igreja, grande em número, o referido ministro do evangelho intimou cada um de seus doze discípulos a, na presença de todos, lamber o sal que havia colocado em sua mão e, ato contínuo, seus discípulos foram até ele e, cada um, lambeu um pouco do sal na mão do ungido. 

    Em Goiânia, um colega me explicou o ato do sal na mão. Disse-me que é o que se faz quando se deseja colocar arreio em cavalo rebelde. Coloca-se um punhado de sal na mão, leva-o até a boca do animal e, enquanto este está comendo na mão do dono, o arreio é colocado sobre o seu dorso, sem que ele reaja.

    Jesus Cristo, conta a escritura, um dia, também, resolveu mostrar quem era o líder e de que maneira ele tinha de ser imitado: “Jesus, sabendo ... que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. ”  (Jo 13.2-5; 13-16) 

    O nobre colega, em questão deveria ler mais esse texto, aliás, ele e a turma da qual ele faz parte, que vive a dizer, tirando do contexto, o verso: “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” (1 Sm 15.23)

    Quem cometeu pecado de rebeldia, senão o líder, que usurpando a autoridade de Cristo submete seus discípulos à humilhação? 

    Quem cometeu pecado de rebeldia, senão o líder, que usurpando a autoridade de Cristo obriga seus discípulos a satisfazer a seus caprichos e suas decisões espúrias? Soube que na Bahia, um homem considerado como digno por seus pares, contrariando os seus valores, levou sua igreja apoiar certa candidatura para não incorrer no pecado de rebeldia em relação ao seu discipulador, que, depois de impor-lhe esse, mudou de idéia quanto a que candidato apoiar, decidindo apoiar um ímpio, sabe os céus porque razão.

    Líder cristão demonstra a sua liderança lavando os pés de seus discípulos e não pedindo mais dinheiro. 

    Líder cristão demonstra a sua liderança amando aos seus discípulos até o fim, a ponto de dar a vida por eles, e não pedindo melhores carros e casas.

    Líder cristão é exemplo do que significa ser ovelha de Cristo 

    Líder cristão sabe, a exemplo de Cristo, que tudo o que tem e o que precisa recebeu e receberá de Deus, sabe que veio do Senhor e para Ele vai voltar, sabe quem é, porque é e para quem é,  logo, não precisa de ninguém paparicando-o, nem autenticando a sua liderança

    Líder Cristão não precisa de títulos e quando os tem não os usa. 

    Líder cristão é servo, é isso que mostra quão próximo ele está do Senhor Jesus Cristo.

    Os demais são anátemas.

    17 July

    ACORDANDO AO ENTARDECER

    Tales Messias

     

    Em minha adolescência namorei com uma jovem muito distraída. Certo dia, por volta das 17h, ela acordou de seu “cochilo” da tarde. Era um entardecer bonito, segundo ela. Com um céu avermelhado, sol se pondo, céu límpido. Ela acordou mas, como de costume em algumas pessoas, esteve por alguns minutos naquele estado de torpor, de inércia, meio acordada e meio dormindo. É um  estado em que há ausência de resposta a qualquer estímulo. (Recomendo inclusive que não se dê recado algum a uma pessoa nesse estado. Pois ela balançará a cabeça afirmativamente, confirmando que entendeu seu recado para, logo depois, ligar para você reclamando que você não disse nada a ela sobre aquele assunto. Como se recado algum você tivesse dito a ela. Com minha esposa, a tempos evito falar algo importante até que tenha tido certeza de que acordou “de verdade”. Mas...é apenas um conselho...aprendido após levar algumas “broncas” inocentemente)...bem...voltando a história...aquela jovem acordou dessa forma naquela tarde. Espreguiçou-se... lutou para não fechar os olhos por uns dez minutos...até que resolveu olhar o relógio: 05:15. De súbito pulou da cama. Assustada. Por ver que estava 15 minutos atrasada. Correu, tomou um rápido banho, trocou de roupa, vestiu sua roupa, correu para a cozinha, fez um café e um sanduíche, despediu-se de sua mãe e padrasto com um beijo em cada um, explicando que estava indo a escola. Então, caminhou rápido para a parada de ônibus pois este, como de costume, passava às 05:45.

     

    Até então...em nenhum momento...desconfiou que era a tarde e não a manhã daquele dia.  

     

    Chegou na parada, conferiu o relógio. Estava no tempo certo! Só então, resolveu olhar mais atentamente para o céu. Viu que este, ao invés de clarear – como todos os dias – estava escurecendo. Achou estranho. E não estava nublado nem demonstrando vir chuva. Muito encabulada...virou-se para o homem do seu lado e perguntou: “Que dia é hoje?”. Com a resposta dele, ela deu uma forte risada...agradeceu ao homem (que não entendeu absolutamente nada do que estava acontecendo) e voltou pra casa. Entrou em casa rindo ainda...contou aos pais..que também começaram a rir confessando que estranharam ela ir a Escola naquela tarde mas que pensaram tratar-se de alguma aula extra ou prova. E assim ela voltou para seu quarto – rindo de sua própria demência - para então colocar sua roupa de casa...

     

    Hoje, mais de quinze anos depois, essa história veio a minha mente. Lembrando-me de que ela é repetida muitas vezes... de formas diferentes.

     

    Tanta coisa na vida faz-nos agir impulsivamente. Não só impulsivamente, mas equivocadamente. Em nossa mente, cremos firmemente que estamos corretos. Que caminhamos e agimos seguindo convicções tão firmes. Como diz uma canção: “Cada estrada em que eu andei, eu pensei daria certo...”. Tantas são as vezes que perplexo ficamos ao vermos que defendíamos ardentemente posições e convicções que depois se mostraram completamente erradas. O apóstolo Paulo é um bom exemplo: pregou, defendeu, até matou pessoas por aquilo em que cria. Um dia, depara-se com a Verdade e esta diz a ele que tudo aquilo que ele fazia, crendo ele ser de/para Deus, quando era justamente o oposto. Literalmente ele cai no chão. Diante da “claridade” da Verdade. Ficou cego três dias. Sem comer e sem beber. Ruminando pensamentos. Mastigando reflexões acerca de qual seria a Verdade daqui em diante. No escuro físico a fim de que sua mente fosse iluminada. Dali em diante sai pregando e divulgando suas novas convicções. Por ironia, essas novas eram justamente aquelas que ele mais combatia e se opunha violentamente.

     

    Tal qual minha amiga, acordando a tarde imaginando ser cedo da manhã... tantas são as vezes em que minha mente vagueia  e me pergunto: “como pude crer naquelas coisas em que cria? Como pude defender aquelas coisas? Como? Como não vi antes? Minha mente deveria estar num estado de torpor, de imobilização.

     

    Muitas vezes só a maturidade nos ensina. Em outras o sofrimento – quando pedagógico – é nosso professor. Em outras ainda, o tempo, os estudos. Deixamos então de crer nas fábulas que nos contavam quando adolescentes. Deixamos de crer naquilo que apenas existe em teoria. Deixamos de crer naquelas instituições que tanto prometem mas não demonstram. E passamos a crer – agora mais humildemente pois não sabemos se dessa vez em definitivo – em outras verdades, ganhamos novos valores, muito do que se valorizava perde em nós o valor e, por outro lado, muita coisa que era desprezada ganha novo valor e cuidados.

     

    Essa historinha da minha amiga precisa me ensinar ao menos duas coisas: misericórdia e humildade. Misericórdia ao me deparar com tanta gente que hiper-valoriza coisas e instituições que hoje – após viver e enxerga-las nas entranhas (pois a vitrine sempre é muito bonita. O desafio é continuar sendo bonita nos bastidores) e me decepcionar profundamente – já não valorizo e já não me atrai. Preciso amar essas pessoas. Elas são sinceras em seu equívoco. Como eu também era extremamente sincero. Elas agem sinceramente erradas, mas inocentes pois fazem crendo. Misericórdia. Preciso aprender isso. A amar os que acordam a tarde, pensando ser manhã... arrumam-se, tomam banho e se dirigem pensando ainda que é manhã. São sinceras. Estão com mente obscurecida. Enganada. Coisa própria do ser humano. E preciso aprender também a humildade... por lembrar que já fui assim. Que já defendi idéias, pessoas, instituições religiosas achando ser aquele o caminho correto. Já me dediquei além do que podia a coisas e pessoas que por fim se mostraram mentirosas, falsas, ilusórias e pequenas. E quão chocante é quando nos deparamos com as verdades (tal qual minha amiga dando-se conta de que na verdade era o entardecer daquele dia). Humildade por saber que tudo o que creio hoje pode ser revisto, reformado, melhorado, corrigido. Somos incompletos sempre. Esse era o espírito da Reforma Protestante (reformada, sempre reformando).

     

    Por fim, aprendo que muitas vezes precisamos de pessoas que nos ajudem a ver: “moço, que dia é hoje?”, perguntou minha amiga. E saiu pasma com a descoberta. E rindo. Precisamos de humildade para entender que muito do que se descobriu, veio por outros. Na verdade, quase tudo. Por meio dos pais, professores, mentores, livros. Se incluirmos Deus na lista, teremos que dizer que tudo vêm dEle. E assim nos colocamos como receptores de tudo aquilo que passamos a crer e entender em nossa vida.

     

    Hoje, meu desejo, são dois: rir daquilo que já fui sinceramente enganado. Rir daquelas coisas que fiz, que defendi, que me dediquei porque era próprio de minha idade e de minha evolução intelectual. Rir não por zombaria. Mas, por bom humor. Por entender que todos temos uma história, um processo, uma caminhada. Nesta, vamos gradualmente amadurecendo. Meu segundo desejo: que muitas outras surpresas eu ainda tenha. E que de preferência eu descubra ainda entardecendo. Sem ainda ser noite. Para que ainda eu consiga ter tempo de voltar para casa, trocar minha roupa para refazer tudo. Que em cada engano descoberto, em novas verdades, eu tenha humildade e tempo de retorno. Aliás, aqui termino dizendo que em Deus pra tudo há retorno. Tudo! Mesmo que o dia já esteja entardecendo. Pois as misericórdias dEle renovam-se a cada dia.

    09 July

    “Você não viu na Televisão não foi?”

    Tales Messias

     

     

    Meses atrás, uns dois talvez, uma garotinha foi “abraçada” por um macaco aranha, no Jardim Zoológico em Recife. Nesse “abraço”, foi bastante arranhada no rosto e no corpo. Principalmente porque no ímpeto de tirar o animal de cima da criança, este - que antes parecia estar brincando - ficou assustado e a todo custo tentou manter-se “agarrado” a criança com medo dos que tentavam a força tirá-lo dali.  Esse fato ganhou destaque nos jornais da cidade. Protestos contra a Escola que conduzia a criança. Protestos contra a administração do Zôo por não ter pessoas treinadas próximo à caravana de crianças. Enfim...ganhou imenso destaque na mídia.

     

    Ontem, levei minha filhinha ao Zôo. Um passeio entre pai e filha. Ela sempre adora! Ela fez questão de ver cada ave, répteis, ficou frente a frente com um tubarão lixa num aquário, implorou para que corresse para ver o leão quando ouviu de longe seu urro. Lamentou não poder ver o urso pois encontrava-se na casinha dele. Pediu-me para ver as cobras novamente, principalmente a píton albina. Saindo do Zôo, num clima já de despedida... passeando na calçada ao lado do rio... ela finalmente pediu para vir para meus braços (eu já falei que ela tem apenas 03 aninhos?). Eu a peguei no braço e, sutilmente, perguntei: “cansada não é minha filha?” (perguntei na verdade como projeção ao que eu sentia. Eu estava morto!). Ela, de pronto, respondeu: “Não, Painho. Tô com medo!”. “Medo? De que minha filha?”, respondi. “Do macaco aranha, Painho! Ele fica ali ó... (e apontou para uma ilhazinha, no meio do rio...)”. A isso, espantado, disse a ela : “Minha filha...o macaquinho é bonzinho...gosta de brincar...pular...é bonzinho...não precisa ter medo...”. Ela, com firmeza de quem está convicta do que vai falar me repreendeu dizendo: “Não, painho! Ele é brabo. Mau. Arranhou a menina todinha. Agarrou ela e arranhou ela todinha.” E concluiu olhando para mim: “Você não viu na televisão não, foi?”.

     

    Após isso, inutilmente tentei persuadi-la,  tentando ser advogado do macaquinho...mas sem sucesso. A primeira coisa que disse em casa a mãe foi: “Papai disse que macaco aranha é bonzinho...e ele nem é...não é mamãe? Ele arranhou a menina não foi? Passou na televisão...diga a Painho, mamãe”.

     

    Fiquei pensativo sobre isso. E aqui escrevo como quem na verdade quer registrar isso para que eu mesmo não esqueça dos ensinos possíveis. Não pretendo ser cansativo. Na verdade, não tenho sequer a pretensão de que leitores gostem desse texto. Não tanto quanto o objetivo principal meu: não esquecer-me daquele dia. Digo isso, porque comecei a pensar em como deixamos nossos filhos por horas na frente da TV, ao invés de nos ocuparmos com elas. E as educarmos. Trocamos nossas antigas babás (“pedagogas”) pela TV e DVD’s. Eu faço isso! Agora mesmo enquanto escrevo esse texto...lancei antes no DVD o que ela quis (“Taz e sua turminha”). Isso me garante uma hora de concentração! Assim fazemos. Assim faço! Diariamente. Pior de tudo é ver (como ontem) que o que elas guardam da Televisão consegue ser mais forte do que a palavra de Painho, muitas vezes. Ou seja, a TV, aos poucos, vai ganhando autoridade dogmática para elas. E as entregamos a isso. Não quero aqui demonizar nada. Estou longe dessa turma que faz isso...que demoniza tudo e vê o mal em tudo (Harry Potter, Hello Kit, Disney e etc). Não acho que tudo é inocente. Mas também não saio por aí tentando decifrar demônio em tudo. Até porque o que quero chamar a atenção aqui não é para mensagens ocultas e difíceis de serem discernidas. Falo aqui das desvirtuações da verdade, que são vistas de forma clara, escancarada. Falo disso! Falo do poder que tem a TV em formar a mente das crianças (sejam crianças cronológicas ou mentais). Falo dos jornais ideologicamente inclinados a fim de usurpar das pessoas a consciência e a verdade. Falo dos jornalismos intencionalmente irreais. Falo do perigo de expormos nossa mente, a mente de nossos filhos também, a uma enxurrada de inverdades a ponto daquilo se tornar verdade absoluta (onde nega-se inclusive o ensino primário dos pais em favor do que foi dito na TV).

     

    Falo de termos mais cuidado com o que se ingere diariamente em nossa mente. Falo de voltar a comprar livros nas férias para nossas crianças (Tipo “Para gostar de ler”...que eu lia muito em minha pré-adolescência). Falo de tomarmos consciência de acompanhar nossos filhos sobre aquilo que elas vêem. Falo de nós mesmos exercitarmos nossa mente pois se os pais não “treinam” a mente diariamente para que se tenha uma visão crítica onde filtre-se o que se recebe, como iremos ensinar isso aos filhos. Será apenas reprodução de mediocridade e de metodologia de como se deve crer em tudo o que se ouve e vê, sem critérios.

     

    Aquela frase de minha filha me fez pensar...

     

    Lembrei, com isso, de tantas inverdades ditas na TV com intenções nas entrelinhas: a criminalização dos movimentos sociais (por isso mostram-se os movimentos como baderneiros, vagabundos e violentos – como fazem com o MST); a legitimidade da guerra contra políticos progressistas na América Latina (por isso a imagem negativa sobre Evo Morales e Hugo Chávez, como exemplos. Mesmo acreditando que existem sérios erros nas atitudes deles); a legitimação da promiscuidade e da falta de pudores (por isso as novelas tão regadas a traições, vinganças, violência até que se vejam os males como coisas relativas). Enfim...seriam tantas coisas e tantos exemplos...

     

    Por fim, minha filha me fez pensar...refletir...e reagir... quero que a reflexão que ela me trouxe acabe por me ensinar que preciso crescer muito ainda se quero vê-la crescer. Se quero ser coerente com uma oração que sempre faço a Deus por minha filha: “Não deixe que eu seja atrapalho a tudo aquilo que Senhor deseja fazer por minha filha e através dela. Protege-a de mim”.

     

    Voltei para casa...antes parei e comprei três livrinhos para ela... orando para que não tenha sido uma reação emotiva...mas aprendida.

     

     

    04 July

    SEM PERDÃO NÃO EXISTE AMANHÃ

    Ed René Kivitiz
    Texto retirado do site: www.edrenekivitz.com.br 
     
    Alguém já disse que a família é o lugar dos maiores amores e dos maiores ódios. Compreensível: quem mais tem capacidade de amar, mais tem capacidade de ferir. A mão que afaga é aquela de quem ninguém se protege, e quando agride, causa dores na alma, pois toca o ponto mais profundo de nossas estruturas afetivas. Isso vale não apenas para a família nuclear: pais e filhos, mas também para as relações de amizade e parceria conjugal, por exemplo.

    Em mais de vinte anos de experiência pastoral observei que poucos sofrimentos se comparam às dores próprias de relacionamentos afetivos feridos pela maldade e crueldade consciente ou inconsciente. Os males causados pelas pessoas que amamos e acreditamos que também nos amam são quase insuperáveis. O sofrimento resultado das fatalidades são acolhidos como vindos de forças cegas, aleatórias e inevitáveis. Mas a traição do cônjuge, a opressão dos pais, a ingratidão dos filhos, a rixa entre irmãos, nos chegam dos lugares menos esperados: justamente no ninho onde deveríamos estar protegidos se esconde a peçonha letal.

    Poucas são minhas conclusões, mas enxerguei pelo menos três aspectos dessa infeliz realidade das dores do amar e ser amado. Primeiro, percebo que a consciência da mágoa e do ressentimento nos chega inesperada, de súbito, como que vindo pronta, completa, de algum lugar. Mas quando chega nos permite enxergar uma longa história de conflitos, mal entendidos, agressões veladas, palavras e comentários infelizes, atos e atitudes danosos, que foram minando a alegria da convivência, criando ambientes de estranhamento e tensões, e promovendo distâncias abissais. Quando nos percebemos longe das pessoas que amamos é que nos damos conta dos passos necessários para que a trilha do ressentimento fosse percorrida: um passo de cada vez, muitos deles pequenos e que na ocasião foram considerados irrelevantes, mas somados explicam as feridas profundas dos corações.

    Outro aspecto das dores do amar e ser amado está no paradoxo das razões de cada uma das partes. Acostumados a pensar em termos da lógica cartesiana: 1 + 1 = 2 e B vem depois de A e antes de C, nos esquecemos que a vida não se encaixa nos padrões de causa e efeito do mundo das ciências exatas. Pessoas não são máquinas, emoções e sentimentos não são números, relacionamentos não são engrenagens. Imaginar que as relações afetivas podem ser enquadradas na simplicidade dos conceitos certo e errado, verdade e mentira, preto e branco é uma ingenuidade. A vida é zona cinzenta, pessoas podem estar certas e erradas ao mesmo tempo, cada uma com sua razão, e a verdade de um pode ser a mentira do outro. Os sábios ensinam que “todo ponto de vista é a vista de um ponto”, e considerando que cada pessoa tem seu ponto, as cores de cada vista serão sempre ou quase sempre diferentes. Isso me leva ao terceiro aspecto.

    Justamente porque as feridas dos corações resultam de uma longa história, lida de maneiras diferentes pelas pessoas envolvidas, o exercício de passar a limpo cada passo da jornada me parece inadequado para a reconciliação. Voltar no tempo para identificar os momentos cruciais da caminhada, o que é importante para um e para outro, fazer a análise das razões de cada um, buscar acordo, pedir e outorgar perdão ponto por ponto não me parece ser a melhor estratégia para a reaproximação dos corações e cura das almas.

    Estou ciente das propostas terapêuticas, especialmente aquelas que sugerem a necessidade de re–significar a história e seus momentos específicos: voltar nos eventos traumáticos e dar a eles novos sentidos. Creio também na cura pela fala. Admito que a tomada de consciência e a possibilidade de uma nova consciência produzem libertações, ou, no mínimo, alívios, que de outra maneira dificilmente nos seriam possíveis. Mas por outro lado posso testemunhar quantas vezes já assisti esse filme, e o final não foi nada feliz. Minha conclusão é simples (espero que não simplória): o que faz a diferença para a experiência do perdão não é a qualidade do processo de fazer acordos a respeito dos fatos que determinaram o distanciamento, mas a atitude dos corações que buscam a reaproximação. Em outras palavras, uma coisa é olhar para o passado com a cabeça, cada um buscando convencer o outro de sua razão, e bem diferente é olhar para o outro com o coração amoroso, com o desejo verdadeiro do abraço perdido, independentemente de quem tem ou deixa de ter razão. Abraços criam espaço para acordos, mas acordos nem sempre terminam em abraços.

    Essa foi a experiência entre José e seus irmãos. Depois de longos anos de afastamento e uma triste história de competições explícitas, preferências de pai e mãe, agressões, traições e abandonos, voltam a se encontrar no Egito: a vitima em posição de poder contra seus agressores. José está diante de um dilema: fazer justiça ou abraçar. Deseja abraçar, mas não consegue deixar o passado para trás. Ao tempo em que fala com seus irmãos sai para chorar, e seu desespero é tal que todos no palácio escutam seu pranto. Mas ao final se rende: primeiro abraça e depois discute o passado. Essa é a ordem certa. Primeiro, porque os abraços revelam a atitude dos corações, mais preocupados em se aproximar do que em fazer valer seus direitos e razões. Depois, porque, no colo do abraço o passado perde força e as possibilidades de alegrias no futuro da convivência restaurada esvaziam a importância das tristezas desse passado funesto.

    Quando as pessoas decidem colocar suas mágoas sobre a mesa, devem saber que manuseiam nitroglicerina pura. As palavras explodem com muita facilidade, e podem causar mais destruição do que promover restauração. Não são poucos os que se atrevem a resolver conflitos, e no processo criam outros ainda maiores, aprofundam as feridas que tentavam curar, ou mesmo ferem novamente o que estava cicatrizado. Tudo depende do coração. O encontro é ao redor de pessoas ou de problemas? A intenção é a reconciliação entre as pessoas ou a busca de soluções para os problemas? Por exemplo, quando percebo que sua dívida para comigo afastou você de mim, vou ao seu encontro em busca do pagamento da dívida ou da reaproximação afetiva? Nem sempre as duas coisas são possíveis. Infelizmente, minha experiência mostra que a maioria das pessoas prefere o ressarcimento da dívida em detrimento do abraço, o que fatalmente resulta em morte: as pessoas morrem umas para as outras e, consequentemente, as relações morrem também. A razão é óbvia: dívidas de amor são impagáveis, e somente o perdão abre os horizontes para o futuro da comunhão. Ficar analisando o caderno onde as dívidas estão anotadas e discutindo o que é justo e injusto, quem prejudicou quem e quando, pode resultar em alguma reparação de justiça, mas isso é inútil – dívidas de amor são impagáveis.

    Mas o perdão tem o dia seguinte. Os que mutuamente se perdoam e se abraçam não são mais capazes de ferir um ao outro. Ainda que desobrigados pelo perdão, farão todo o possível para reparar os danos do caminho. Mas já não buscam justiça. Buscam comunhão. Já não o fazem porque se sentem culpados e querem se justificar para si mesmos ou para quem quer que seja, mas porque se percebem amados e não têm outra alternativa senão retribuir amando. As experiências de perdão que não resultam na busca do que é justo desmerecem o perdão e esvaziam sua grandeza e seu poder de curar. Perdoar é diferente de relevar. Perdoar é afirmar o amor sobre a justiça, sem jamais sacrificar o que é justo. O perdão coloca as coisas no lugar. E nos capacita a conviver com algumas coisas que jamais voltarão ao lugar de onde não deveriam ter saído. Sem perdão não existe amanhã.