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    18 August

    Enxergar com novos olhos

    Tales Messias

    Agosto 2008

     

    “A verdadeira viagem de descobrimento não visa apenas ver novos lugares, mas sim enxergar com novos olhos” M. Proust

     

    Aprendi a aprender com as crianças. Quem as observa com sensibilidade, com olhar puro e curioso, percebe nelas riqueza. Hoje, pai de Deborah Fernanda, vejo o quanto aprendi apenas olhando pra ela.

     

    Uma de minhas maiores intrigas é quando observo como elas lidam com a rotina. Com o cotidiano. Com que é repetitivo. Com o que acontece diversas vezes. Com o que se sucede. Elas tratam essas coisas como se pela primeira vez estivessem experimentando. Agora mesmo, enquanto digito esse texto, minha filha me pediu para colocar um DVD que ela já deve ter visto mais de 40 vezes. Literalmente! E a forma que ela assiste, a concentração dela, hipnótica, é incrível. Essa, inclusive, é a melhor hora de alimentarmos ela. Ela “abre a boca” para qualquer tipo de comida. Automaticamente. Parece nem perceber aquilo que come. (Será que percebe que está comendo?) O olhar dela é de total prazer naquele conhecido DVD. Ela já conhece toda a sequência, as falas já sabe decoradas, já sabe tudo...mas o prazer parece aumentar cada vez que ela o vê.

     

    Há algo de notável nas crianças nesse ponto. Elas conseguem brincar com os pais diversas vezes da mesma coisa. Se algo a faz rir, elas não exitam: em meio a muito riso, dizem - soluçando ainda - “De novo, painho”. E fazem isso dezenas de vezes. Quando nós, pais, estamos exaustos na terceira vez...elas riem como se a primeira vez fosse.

     

    Nós adultos não somos assim. Nos rendemos à rotina. Nos desmotivamos diante da atividade repetitiva. Achamos monótono o que é cotidiano.

     

    Quer exemplos? Então vejamos vários deles, vindos na mente sequencialmente por serem muitos:

    - O que se ouve dos terapeutas com relação a um casamento? Mesmo sendo ele um bom casamento? Não deixe ele “cair” na rotina! Como se ela fosse um aspecto negativo;

    - Quando se ouve um bom preletor, e ele repete o mesmo tema (com outros enfoques) algumas vezes o que afirmamos? Hoje foi “chato”. Já ouvi isso muitas vezes. Nenhuma novidade! Mesmo que ainda não estejamos praticando nada do que foi dito pelo preletor...

    - O que dizemos de alguém que adora uma música e a ouve diversas vezes? “Que saco, a mesma música de novo. Ninguém aguenta mais.” Mesmo ela sendo lindíssima!

    - O que dizemos de nosso sexo no casamento? “Não deixe entrar na rotina. Seja criativo. Procure Sexshops, terapeutas que os ensinem a fazer sexo de diversas formas”

     

    É impressionante como nós temos um sério problema com a repetição. Talvez o mundo atual, com suas mudanças hiper-rápidas, especialmente na tecnologia, e que nos obriga a mudarmos tudo de forma muito rápida nos leve a esse espírito. Quase tudo o que eu fazia na minha infância já não se faz. O que eu brincava, já não existe (Minha filha dificilmente quererá brincar de bola de gude, futebol de botão, pião, fazer roupinha de brinquedos). Hoje se brinca de DVD, de computador, de playstation, de bonecos que falam e andam. Antes nós usamos nossa imaginação e éramos a voz deles. Hoje eles têm própria voz, memória própria, movimentos definidos e mandam em nós pois alguns dizem a hora de comer, beber, fazer xixi (lembram dos pioneiros “tamagushi”? Se escreve assim?).

     

    Vivemos num mundo em mudanças profundas. Até nossos valores precisam ser revistos a cada dia. Nossa moral também. Ficamos muitas vezes em dúvida sobre o que é certo. Isso nos leva muitas vezes a um risco enorme de uma decisão errada. Como diz o Ricardo Barbosa: “Quando não sabemos escolher o que é certo, o que é errado nos escolherá.” Por fim, perdemos a total capacidade de nos deslumbrarmos com o que é cotidianamente belo. Com o que é maravilhoso mesmo insistido. Com o que é virtuoso apesar de repetido (ou seria “principalmente por ser repetido?”). Com o que é majestoso mesmo sendo uma repercusão. Com isso, diferente de minha Deborah, acho cansativo, “morgado”, chato coisas que, sendo belas, perdem sua virtude por não serem novas.

     

    Um filósofo, cristão, sugeriu em um de seus livros que Deus cria o mundo de novo a cada dia. Por isso suas misericórdias se renovam a cada dia. Como se Deus, em cada novo dia, olhasse para o campo e dissesse: “Haja margaridas.” E eis que eram boas. “Haja coqueiros” E eis que eram bons. “Haja gaiovotas, araras-azuis, leões marinhos, focas, borboletas, insetos, plânctons...novos bebês...” E eis que tudo era muito bom. E cria tudo novamente....a cada dia...igual ao que foi ontem mas com o mesmo prazer criativo. E Ele deslumbra-se com a criação a cada novo dia. Pois Deus não se cansa de sua criação. “...Eis que faço novas todas as coisas...”. Não diz que faz coisas novas. Diz que faz novas, todas as coisas. Diz que faz do homem, uma nova criatura. Dia a dia. Cada dia. Sem mudanças. Mas com o mesmo poder criativo e criador. Dos céus e da terra um novo céu e uma nova terra. Do que já existe, ele transforma. Faz de novo a mesma coisa. E cada vez que faz, se enche de prazer. E se alegra. Pois o que é belo pode repetir-se e por ser belo – e sempre belo – pode ser sempre.

     

    Por isso, quando olho para a forma que enxergo o mundo e para a forma que minha filha o enxerga (agora mesmo a vejo na sala pulando, cantando, rindo e imitando os gestos daquele mesmo DVD), peço a Deus que eu não perca a sensibilidade, a alegria dos detalhes. Só assim, continuarei valorizando mais minha mesa de jantar que minha mesa de negócios. Minha cama onde durmo com minha esposa, que a cama de hotéis quando viajo trabalhando. Meu chinelo que uso para brincar com minha filha, que minha roupa de trabalho utilizada para impressionar os outros. Um café gostoso com amigos, irmãos e família do que um almoço regado a formalidades. O que é belo e bom, por isso meritório de ser repetido, diariamente algumas vezes.

     

    “...Eis que eu renovo todas as coisas. (Eis que faço novas todas as coisas). Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras”

    Apoc 21.5

     

    Por isso, escrevo.

    08 August

    O MAIOR PROBLEMA É O NADA DA VIDA!

     Caio Fábio (Extraído do site www.caiofabio.com)

     Ninguém sabe nada de nada. Quem diz que sabe é pretensioso e tolo. Afinal, quem controla o quê?

     Literalmente, conforme disse Jesus, não posso acrescentar sequer um metro a mais ao curso de meu caminhar na Terra.

     Num minuto está tudo bem. No outro um tufão de tristeza e emoções podem simplesmente dar contra a nossa existência.

     Entretanto, quando existem razões objetivas para a dor, ainda está tudo bem. O duro é quando você olha e se pergunta: Mas o que houve de fato aqui que possa explicar o volume de dor e problemas que gerou?

     Sim! Pois, o maior problema é o que não existe!

     Ora, o problema existente tem solução objetiva e simples, até mesmo quando não tem solução... Em tal caso, é deixar, pois, a não solução já é a solução.

     Porém o problema inexistente somente existe em um lugar no qual não há critérios de mensurabilidade: o interior e a subjetividade.

     A questão é que a maior parte dos problemas nasce do que não é ou não existe de modo real e objetivo!

     Sim! São problemas de comunicação ou excessos de interpretação!

     Sim! São problemas relacionados ao que se disse ter perdoado sem que se tenha jamais perdoado!

     Sim! São desejos e antipatias inconscientes e que se transformam em guerra sem sentido!

     Sim! São disputas inconscientes por razão e razão!

     Sim! São projeções e transferências que são feitas e que pintam o outro de diabo!

     Sim! Problemas inexistentes são o diabo nas entrelinhas!

     Quando você estiver apoquentado, antes de tudo se pergunte: Qual o nível de existência desse problema?

     Ora, na realidade a maioria dos problemas não resiste sequer à resposta objetiva que se possa dar a tal questão!

     Assim, não se enrole nos novelos que não existem, pois, de fato, tais linhas invisíveis são as que mais nos prendem ao nada que se apresenta a nós com o poder do tudo, embora nada seja.

     Pense nisto!