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18 August Enxergar com novos olhosTales Messias Agosto 2008
“A verdadeira viagem de descobrimento não visa apenas ver novos lugares, mas sim enxergar com novos olhos” M. Proust
Aprendi a aprender com as crianças. Quem as observa com sensibilidade, com olhar puro e curioso, percebe nelas riqueza. Hoje, pai de Deborah Fernanda, vejo o quanto aprendi apenas olhando pra ela.
Uma de minhas maiores intrigas é quando observo como elas lidam com a rotina. Com o cotidiano. Com que é repetitivo. Com o que acontece diversas vezes. Com o que se sucede. Elas tratam essas coisas como se pela primeira vez estivessem experimentando. Agora mesmo, enquanto digito esse texto, minha filha me pediu para colocar um DVD que ela já deve ter visto mais de 40 vezes. Literalmente! E a forma que ela assiste, a concentração dela, hipnótica, é incrível. Essa, inclusive, é a melhor hora de alimentarmos ela. Ela “abre a boca” para qualquer tipo de comida. Automaticamente. Parece nem perceber aquilo que come. (Será que percebe que está comendo?) O olhar dela é de total prazer naquele conhecido DVD. Ela já conhece toda a sequência, as falas já sabe decoradas, já sabe tudo...mas o prazer parece aumentar cada vez que ela o vê.
Há algo de notável nas crianças nesse ponto. Elas conseguem brincar com os pais diversas vezes da mesma coisa. Se algo a faz rir, elas não exitam: em meio a muito riso, dizem - soluçando ainda - “De novo, painho”. E fazem isso dezenas de vezes. Quando nós, pais, estamos exaustos na terceira vez...elas riem como se a primeira vez fosse.
Nós adultos não somos assim. Nos rendemos à rotina. Nos desmotivamos diante da atividade repetitiva. Achamos monótono o que é cotidiano.
Quer exemplos? Então vejamos vários deles, vindos na mente sequencialmente por serem muitos: - O que se ouve dos terapeutas com relação a um casamento? Mesmo sendo ele um bom casamento? Não deixe ele “cair” na rotina! Como se ela fosse um aspecto negativo; - Quando se ouve um bom preletor, e ele repete o mesmo tema (com outros enfoques) algumas vezes o que afirmamos? Hoje foi “chato”. Já ouvi isso muitas vezes. Nenhuma novidade! Mesmo que ainda não estejamos praticando nada do que foi dito pelo preletor... - O que dizemos de alguém que adora uma música e a ouve diversas vezes? “Que saco, a mesma música de novo. Ninguém aguenta mais.” Mesmo ela sendo lindíssima! - O que dizemos de nosso sexo no casamento? “Não deixe entrar na rotina. Seja criativo. Procure Sexshops, terapeutas que os ensinem a fazer sexo de diversas formas”
É impressionante como nós temos um sério problema com a repetição. Talvez o mundo atual, com suas mudanças hiper-rápidas, especialmente na tecnologia, e que nos obriga a mudarmos tudo de forma muito rápida nos leve a esse espírito. Quase tudo o que eu fazia na minha infância já não se faz. O que eu brincava, já não existe (Minha filha dificilmente quererá brincar de bola de gude, futebol de botão, pião, fazer roupinha de brinquedos). Hoje se brinca de DVD, de computador, de playstation, de bonecos que falam e andam. Antes nós usamos nossa imaginação e éramos a voz deles. Hoje eles têm própria voz, memória própria, movimentos definidos e mandam em nós pois alguns dizem a hora de comer, beber, fazer xixi (lembram dos pioneiros “tamagushi”? Se escreve assim?).
Vivemos num mundo em mudanças profundas. Até nossos valores precisam ser revistos a cada dia. Nossa moral também. Ficamos muitas vezes em dúvida sobre o que é certo. Isso nos leva muitas vezes a um risco enorme de uma decisão errada. Como diz o Ricardo Barbosa: “Quando não sabemos escolher o que é certo, o que é errado nos escolherá.” Por fim, perdemos a total capacidade de nos deslumbrarmos com o que é cotidianamente belo. Com o que é maravilhoso mesmo insistido. Com o que é virtuoso apesar de repetido (ou seria “principalmente por ser repetido?”). Com o que é majestoso mesmo sendo uma repercusão. Com isso, diferente de minha Deborah, acho cansativo, “morgado”, chato coisas que, sendo belas, perdem sua virtude por não serem novas.
Um filósofo, cristão, sugeriu em um de seus livros que Deus cria o mundo de novo a cada dia. Por isso suas misericórdias se renovam a cada dia. Como se Deus, em cada novo dia, olhasse para o campo e dissesse: “Haja margaridas.” E eis que eram boas. “Haja coqueiros” E eis que eram bons. “Haja gaiovotas, araras-azuis, leões marinhos, focas, borboletas, insetos, plânctons...novos bebês...” E eis que tudo era muito bom. E cria tudo novamente....a cada dia...igual ao que foi ontem mas com o mesmo prazer criativo. E Ele deslumbra-se com a criação a cada novo dia. Pois Deus não se cansa de sua criação. “...Eis que faço novas todas as coisas...”. Não diz que faz coisas novas. Diz que faz novas, todas as coisas. Diz que faz do homem, uma nova criatura. Dia a dia. Cada dia. Sem mudanças. Mas com o mesmo poder criativo e criador. Dos céus e da terra um novo céu e uma nova terra. Do que já existe, ele transforma. Faz de novo a mesma coisa. E cada vez que faz, se enche de prazer. E se alegra. Pois o que é belo pode repetir-se e por ser belo – e sempre belo – pode ser sempre.
Por isso, quando olho para a forma que enxergo o mundo e para a forma que minha filha o enxerga (agora mesmo a vejo na sala pulando, cantando, rindo e imitando os gestos daquele mesmo DVD), peço a Deus que eu não perca a sensibilidade, a alegria dos detalhes. Só assim, continuarei valorizando mais minha mesa de jantar que minha mesa de negócios. Minha cama onde durmo com minha esposa, que a cama de hotéis quando viajo trabalhando. Meu chinelo que uso para brincar com minha filha, que minha roupa de trabalho utilizada para impressionar os outros. Um café gostoso com amigos, irmãos e família do que um almoço regado a formalidades. O que é belo e bom, por isso meritório de ser repetido, diariamente algumas vezes.
“...Eis que eu renovo todas as coisas. (Eis que faço novas todas as coisas). Disse ainda: Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras” Apoc 21.5
Por isso, escrevo. 08 August O MAIOR PROBLEMA É O NADA DA VIDA!Caio Fábio (Extraído do site www.caiofabio.com) Ninguém sabe nada de nada. Quem diz que sabe é pretensioso e tolo. Afinal, quem controla o quê? Literalmente, conforme disse Jesus, não posso acrescentar sequer um metro a mais ao curso de meu caminhar na Terra. Num minuto está tudo bem. No outro um tufão de tristeza e emoções podem simplesmente dar contra a nossa existência. Entretanto, quando existem razões objetivas para a dor, ainda está tudo bem. O duro é quando você olha e se pergunta: Mas o que houve de fato aqui que possa explicar o volume de dor e problemas que gerou? Sim! Pois, o maior problema é o que não existe! Ora, o problema existente tem solução objetiva e simples, até mesmo quando não tem solução... Em tal caso, é deixar, pois, a não solução já é a solução. Porém o problema inexistente somente existe em um lugar no qual não há critérios de mensurabilidade: o interior e a subjetividade. A questão é que a maior parte dos problemas nasce do que não é ou não existe de modo real e objetivo! Sim! São problemas de comunicação ou excessos de interpretação! Sim! São problemas relacionados ao que se disse ter perdoado sem que se tenha jamais perdoado! Sim! São desejos e antipatias inconscientes e que se transformam em guerra sem sentido! Sim! São disputas inconscientes por razão e razão! Sim! São projeções e transferências que são feitas e que pintam o outro de diabo! Sim! Problemas inexistentes são o diabo nas entrelinhas! Quando você estiver apoquentado, antes de tudo se pergunte: Qual o nível de existência desse problema? Ora, na realidade a maioria dos problemas não resiste sequer à resposta objetiva que se possa dar a tal questão! Assim, não se enrole nos novelos que não existem, pois, de fato, tais linhas invisíveis são as que mais nos prendem ao nada que se apresenta a nós com o poder do tudo, embora nada seja. Pense nisto!
26 July MOSTRANDO QUEM É O LÍDERAriovaldo Ramos (Extraído do site www.ariovaldoramos.com.br) Estava conversando com um casal amigo, que me contou o ocorrido em sua igreja de origem, no interior de São Paulo.
O pastor titular resolveu mostrar a todos quem era o líder, e como deveria ser tratado. Na frente de toda a igreja, grande em número, o referido ministro do evangelho intimou cada um de seus doze discípulos a, na presença de todos, lamber o sal que havia colocado em sua mão e, ato contínuo, seus discípulos foram até ele e, cada um, lambeu um pouco do sal na mão do ungido. Em Goiânia, um colega me explicou o ato do sal na mão. Disse-me que é o que se faz quando se deseja colocar arreio em cavalo rebelde. Coloca-se um punhado de sal na mão, leva-o até a boca do animal e, enquanto este está comendo na mão do dono, o arreio é colocado sobre o seu dorso, sem que ele reaja.
Jesus Cristo, conta a escritura, um dia, também, resolveu mostrar quem era o líder e de que maneira ele tinha de ser imitado: “Jesus, sabendo ... que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Depois de lhes ter lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou. ” (Jo 13.2-5; 13-16) O nobre colega, em questão deveria ler mais esse texto, aliás, ele e a turma da qual ele faz parte, que vive a dizer, tirando do contexto, o verso: “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” (1 Sm 15.23)
Quem cometeu pecado de rebeldia, senão o líder, que usurpando a autoridade de Cristo submete seus discípulos à humilhação? Quem cometeu pecado de rebeldia, senão o líder, que usurpando a autoridade de Cristo obriga seus discípulos a satisfazer a seus caprichos e suas decisões espúrias? Soube que na Bahia, um homem considerado como digno por seus pares, contrariando os seus valores, levou sua igreja apoiar certa candidatura para não incorrer no pecado de rebeldia em relação ao seu discipulador, que, depois de impor-lhe esse, mudou de idéia quanto a que candidato apoiar, decidindo apoiar um ímpio, sabe os céus porque razão.
Líder cristão demonstra a sua liderança lavando os pés de seus discípulos e não pedindo mais dinheiro. Líder cristão demonstra a sua liderança amando aos seus discípulos até o fim, a ponto de dar a vida por eles, e não pedindo melhores carros e casas.
Líder cristão é exemplo do que significa ser ovelha de Cristo Líder cristão sabe, a exemplo de Cristo, que tudo o que tem e o que precisa recebeu e receberá de Deus, sabe que veio do Senhor e para Ele vai voltar, sabe quem é, porque é e para quem é, logo, não precisa de ninguém paparicando-o, nem autenticando a sua liderança
Líder Cristão não precisa de títulos e quando os tem não os usa. Líder cristão é servo, é isso que mostra quão próximo ele está do Senhor Jesus Cristo.
Os demais são anátemas.
17 July ACORDANDO AO ENTARDECERTales Messias
Em minha adolescência namorei com uma jovem muito distraída. Certo dia, por volta das 17h, ela acordou de seu “cochilo” da tarde. Era um entardecer bonito, segundo ela. Com um céu avermelhado, sol se pondo, céu límpido. Ela acordou mas, como de costume em algumas pessoas, esteve por alguns minutos naquele estado de torpor, de inércia, meio acordada e meio dormindo. É um estado em que há ausência de resposta a qualquer estímulo. (Recomendo inclusive que não se dê recado algum a uma pessoa nesse estado. Pois ela balançará a cabeça afirmativamente, confirmando que entendeu seu recado para, logo depois, ligar para você reclamando que você não disse nada a ela sobre aquele assunto. Como se recado algum você tivesse dito a ela. Com minha esposa, a tempos evito falar algo importante até que tenha tido certeza de que acordou “de verdade”. Mas...é apenas um conselho...aprendido após levar algumas “broncas” inocentemente)...bem...voltando a história...aquela jovem acordou dessa forma naquela tarde. Espreguiçou-se... lutou para não fechar os olhos por uns dez minutos...até que resolveu olhar o relógio: 05:15. De súbito pulou da cama. Assustada. Por ver que estava 15 minutos atrasada. Correu, tomou um rápido banho, trocou de roupa, vestiu sua roupa, correu para a cozinha, fez um café e um sanduíche, despediu-se de sua mãe e padrasto com um beijo em cada um, explicando que estava indo a escola. Então, caminhou rápido para a parada de ônibus pois este, como de costume, passava às 05:45.
Até então...em nenhum momento...desconfiou que era a tarde e não a manhã daquele dia.
Chegou na parada, conferiu o relógio. Estava no tempo certo! Só então, resolveu olhar mais atentamente para o céu. Viu que este, ao invés de clarear – como todos os dias – estava escurecendo. Achou estranho. E não estava nublado nem demonstrando vir chuva. Muito encabulada...virou-se para o homem do seu lado e perguntou: “Que dia é hoje?”. Com a resposta dele, ela deu uma forte risada...agradeceu ao homem (que não entendeu absolutamente nada do que estava acontecendo) e voltou pra casa. Entrou em casa rindo ainda...contou aos pais..que também começaram a rir confessando que estranharam ela ir a Escola naquela tarde mas que pensaram tratar-se de alguma aula extra ou prova. E assim ela voltou para seu quarto – rindo de sua própria demência - para então colocar sua roupa de casa...
Hoje, mais de quinze anos depois, essa história veio a minha mente. Lembrando-me de que ela é repetida muitas vezes... de formas diferentes.
Tanta coisa na vida faz-nos agir impulsivamente. Não só impulsivamente, mas equivocadamente. Em nossa mente, cremos firmemente que estamos corretos. Que caminhamos e agimos seguindo convicções tão firmes. Como diz uma canção: “Cada estrada em que eu andei, eu pensei daria certo...”. Tantas são as vezes que perplexo ficamos ao vermos que defendíamos ardentemente posições e convicções que depois se mostraram completamente erradas. O apóstolo Paulo é um bom exemplo: pregou, defendeu, até matou pessoas por aquilo em que cria. Um dia, depara-se com a Verdade e esta diz a ele que tudo aquilo que ele fazia, crendo ele ser de/para Deus, quando era justamente o oposto. Literalmente ele cai no chão. Diante da “claridade” da Verdade. Ficou cego três dias. Sem comer e sem beber. Ruminando pensamentos. Mastigando reflexões acerca de qual seria a Verdade daqui em diante. No escuro físico a fim de que sua mente fosse iluminada. Dali em diante sai pregando e divulgando suas novas convicções. Por ironia, essas novas eram justamente aquelas que ele mais combatia e se opunha violentamente.
Tal qual minha amiga, acordando a tarde imaginando ser cedo da manhã... tantas são as vezes em que minha mente vagueia e me pergunto: “como pude crer naquelas coisas em que cria? Como pude defender aquelas coisas? Como? Como não vi antes? Minha mente deveria estar num estado de torpor, de imobilização.
Muitas vezes só a maturidade nos ensina. Em outras o sofrimento – quando pedagógico – é nosso professor. Em outras ainda, o tempo, os estudos. Deixamos então de crer nas fábulas que nos contavam quando adolescentes. Deixamos de crer naquilo que apenas existe em teoria. Deixamos de crer naquelas instituições que tanto prometem mas não demonstram. E passamos a crer – agora mais humildemente pois não sabemos se dessa vez em definitivo – em outras verdades, ganhamos novos valores, muito do que se valorizava perde em nós o valor e, por outro lado, muita coisa que era desprezada ganha novo valor e cuidados.
Essa historinha da minha amiga precisa me ensinar ao menos duas coisas: misericórdia e humildade. Misericórdia ao me deparar com tanta gente que hiper-valoriza coisas e instituições que hoje – após viver e enxerga-las nas entranhas (pois a vitrine sempre é muito bonita. O desafio é continuar sendo bonita nos bastidores) e me decepcionar profundamente – já não valorizo e já não me atrai. Preciso amar essas pessoas. Elas são sinceras em seu equívoco. Como eu também era extremamente sincero. Elas agem sinceramente erradas, mas inocentes pois fazem crendo. Misericórdia. Preciso aprender isso. A amar os que acordam a tarde, pensando ser manhã... arrumam-se, tomam banho e se dirigem pensando ainda que é manhã. São sinceras. Estão com mente obscurecida. Enganada. Coisa própria do ser humano. E preciso aprender também a humildade... por lembrar que já fui assim. Que já defendi idéias, pessoas, instituições religiosas achando ser aquele o caminho correto. Já me dediquei além do que podia a coisas e pessoas que por fim se mostraram mentirosas, falsas, ilusórias e pequenas. E quão chocante é quando nos deparamos com as verdades (tal qual minha amiga dando-se conta de que na verdade era o entardecer daquele dia). Humildade por saber que tudo o que creio hoje pode ser revisto, reformado, melhorado, corrigido. Somos incompletos sempre. Esse era o espírito da Reforma Protestante (reformada, sempre reformando).
Por fim, aprendo que muitas vezes precisamos de pessoas que nos ajudem a ver: “moço, que dia é hoje?”, perguntou minha amiga. E saiu pasma com a descoberta. E rindo. Precisamos de humildade para entender que muito do que se descobriu, veio por outros. Na verdade, quase tudo. Por meio dos pais, professores, mentores, livros. Se incluirmos Deus na lista, teremos que dizer que tudo vêm dEle. E assim nos colocamos como receptores de tudo aquilo que passamos a crer e entender em nossa vida.
Hoje, meu desejo, são dois: rir daquilo que já fui sinceramente enganado. Rir daquelas coisas que fiz, que defendi, que me dediquei porque era próprio de minha idade e de minha evolução intelectual. Rir não por zombaria. Mas, por bom humor. Por entender que todos temos uma história, um processo, uma caminhada. Nesta, vamos gradualmente amadurecendo. Meu segundo desejo: que muitas outras surpresas eu ainda tenha. E que de preferência eu descubra ainda entardecendo. Sem ainda ser noite. Para que ainda eu consiga ter tempo de voltar para casa, trocar minha roupa para refazer tudo. Que em cada engano descoberto, em novas verdades, eu tenha humildade e tempo de retorno. Aliás, aqui termino dizendo que em Deus pra tudo há retorno. Tudo! Mesmo que o dia já esteja entardecendo. Pois as misericórdias dEle renovam-se a cada dia. 09 July “Você não viu na Televisão não foi?”Tales Messias
Meses atrás, uns dois talvez, uma garotinha foi “abraçada” por um macaco aranha, no Jardim Zoológico em Recife. Nesse “abraço”, foi bastante arranhada no rosto e no corpo. Principalmente porque no ímpeto de tirar o animal de cima da criança, este - que antes parecia estar brincando - ficou assustado e a todo custo tentou manter-se “agarrado” a criança com medo dos que tentavam a força tirá-lo dali. Esse fato ganhou destaque nos jornais da cidade. Protestos contra a Escola que conduzia a criança. Protestos contra a administração do Zôo por não ter pessoas treinadas próximo à caravana de crianças. Enfim...ganhou imenso destaque na mídia.
Ontem, levei minha filhinha ao Zôo. Um passeio entre pai e filha. Ela sempre adora! Ela fez questão de ver cada ave, répteis, ficou frente a frente com um tubarão lixa num aquário, implorou para que corresse para ver o leão quando ouviu de longe seu urro. Lamentou não poder ver o urso pois encontrava-se na casinha dele. Pediu-me para ver as cobras novamente, principalmente a píton albina. Saindo do Zôo, num clima já de despedida... passeando na calçada ao lado do rio... ela finalmente pediu para vir para meus braços (eu já falei que ela tem apenas 03 aninhos?). Eu a peguei no braço e, sutilmente, perguntei: “cansada não é minha filha?” (perguntei na verdade como projeção ao que eu sentia. Eu estava morto!). Ela, de pronto, respondeu: “Não, Painho. Tô com medo!”. “Medo? De que minha filha?”, respondi. “Do macaco aranha, Painho! Ele fica ali ó... (e apontou para uma ilhazinha, no meio do rio...)”. A isso, espantado, disse a ela : “Minha filha...o macaquinho é bonzinho...gosta de brincar...pular...é bonzinho...não precisa ter medo...”. Ela, com firmeza de quem está convicta do que vai falar me repreendeu dizendo: “Não, painho! Ele é brabo. Mau. Arranhou a menina todinha. Agarrou ela e arranhou ela todinha.” E concluiu olhando para mim: “Você não viu na televisão não, foi?”.
Após isso, inutilmente tentei persuadi-la, tentando ser advogado do macaquinho...mas sem sucesso. A primeira coisa que disse em casa a mãe foi: “Papai disse que macaco aranha é bonzinho...e ele nem é...não é mamãe? Ele arranhou a menina não foi? Passou na televisão...diga a Painho, mamãe”.
Fiquei pensativo sobre isso. E aqui escrevo como quem na verdade quer registrar isso para que eu mesmo não esqueça dos ensinos possíveis. Não pretendo ser cansativo. Na verdade, não tenho sequer a pretensão de que leitores gostem desse texto. Não tanto quanto o objetivo principal meu: não esquecer-me daquele dia. Digo isso, porque comecei a pensar em como deixamos nossos filhos por horas na frente da TV, ao invés de nos ocuparmos com elas. E as educarmos. Trocamos nossas antigas babás (“pedagogas”) pela TV e DVD’s. Eu faço isso! Agora mesmo enquanto escrevo esse texto...lancei antes no DVD o que ela quis (“Taz e sua turminha”). Isso me garante uma hora de concentração! Assim fazemos. Assim faço! Diariamente. Pior de tudo é ver (como ontem) que o que elas guardam da Televisão consegue ser mais forte do que a palavra de Painho, muitas vezes. Ou seja, a TV, aos poucos, vai ganhando autoridade dogmática para elas. E as entregamos a isso. Não quero aqui demonizar nada. Estou longe dessa turma que faz isso...que demoniza tudo e vê o mal em tudo (Harry Potter, Hello Kit, Disney e etc). Não acho que tudo é inocente. Mas também não saio por aí tentando decifrar demônio em tudo. Até porque o que quero chamar a atenção aqui não é para mensagens ocultas e difíceis de serem discernidas. Falo aqui das desvirtuações da verdade, que são vistas de forma clara, escancarada. Falo disso! Falo do poder que tem a TV em formar a mente das crianças (sejam crianças cronológicas ou mentais). Falo dos jornais ideologicamente inclinados a fim de usurpar das pessoas a consciência e a verdade. Falo dos jornalismos intencionalmente irreais. Falo do perigo de expormos nossa mente, a mente de nossos filhos também, a uma enxurrada de inverdades a ponto daquilo se tornar verdade absoluta (onde nega-se inclusive o ensino primário dos pais em favor do que foi dito na TV).
Falo de termos mais cuidado com o que se ingere diariamente em nossa mente. Falo de voltar a comprar livros nas férias para nossas crianças (Tipo “Para gostar de ler”...que eu lia muito em minha pré-adolescência). Falo de tomarmos consciência de acompanhar nossos filhos sobre aquilo que elas vêem. Falo de nós mesmos exercitarmos nossa mente pois se os pais não “treinam” a mente diariamente para que se tenha uma visão crítica onde filtre-se o que se recebe, como iremos ensinar isso aos filhos. Será apenas reprodução de mediocridade e de metodologia de como se deve crer em tudo o que se ouve e vê, sem critérios.
Aquela frase de minha filha me fez pensar...
Lembrei, com isso, de tantas inverdades ditas na TV com intenções nas entrelinhas: a criminalização dos movimentos sociais (por isso mostram-se os movimentos como baderneiros, vagabundos e violentos – como fazem com o MST); a legitimidade da guerra contra políticos progressistas na América Latina (por isso a imagem negativa sobre Evo Morales e Hugo Chávez, como exemplos. Mesmo acreditando que existem sérios erros nas atitudes deles); a legitimação da promiscuidade e da falta de pudores (por isso as novelas tão regadas a traições, vinganças, violência até que se vejam os males como coisas relativas). Enfim...seriam tantas coisas e tantos exemplos...
Por fim, minha filha me fez pensar...refletir...e reagir... quero que a reflexão que ela me trouxe acabe por me ensinar que preciso crescer muito ainda se quero vê-la crescer. Se quero ser coerente com uma oração que sempre faço a Deus por minha filha: “Não deixe que eu seja atrapalho a tudo aquilo que Senhor deseja fazer por minha filha e através dela. Protege-a de mim”.
Voltei para casa...antes parei e comprei três livrinhos para ela... orando para que não tenha sido uma reação emotiva...mas aprendida.
04 July SEM PERDÃO NÃO EXISTE AMANHÃEd René Kivitiz
Texto retirado do site: www.edrenekivitz.com.br
Alguém já disse que a família é o lugar dos maiores amores e dos maiores ódios. Compreensível: quem mais tem capacidade de amar, mais tem capacidade de ferir. A mão que afaga é aquela de quem ninguém se protege, e quando agride, causa dores na alma, pois toca o ponto mais profundo de nossas estruturas afetivas. Isso vale não apenas para a família nuclear: pais e filhos, mas também para as relações de amizade e parceria conjugal, por exemplo. Em mais de vinte anos de experiência pastoral observei que poucos sofrimentos se comparam às dores próprias de relacionamentos afetivos feridos pela maldade e crueldade consciente ou inconsciente. Os males causados pelas pessoas que amamos e acreditamos que também nos amam são quase insuperáveis. O sofrimento resultado das fatalidades são acolhidos como vindos de forças cegas, aleatórias e inevitáveis. Mas a traição do cônjuge, a opressão dos pais, a ingratidão dos filhos, a rixa entre irmãos, nos chegam dos lugares menos esperados: justamente no ninho onde deveríamos estar protegidos se esconde a peçonha letal. Poucas são minhas conclusões, mas enxerguei pelo menos três aspectos dessa infeliz realidade das dores do amar e ser amado. Primeiro, percebo que a consciência da mágoa e do ressentimento nos chega inesperada, de súbito, como que vindo pronta, completa, de algum lugar. Mas quando chega nos permite enxergar uma longa história de conflitos, mal entendidos, agressões veladas, palavras e comentários infelizes, atos e atitudes danosos, que foram minando a alegria da convivência, criando ambientes de estranhamento e tensões, e promovendo distâncias abissais. Quando nos percebemos longe das pessoas que amamos é que nos damos conta dos passos necessários para que a trilha do ressentimento fosse percorrida: um passo de cada vez, muitos deles pequenos e que na ocasião foram considerados irrelevantes, mas somados explicam as feridas profundas dos corações. Outro aspecto das dores do amar e ser amado está no paradoxo das razões de cada uma das partes. Acostumados a pensar em termos da lógica cartesiana: 1 + 1 = 2 e B vem depois de A e antes de C, nos esquecemos que a vida não se encaixa nos padrões de causa e efeito do mundo das ciências exatas. Pessoas não são máquinas, emoções e sentimentos não são números, relacionamentos não são engrenagens. Imaginar que as relações afetivas podem ser enquadradas na simplicidade dos conceitos certo e errado, verdade e mentira, preto e branco é uma ingenuidade. A vida é zona cinzenta, pessoas podem estar certas e erradas ao mesmo tempo, cada uma com sua razão, e a verdade de um pode ser a mentira do outro. Os sábios ensinam que “todo ponto de vista é a vista de um ponto”, e considerando que cada pessoa tem seu ponto, as cores de cada vista serão sempre ou quase sempre diferentes. Isso me leva ao terceiro aspecto. Justamente porque as feridas dos corações resultam de uma longa história, lida de maneiras diferentes pelas pessoas envolvidas, o exercício de passar a limpo cada passo da jornada me parece inadequado para a reconciliação. Voltar no tempo para identificar os momentos cruciais da caminhada, o que é importante para um e para outro, fazer a análise das razões de cada um, buscar acordo, pedir e outorgar perdão ponto por ponto não me parece ser a melhor estratégia para a reaproximação dos corações e cura das almas. Estou ciente das propostas terapêuticas, especialmente aquelas que sugerem a necessidade de re–significar a história e seus momentos específicos: voltar nos eventos traumáticos e dar a eles novos sentidos. Creio também na cura pela fala. Admito que a tomada de consciência e a possibilidade de uma nova consciência produzem libertações, ou, no mínimo, alívios, que de outra maneira dificilmente nos seriam possíveis. Mas por outro lado posso testemunhar quantas vezes já assisti esse filme, e o final não foi nada feliz. Minha conclusão é simples (espero que não simplória): o que faz a diferença para a experiência do perdão não é a qualidade do processo de fazer acordos a respeito dos fatos que determinaram o distanciamento, mas a atitude dos corações que buscam a reaproximação. Em outras palavras, uma coisa é olhar para o passado com a cabeça, cada um buscando convencer o outro de sua razão, e bem diferente é olhar para o outro com o coração amoroso, com o desejo verdadeiro do abraço perdido, independentemente de quem tem ou deixa de ter razão. Abraços criam espaço para acordos, mas acordos nem sempre terminam em abraços. Essa foi a experiência entre José e seus irmãos. Depois de longos anos de afastamento e uma triste história de competições explícitas, preferências de pai e mãe, agressões, traições e abandonos, voltam a se encontrar no Egito: a vitima em posição de poder contra seus agressores. José está diante de um dilema: fazer justiça ou abraçar. Deseja abraçar, mas não consegue deixar o passado para trás. Ao tempo em que fala com seus irmãos sai para chorar, e seu desespero é tal que todos no palácio escutam seu pranto. Mas ao final se rende: primeiro abraça e depois discute o passado. Essa é a ordem certa. Primeiro, porque os abraços revelam a atitude dos corações, mais preocupados em se aproximar do que em fazer valer seus direitos e razões. Depois, porque, no colo do abraço o passado perde força e as possibilidades de alegrias no futuro da convivência restaurada esvaziam a importância das tristezas desse passado funesto. Quando as pessoas decidem colocar suas mágoas sobre a mesa, devem saber que manuseiam nitroglicerina pura. As palavras explodem com muita facilidade, e podem causar mais destruição do que promover restauração. Não são poucos os que se atrevem a resolver conflitos, e no processo criam outros ainda maiores, aprofundam as feridas que tentavam curar, ou mesmo ferem novamente o que estava cicatrizado. Tudo depende do coração. O encontro é ao redor de pessoas ou de problemas? A intenção é a reconciliação entre as pessoas ou a busca de soluções para os problemas? Por exemplo, quando percebo que sua dívida para comigo afastou você de mim, vou ao seu encontro em busca do pagamento da dívida ou da reaproximação afetiva? Nem sempre as duas coisas são possíveis. Infelizmente, minha experiência mostra que a maioria das pessoas prefere o ressarcimento da dívida em detrimento do abraço, o que fatalmente resulta em morte: as pessoas morrem umas para as outras e, consequentemente, as relações morrem também. A razão é óbvia: dívidas de amor são impagáveis, e somente o perdão abre os horizontes para o futuro da comunhão. Ficar analisando o caderno onde as dívidas estão anotadas e discutindo o que é justo e injusto, quem prejudicou quem e quando, pode resultar em alguma reparação de justiça, mas isso é inútil – dívidas de amor são impagáveis. Mas o perdão tem o dia seguinte. Os que mutuamente se perdoam e se abraçam não são mais capazes de ferir um ao outro. Ainda que desobrigados pelo perdão, farão todo o possível para reparar os danos do caminho. Mas já não buscam justiça. Buscam comunhão. Já não o fazem porque se sentem culpados e querem se justificar para si mesmos ou para quem quer que seja, mas porque se percebem amados e não têm outra alternativa senão retribuir amando. As experiências de perdão que não resultam na busca do que é justo desmerecem o perdão e esvaziam sua grandeza e seu poder de curar. Perdoar é diferente de relevar. Perdoar é afirmar o amor sobre a justiça, sem jamais sacrificar o que é justo. O perdão coloca as coisas no lugar. E nos capacita a conviver com algumas coisas que jamais voltarão ao lugar de onde não deveriam ter saído. Sem perdão não existe amanhã. 23 June A DIFÍCIL ARTE DE AMARTales Messias
Eu sei, eu sei que decidimos amar. Que amar é fruto de uma decisão consciente. Sei que podemos reger e alimentar racionalmente nosso amor dia a dia...para que não corramos o risco de vê-lo esvaindo-se pouco a pouco. Sei que podemos agir de forma que, propositalmente, o sintamos crescendo ou diminuindo dentro de nós.
Mas, sei também ...ou melhor apenas “sinto” pois diante de questões do coração nem sempre temos plena certeza (“pois o mesmo é enganoso”) ... que existem dias onde amar se torna mais difícil, onde nos vemos incapazes de disso. Nos sentimos impotentes. Frios. Distantes. Com imensa tendência ao deserto e silêncio. Mesmo à solidão. Sentimos nosso coração com desejo de estar perto apenas de nós mesmos. Mesmo que isso também não nos dê sentimento de preenchimento.
Nesses dias, só buscamos nossa sombra por companhia. Nesses dias apenas ansiamos pelo suspiro de nossa própria alma. Buscamos alguém perdido. Esquecido. Alguém que se foi em nossa história. Buscamos pelos fatos e momentos onde essa pessoa vivia mais perto. Buscamos, lá dentro, alguém simples, humilde, com tempo para nos ouvir, com tempo para nos aconselhar a alma. Tempo em que eu podia chorar sem medo. Tempo em que eu podia ser eu mesmo com esse “alguém” sem medo de sentir-me rejeitado e nem pressionado a ser outro. Em dias assim, procuro esse “outro” esquecido... o “Tales” que se foi no tempo... que era meu melhor amigo. Busco por mim naquele tempo... a fim de restaurar algo que não se restaura: o tempo. Busco de mim o que nunca deveria ter perdido. Busco aquele que nunca deveria ter se despedido.
Faço isso não de forma previsível. Não há agendamento para se buscar a nós mesmos. Ouve-se apenas a própria alma. Ela se habilita a nos avisar quais são esses dias. Pois nesses, ela nos busca. E nos procura. Quando sente saudades do que éramos. Ela então nos sinaliza...de que precisamos parar. Rever em quem nos tornamos. A fim de que a perda não seja nunca defitiva...nem completa.
Por fim, percebo que nesses dias em que nossa alma geme...ansiando por nós mesmos...por sentir que houve perda... nesses dias é difícil amar o outro. Porque amamos quando sentimos coerência em nosso coração. Amamos quando coração e mente obedecem a uma só razão. Quando isso foge, no máximo nos apaixonamos . Ou, ao contrário, nos irritamos com o que é singelo e verdadeiro. Há engano! Há falsidade! Há confusão de sentimentos!
Por isso, em dias que se percebe ser difícil amar... aconselho (a mim mesmo!) ir em busca de mim mesmo. Pois em dias em que não me encontro, dificilmente inclino-me a encontrar o outro. Em dias onde me sinto solitário – mesmo em meio a quem me ama – preciso buscar quem de mim deixei pra trás. Pois, quando integralmente presente, e em Deus, e mergulhados no amor de Deus – pois só nEle nos encontramos completamente – nos inclinamos a amar também. NEle, nos vemos e nos encontramos. Nesse encontro conosco, vemos o outro.
20 June A TRISTE PARTIDA
A Triste Partida Luíz Gonzaga Composição: Patativa do Assaré Meu Deus, meu Deus
29 May PENSAMENTO SOBRE A HUMANIDADETales Messias
encantador Outras...
22 May O Logos de Heráclito e Jesus, o Logos do apóstoloTales Messias
Heráclito era um filósofo que viveu nos anos 540 a 480 a.c. Nasceu em Éfeso, na Ásia Menor. Uma de suas teorias interessantes é que ele chamava a atenção para o fato de que o mundo está impregnado por constantes opostos. Segundo Heráclito, se nunca ficássemos doentes, não saberíamos o que significa saúde. Se nunca tivéssemos fome não experimentaríamos a agradável sensação de sacia-la depois de uma refeição. Se nunca houvesse guerras, não saberíamos o valor da paz, e se nunca houvesse inverno não poderíamos assistir à chegada da primavera.
Tanto o bem quanto o mal são necessários ao todo, dizia Heráclito. Sem a constante interação dos opostos o mundo deixaria de existir.
Muito dessa idéia influencia nossa vida hoje. Por isso, regularmente, ouvimos as pessoas dizerem: “Só se dá valor a alguma coisa, quando a perdemos”; ou quando ainda dizemos que há mais harmonia numa relação entre opostos e, por isso, “os opostos se atraem”.
Essas idéias também influenciaram o mundo naquela época. A filosofia grega alcançou o mundo e disseminou o “pensar grego” por todo lugar. Isto incluía o mundo bíblico do Novo Testamento.
Havia uma discussão filosófica, da época dos filósofos pré-socráticos, que girava em torno da questão “De onde surgiu tudo? Qual o material subjacente que servia de origem pra tudo o mais?”
Para Heráclito, esta “alguma coisa” que era subjacente a tudo chamava-se “Deus” ou “logos”. Ele via que em todas as transformações e opostos da natureza havia uma unidade, um todo. Mas, “Deus” ou “logos”, era a base fundamental de tudo isso. Só que o “Deus” não se referia nem ao Deus dos judeus e nem aos deuses da mitologia grega. Logos, para ele, era a “razão”. Ou seja, havia, para Heráclito, uma “razão universal” que regia o pensamento humano mesmo quando eles não pensavam de forma igual e que dirigia os fenômenos naturais.
Essa idéia filosófica era comum, divulgada e debatida na época de Jesus e seus discípulos. Por essa razão, talvez, de forma extremamente inteligente e pertinente, o apóstolo João começa seu evangelho afirmando: “No princípio era o logos - logos - (o verbo). E o logos estava com Deus. E o logos era Deus... Todas as coisas foram feitas por intermédio dele e sem ele nada do que foi feito se fez” (João 1.1-3)
João, então, conhecendo a teoria de Heráclito, começou a exposição do evangelho a partir dela. Não demonizou a filosofia grega. Não rejeitou por completo. Soube expôr o evangelho a partir da cultura vigente. Ampliou-a, porém. Afirmou que não apenas o logos era subjacente a tudo e mantinha tudo. Foi além disso. Afirmou que nada seria feito, criado, se não fosse pelo logos.
E em todo o capítulo 1 do seu evangelho, apropriando-se da teoria de Heráclito, expõe quem Deus Filho é: - A vida estava no logos; - O logos estava no mundo; - O mundo foi feito por intermédio do logos; - Mas o mundo não conheceu o logos; - O logos veio para o que era seu, mas os seus não o receberam; - Mas a todos quantos receberam o logos, ele, o logos, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; - O logos se fez carne, habitou entre os homens e foi visto a Sua glória e era uma glória como a do Pai. Com essa introdução, João identificava-se com a cultura popular de sua época. E, com isto, conseguia ser entendido. A partir daí apresentava a Jesus como o logos que os gregos procuravam. Heráclito afirmou que “deveria” existir uma “razão universal” subjacente a tudo. João respondeu quem seria essa razão, Jesus Cristo, que se fez homem, habitou entre nós, deu-nos o poder de sermos filhos de Deus, fez o mundo e trouxe vida sendo Ele próprio a vida.
Ao logos de João, toda a glória,
05 May NÃO HÁ NADA PARA ALÉM DE DEUSTales Messias
Sou memória viva disso! Sou testemunha presencial e existencial dessa verdade!
Vivi pouco...mas o suficiente para experimentar construções rápidas em minha vida e falências de áreas que todos afirmam serem áreas vitais de nossa vida.
Vivi dos 17 aos 30 anos experimentando as grandes construções na minha vida. Foram 13 anos aprendendo a ser líder. Inicialmente numa igreja local. Com o tempo, e com a natural expansão de um trabalho dedicado – que interpretamos como sendo ação de Deus – o trabalho deixou de ser local para ser conhecido regionalmente. A esta altura, já pastor de uma grande igreja, tinha uma agenda cheia. Eram convites locais e regionais. Nas principais igrejas do Estado e do Nordeste.
Nesse tempo me casei. Mas, com o passar dos anos meu ministério foi engolindo minha vida familiar. Já não tinha finais de semana. Já não tinha tempo para mim mesmo. Meus estudos eram feitos pensando apenas naquilo que precisaria pregar. Não era apenas por devoção.
Tornei-me coordenador Regional de uma instituição conhecida mundialmente, que visa alcançar os jovens. Com essa coordenação, mais ainda minha agenda foi tornando-se mais preenchida...e cada vez mais isso tornava-se veículo desintegrador de minha família. E de mim mesmo.
Para um jovem sonhador...visionário...como sempre fui, enchi-me de esperança. De uma energia indizível de que seria possível despertar toda uma geração para vivenciar um evangelho que sempre sonhei. Vi enormes milagres...centenas de jovens descobrindo o evangelho e a si mesmos.
A essa altura, enquanto viajava para pregar...enquanto retornava de uma pregação... sentia meu coração mudando. Começava a perceber que as oportunidades também eram motivo de uma perda pessoal de humanização. Comecei a relativizar muitas coisas. Precisei compartilhar um ministério adoecido com outros líderes da antiga igreja onde pastoreei. E, em favor da irmandade, comecei a ter que negociar mentiras, enganações, inverdades, motivações desvirtuadas, necessidades patológicas, manipulações travestidas de autoridade pastoral. Precisei compartilhar isso...e percebi que no compartilhar disso fui adoecendo também meu coração.
A essa altura, como fruto de uma vida extremamente ativista, perdi completamente a priorização da família. Sim, perdi. Mas, pregava avidamente sobre a necessidade de se prioriza-la. Sim, fiz isso pois é possível continuar pregando o verdadeiro Evangelho mesmo estando no estado em que estava. É possível continuar subindo nos púlpitos e despertando pessoas mesmo estando no estado em que estava. É possível ser usado por Deus mesmo que no intimo eu soubesse exatamente como eu estava. É possível realizar eventos mesmo que íntimo eu notasse estranhas e imensas mudanças.
Isso porque é possível viver-se exteriormente intacto, transmitindo felicidade realização e estando-se, porém, apaticamente descrente e desmotivado. É possível esconder-se o coração tendo-se uma capa religiosa e, mais ainda, contando-se com o esmalte da liderança...com a maquiagem de ser líder. Até porque toda amizade que eu desfrutava na liderança daquela igreja mostrou-se futuramente sendo nada mais do que relacionamento trabalhista. Todo sorriso, toda amizade, toda expressão diabolicamente emitida de fidelidade e amor, soava-me verdadeiro mas, por fim, mostrou-se como sendo apenas expressões mercadológicas de pessoas que “precisam” de um trabalhador, de mão de obra em sua empresa-igreja, de uma engrenagem em seu sistema que ele comanda. Assim eram as imaginadas amizades que pensei ter dentro daquilo que chamava de equipe pastoral daquela igreja.
Diante de todo esse quadro interno, pessoal, veio a febre de uma doença já estabelecida a muito na alma e no coração. Vieram, finalmente, os sinais daquelas coisas que já existiam residindo em meu coração.
Vieram as falências. Ou melhor, vieram as falências factualmente palpáveis. O maior desses sinais foi a separação de minha esposa – consequentemente de minha filhinha. Saí desses meus ministérios. Com isso, enfrentei o desemprego e as perdas financeiras. Perdi – ou melhor – separei-me daqueles que eram meus “amigos” mas que depois os descobrimos apenas amigos de seu antigo bom nome. Perdi meu bom nome pois de uma dia para o outro você passa de homem de Deus a marginal, se você cai em determinados pecados escolhidos como capitais pela igreja. Perdi a paz interna. Perdi o direito de andar na rua sem que, ao ser reconhecido, precisasse enfrentar o menear de cabeças e o desprezo de quem me visse. Perdi a sensação de pertencimento a alguma casa, pois a esta altura, separado, já não me sentia em casa nem na minha antiga casa, bem como não conseguia sentir-me em casa onde passei a morar – na casa de meus pais. O sentimento era de um eterno peregrino, visitante, sem que aquela sensação de lar retornasse em mim. Por isso, meu eterno refugio em meu quarto ou minha insistente necessidade de estar na rua – devido à minha infante agitação interna. Perdi a maioria de meus amigos pastores pois de um lado alguns – que declaravam amizade – mostraram-se mais amigos das instituições que defendiam pois, como qualquer líder institucional, guardam dentro de si a doença da auto-preservação. Do outro lado, surgiram os oportunistas, que viram na minha saída e vergonha como oportunidade de crescimento para eles próprios. Vieram os ataques diários, os trotes constantes por telefone com o fim apenas de xingar-me copiosamente, os e-mails anônimos em conluio com a atividade satânica da acusação. A vida existencial encontrou um caos interno. A ponto de residir em mim um desejo suicida. Algo obssessivamente encrostrado em minha alma. Como quando, por duas noites, passei-as sentado em minha cama, com um revólver em punho, já carregado, dialogando com Deus e comigo mesmo, perguntando-me “por que não termino tudo isso aqui mesmo. Em minutos de agonia. Que seria apenas um alongamento de todas as dores que já existiam constantemente em minha vida desde que todas as falências vieram.”.
Nesse estágio de existencialismo, onde tudo o que se havia construído não apenas se desconstrói mas, também, revela-se como coisas falíveis, frágeis, incapazes de preencher a alma, factíveis, vazias em sua essência no sentido em que divulgam uma mensagem que ela mesma não é capaz de sustentar diante de suas ações, parciais pela instituição e não pelo ser humano pois diante de qualquer ameaça à preservação de cada uma delas nega-se a pessoa – mesmo que esse tivesse sido chamada de amigo durante tanto tempo – a fim de que se “salve” a instituição. Quando chega-se e experimenta-se um momento como esse, um sentimento inevitável gruda-se em sua mente: - “Quanta perda de tempo enquanto dedicava-me prioritariamente a coisas que em si mesmas, quando priorizadas, tem poder de destruí-lo.”
Mas, como um ser oculto que se movimenta no escuro sem que você o veja, algo em nosso coração, paralelamente a todas as amargas lembranças e imenso vazio existencial experimentado pelas falências, começa a se mover, em silêncio... como um espírito movendo-se. Enquanto todos se afastam, amigos, companheiros e até família – refiro-me a parentes, pois pais e irmãos continuaram caminhando comigo de perto – e o quarto escuro passa a ser seu único local onde chamamos depreciavelmente de lar, de forma mais sensível – como nunca antes – imaginamos o olhar de Deus para nós e este, diferente do que toda a multidão imagina que seja, não é olhar de raiva e decepção. É olhar de compaixão e misericórdia. De alguém que esta enxergando nosso mais íntimo sentimento de vergonha, culpa, decepção e de alguém que sente dores físicas em suas entranhas...literalmente.
“Não fosse o Senhor, eu já não seria.”, diz o salmista. A partir disso, desse redescobrimento de como Deus nos vê, de como ele nos enxerga, de como ele nos aceita mesmo que tenhamos perdido quase tudo, vemos que, por fim, sobra ele. Notamos que, para além de Deus, nada mais existe. Notamos que apenas nEle subsistimos. Que nada...absolutamente nada ... substitui e pode arvorar-se a substituir o amor de Deus por nós. Que apenas em Deus pode-se ter segurança quanto ao futuro e vida. Que unicamente nEle a vida pode ser vivida tendo-se um sentido substancialmente capaz de experimentarmos deleite e satisfação mesmo que não estejamos fazendo absolutamente coisa nenhuma. Descobre-se que apenas descobrimos quem somos quando nos vemos perdidamente salvos em Deus. Descobrimos que apenas entendemos quem de fato somos quando ficamos nus, vulneráveis, expostos a todo sentimento negativo e, mesmo assim, sentimos uma mão nos guiando em meio a todo um caos labirinticamente capaz de nos encher de imenso sentimento de insegurança e incertezas quanto ao futuro. Após nos vermos nesse momento, enxergamos a nós mesmos. Nesse momento, Deus nos abraça. E faz em nós, e conosco, algo que nenhum de nossos antigos amigos – gente que nossa mente passou a considerar como inimigo tal qual é a secura que se instalou em nós – foi capaz de fazer e criar. E Deus, apenas Ele, por sua Graça, pela essência-amor que possui, vai nos reconstruindo. Dessa vez, não mais iludidos com as vaidades e ilusões de antes, dessa vez não mais com sentimento de segurança em coisas, instituições e pessoas que sabemos que não podem preencher-nos e nem satisfazer nossa alma. Dessa vez Ele nos preenche dando apenas a si mesmo. Enchendo-nos dEle próprio. Com o tempo, sem que sintamos – pois é silente e sutil – vemos nosso coração mudando novamente. Nos abrimos ao perdão. Conseguimos amar de novo. Refazemos laços antes partidos – como, por exemplo, os laços com minha esposa novamente e milagrosamente refeitos. Consideramos nossos reconhecidos “falsos amigos” apenas como “falsos amigos” e não mais como inimigos. E os perdoamos por notar que toda maldade realizada pelo homem é fruto daquilo que somos em essência: pecadores. E voltamos a viver a vida. Só que agora muito mais sensíveis às mudanças de nosso coração, muito mais alertas aos possíveis encantos que podem se apresentar para nós em nossa caminhada e que, mesmo parecendo ser algo bom, tem poder de, a longo prazo, destruir nosso foco principal de caminhar amando a Deus acima de qualquer outra coisa e de nada mais na vida considerarmos como sendo mais encantador do que estar nos braços de Deus. Coisas que antes cantávamos. Coisas que antes ouvíamos ser ditas na igreja que freqüentei. Mas coisas que nunca foram verdade em quem dizia e em mim que ouvia. Passamos a caminhar olhando para o chão, humildes. Não tristes. Apenas humildes por saber quem somos. Passamos a caminhar batendo no peito e dizendo à nossa alma: sou pecador. Perdoado por Deus. Por isso, toda virtude provém dEle. Daí em diante, caminhamos sem poder mais controlar para onde vamos e sem saber precisar de onde viemos. Passamos a viver controlados pelo Espírito e dispondo o nosso espírito para ser monitorado, diagnosticado e tratado pelo Espírito de Deus. Porque finalmente entendemos que, para além de Deus, nada mais há, nada mais existe. Nem nós. Apenas nos encontramos, existimos e subsistimos nele.
25 April PIPITA NUNCA SONHOU COM O PRÊMIO NOBEL DE LITERATURALuciano Oliveira Professor de UFPE E-mail: jlgo@hotlink.com.br
“Não! Não levaria Pipita para minha casa!” Com isso vou logo respondendo à conhecida provocação feita por figuras como Bareta em programas do tipo Tolerância Zero ─ uma dessas aberrações que vagueiam todos os dias pela televisão brasileira. Estarei sendo agressivo? Mas o que dizer de programas como esse em que terríveis dramas humanos são tratados na base da gozação com a participação de um pobre anão fantasiado de palhaço chamado “Torroio” ─ ou algo assim?
Não, não o levaria para casa. Pipita era um celerado, e tipos como ele metem medo em qualquer ser humano normal. Talvez São Francisco de Assis, ou Jesus Cristo, dele se apiedassem e lhe dessem abrigo. Eu não sou santo, e portanto não levaria Pipita para minha casa. Mas daí a exultar, a soltar fogos (simbólicos e reais) como fez a chamada sociedade sergipana com a notícia de sua execução, vai uma distância muito grande. Até porque uma questão nos interpela: como alguém se torna assaltante, estuprador e assassino com apenas 17 anos?
Calma, leitor! Não vou entoar a tradicional cantilena sobre as causas sociais do crime. Pipita não era inocente. Afinal, entre as determinações sociológicas e o ato criminoso, há sempre um terreno vago que não é atravessado sem o que ─ corretamente ou não ─ chamamos de liberdade. A prova é que nem todas as pessoas pobres delinqüem, da mesma maneira que nem todos os delitos são cometidos por pessoas pobres. Vejam o caso dos meninos de rua. Pela origem social, trata-se de seres submetidos às mais duras determinações. Mas se de um lado todo menino de rua é de origem pobre, de outro nem todo menino pobre se torna menino de rua! Entre o casebre miserável e a marquise onde se cheira cola e se aprende a assaltar, nada está decidido de antemão. O menino pode ser salvo por uma madrinha que o leva à igreja, ou pelo medo de levar uma surra do pai.
Mas não podemos esquecer ─ nunca! ─ que para estar submetido à tentação de ir perambular na cidade em vez de ir para a escola, é preciso pertencer a uma classe social onde essa “opção” se apresente. Se aos filhos da classe média sergipana ela não se põe, não é porque eles sejam melhores ou feitos de um barro diferente, mas porque seus pais os protegem dessa possibilidade obrigando-os a ir à escola, a comer nos horários certos, a fazer o dever de casa e a ir para a cama na hora de dormir.
Na falta disso, os devaneios mais loucos são possíveis. Com o que retomo a pergunta: como alguém ─ alguém que nasceu bebê como nossos filhos ─ se torna um Pipita aos 17 anos? Essa é uma idade em que ainda sonhamos. Quem joga futebol, sonha em ganhar uma copa do mundo. Para ver a maluquice de que somos capazes, basta dizer que um perna-de-pau como eu, que sublimava a timidez lendo livros, sonhava nessa idade que um dia ganharia o Prêmio Nobel de Literatura... Imaginem! Pipita, que certamente nunca leu um livro, com que sonhava? Provavelmente em ser um desses bandidos perigosos com um “três-oitão” na mão fazendo tudo o que a irresponsabilidade da idade autoriza: assaltar, estuprar, matar. Bastou um lar miserável desfeito, um pai na prisão, uma oportunidade... e o sonho se realizou! Só que era um pesadelo, e era real. E talvez ele só tenha se dado conta disso quando a primeira bala o atingiu.
Entretanto, as únicas referências que ouvi à pouca idade de Pipita foram para lamentar que, sendo menor, ele tivesse a impunidade assegurada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê para um caso como o seu, no máximo, internação pelo prazo três anos, a título de “medida sócio-educativa”. Como disse com certa dose de humor o dono da banca de jornal onde compro minha cervejinha, até os 18 anos eles são “anjos de luz”... E a óbvia conclusão: “tem é que mandar bala!” Ou, como estampou o Cinform com um franqueza chocante, despachá-lo para o “quinto dos infernos”. Não, Pipita não era nenhum anjo de luz, e o desfecho da sua miserável história dificilmente poderia ser outro. Daí a exultar com sua execução, vai uma grande distância, repito.
Tudo isso, vale lembrar, aconteceu numa Semana Santa, na madrugada da Sexta-Feira da Paixão para o Sábado de Aleluia, quando a única celebração possível para os que se dizem cristãos seria a da dor! E lembro minha avó, dizendo que quando uma alma ia para o céu, os anjos celebravam; e que quando ela ia para o inferno, o diabo é que ficava contente. Pipita não deve ter ido para o céu. Nesse caso, talvez os fogos saudando sua morte não tenham sido soltados por anjos... 17 April AS CONTRADIÇÕES DE NOSSA ÉPOCA E AS FUNÇÕES DAS BOAS PERGUNTASTales Messias Como falar em aprofundar relacionamentos, em desfrutar boa companhia dos mais íntimos...se os encontro apenas no msn? Se, ao contrário de anos atrás, hoje envio e-mail para eles – duas ou mais vezes por semana – e tenho o sentimento de ter tido “contato” com eles.
Como falar em valorizar família, se sou obrigado a “passar” por ela pela manhã, quando “engolimos” juntos (o que já é bom! Porque em algumas nem isso!) o café da manhã e já nos despedimos para nos vermos apenas a noite – após faculdade e reuniões. Quando a única coisa que me resta é sentar-me à beira da cama de minha filha, fazer uma oração por ela, e beijá-la...mas isso tudo “sozinho”, pois faz horas que ela já dorme.
Como falar em ser paciente, calmo, ter vida mais simples... se preciso que minhas dezenas de e-mails diários sejam recebidos, lidos e respondidos, de imediato? Além de ter que fazer o mesmo com todos os que recebo diariamente?
Como ensinar à minha filha que ela precisa alimentar-se bem... se preciso constantemente estar dizendo a ela, enquanto come, “rápido, minha filha. Mastigue rápido. Estamos nos atrasando”?
Como estar mais próximo de minha esposa...se a encontro a noite. Já na cama. Assistindo TV e me aguardando para termos nossos únicos momentos em paz. De diálogo, lazer e companhia? Quando toda a tirânica correria do dia já nos impõe extremo desgaste e cansaço?
Como ensinar, como Cristão, que precisamos amar o nosso próximo e tratar os outros como queremos que nos tratem... se sequer conheço o nome de meus vizinhos? Muito menos tenho seus telefones?
Nosso tempo é muito desafiador. Mas, apenas para quem busca lutar contra tudo o que se impõe para nós diariamente, que nos retira qualidades e virtudes e os troca por hábitos e vícios que vão fulminando e nos tornando uma contra-mensagem sobre tudo aquilo que nós acreditamos. E até divulgamos!
Quem busca “nadar contra toda essa maré” desumanizante de todos nossos dias, precisa ao menos aprender a fazer boas perguntas. Para si mesmo! Não para os outros. Para dentro de si. No máximo, também, para seus íntimos - sua esposa e filhos. Precisa ter coragem de perguntar a si mesmo... “como estou indo como pai?”; “como tenho sido como marido?”; “Eu gostaria de estar casado comigo?”; “Gostaria de ter um pai como eu tenho sido?”; “Tenho prioridades ainda em minha vida? De que servem essas prioridades na minha agenda diária e semanal?”; “Quais são meus princípios de vida e valores? Eles são lembrados por mim no meio de toda essa agitação sufocante de meu dia?”.
Quem busca não ser ainda mais engolido por essa mecânica diária capitalista, que nos impõe diariamente a necessidade de sermos mais competentes, de termos melhores desempenhos a cada dia, de nos auto-melhorarmos diariamente – método kaizen – precisa ao menos aprender a disciplina da auto-análise. De ter, de tempos em tempos, uma parada, em busca de levantar um diagnóstico de como temos caminhado nas diversas áreas de nossa vida. Um exame acurado, testado por testemunhas – os que caminham mais de perto e que possuem a habilidade de conseguir ser honesto e amável com você. Essas testemunhas não podem ser pessoas que se sentem subordinadas a você. Essas geralmente não são completamente sinceras. Por medo ou por desejo de serem promovidas.
É um exercício saudável para descobrirmos quais “monstros” ganharam espaço em nossa vida, tendo entrado nela de forma absurdamente sutil e pacientemente diária, mas constante. Tendo, por fim, transformado nosso coração, nossas práticas, até nossos conceitos. Ou, o que é pior, nos transformando – por nossos comportamentos – na anti-tese de tudo aquilo em que cremos e valorizamos. Pois, como bem afirma Sêneca, filósofo e tutor de sua época, “os males de que foges, estão em ti”.
06 April GENTE NOVA, MUNDO NOVOAriovaldo Ramos Extraído do blog:http://blog.ariovaldoramos.com.br/ “Caminhando junto ao mar da Galiléia, viu os irmãos Simão e André, que lançavam a rede ao mar, porque eram pescadores. Disse-lhes Jesus: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens. Então, eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. Pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes. E logo os chamou. Deixando eles no barco a seu pai Zebedeu com os empregados, seguiram após Jesus”. Mc 1.16-20 Jesus chama homens de seus ofícios para serem pescadores de homens. Eles eram pescadores por profissão, sabiam tudo sobre o seu ofício: reconhecer quando era tempo bom para a pesca; localizar cardumes segundo espécies; enfim, nada havia de secreto no mar e no caminho dos peixes para eles. Jesus os chama para fazer o mesmo em relação aos seres humanos: conhecê-los como conheciam aos peixes e ao seu “habitat”. Agora eles vão pescar pessoas, e há que conhecê-las e às suas circunstâncias, para tanto. Então, Jesus, antes de tudo, chama pessoas, para serem seus alunos, com objetivo de os apresentar a seres humanos, de ensinar-lhes sobre a sua espécie, para que a compreendam e, portanto, se compreendam em suas circunstâncias, para que possam entender a beleza e a tragédia humana. E essa é a missão: trazer as pessoas desta angústia para a possibilidade da beleza plena, como indivíduos e como sociedade. Jesus os chama para serem solidários, para se reconhecerem no próximo e por ele se responsabilizarem - para se verem como parte da grande comunidade humana. Nesse chamado não há etnocentrismo – pescadores de homens – de todos os membros da única raça que existe: a raça humana. Os alunos de Jesus serão capazes de reconhecer os seus semelhantes em sua dor, em seu sofrimento, em suas circunstâncias. Os alunos de Jesus, pela graça, pescarão pessoas da situação em que se encontram para que sejam tornados protagonistas da própria história, e agentes de mudança das circunstâncias que geraram, ou em que foram aprisionados. Sem novo ser humano não há mundo novo. Os que se esqueceram disso levaram uma surra da história. 31 March COERÊNCIA CONTRADITÓRIATales Messias
Por que insistimos em dizer que somos completamente sãos? Por que necessitamos afirmar que dificilmente nos enganamos? Por que a infantil preocupação de parecermos seguros? Perdoem-me mas os infantes não são assim...eles assumem sua fragilidade. Aos adultos cabe esse ofício de precisa demonstrar força e poder.
Por que teimamos em refletir uma imagem de plena segurança? Por que nossa ânsia imatura de sermos conhecidos como aqueles que não perdem o controle? Por que o medo de mostrar nossas sombras?
Você não concorda com o que digo? Não....? Será que estou enganado... Ou nunca prometemos o que sabíamos não sermos capazes de cumprir? Ou nunca demonstramos falsamente uma apreciação por alguém quando, no íntimo, havia reprovação e desgosto? Ou nunca fizemos, escondidos, algo que sabíamos ser digno de gozação?
Quantos amores declarados...que foram se esvaindo com o tempo. Quantas amizades, oralmente declaradas, que foram esquecidas. Quantas palavras de fidelidade tornaram-se, no mínimo, indiferentes. Quantos sorrisos espalhados quando, na verdade, apenas queríamos ser gentis. Chamamos educação a isso... impossível chamar falsidade. Seria vil. Melhor o esmalte externo que o frágil barro interior de um vaso.
Quantas falsas impressões refletimos na busca insana de parecermos o que não somos. Quantas roupas caras compradas com a intenção de cobrir nossa alma pequena, complexada. Quantos sapatos valiosos adquirimos a fim de escondermos os frios caminhos por onde andamos. Quantas acusações e condenações lançamos apenas para não vermos nossos próprios e semelhantes erros?
Como é difícil nos vermos, nos enxergarmos. Como dói a dura realidade da alma humana. Como tentamos nos desvencilhar de nós mesmos A exposição direta ao que somos nos envergonha. É tão melhor a doce ilusão, por isso falsa, de quem imaginariamente gostaríamos de ser.
Mas, é libertador nos aceitarmos frágeis. É sábio aquele que conhece suas potencialidades mas não rejeita suas imperfeições. Que, em si, percebe força e fragilidade, sensibilidade e sequidão, coragem e medo, inteligência e imprudência, conhecimento e superficialidade, desejos e impossibilidades. Tensão morando em nós. Como a saudosa brincadeira do "cabo de guerra". Guerreando, agora, em nossa alma. Vive-se, ao contrário do que se pensa, em paz, quem aceita e enxerga essas duplicidades humanas. Quem as vê como algo inerente ao espírito humano. Isso é assim, adâmico, desde a história da origem humana na tradição judaica.
Vive em maior guerra aquele que, ao contrário, não aceita ser portador desta guerra interna. Pois vive na ânsia inútil de não ser humano. De ser protótipo do que deveríamos ser. Originalmente. Vive escondido, encaramujado, obrigando a alma a ser eremita, todos os que - em nome de uma falsa religião, ou moralismo, ou legalismo neurotizante - buscam refletir uma imagem do que nunca foram. À semelhança de um malabarista de circo que, na busca de não deixar prato algum cair no chão, ocupa-se exclusivamente de fazê-los rodopiar num bastão, não tendo tempo de desfrutar de mais nada, nem mesmo de sua própria atividade. Assim vivem esses, pseudo-humanos, eternos mantenedores de uma imagem que nunca houve, mas que eles insistem em revelar.
Somos aquém do que gostaríamos. Vivemos com esperanças. Sonhos. Seremos e viveremos melhores quando, finalmente, desistirmos de ser deuses. E aceitarmos que, no máximo, somos semelhantes. Ele, apenas Ele, é. Nós existimos e sub-existimos e nos movemos nEle....porque Ele, sim, é.
21 March HIPNOTISMO SOCIALTales Messias
Já valorizei ter sucesso mais do que ter amigos; Já me enchi de prazer em ter uma agenda cheia sem perceber os malefícios conseqüentes; Já olhei para uma vida bem sucedida com mais brilho do que o sorriso de minha filha; Já gostei dos aplausos, mais do que a benéfica palavra crítica de um amigo; Já desejei mais reuniões de planejamento do que um café num terraço de um amigo; Já amei mais sapatos do que chinelos; Já palpitei mais por palavras como "visão" e "estratégias" do que "paixão" e "sinceridade"; Já me enxerguei me deliciando com o palco sem encontrar as virtudes dos bastidores; Já me encontrei cego, guiando e sendo guiado por outros cegos, desejando as sombras tal qual a caverna platônica;
Enganei-me. Deixei-me seduzir. A vida não estava ali, por mais bem intencionado estivesse. A vida não brotava de uma aridez absurdamente atraente. Ao contrário, imperceptivelmente não notei que sutilmente ia ficando tal qual as paredes brancas, idolatradas, ornamentadas, límpidas dos templos (semelhantes, na maioria, às paredes de um sepulcro) mas duras, secas, insensíveis que rodeavam-me.
Um hipnotismo. É o que hoje percebo.
O divino nos encontra quando numa flor tocamos. Quando frágeis nos percebemos. Quando um sorriso sincero se descortina pra nós.
Num café. Rodeado de paz e reflexão. Não no meio do vendaval diário dos religiosos e executivos. Mas na brisa suave da sensibilidade, do amor, da gentileza, do perdão, de uma palavra doce e contrastantemente suave. Não nos atrativos arrebatadores da riqueza, da moda e do poder. Mas, no olhar silente, até solitário, de uma criança em desamparo. Na evolução diária, lenta, humanamente imperceptível, do brotar de um girassol. No canto solitário de um pássaro buscando harmonia com o nascer do dia. Num copo de água, quando sedentos. Em situações e fatos que, outrora, julguei pequenos, irrelevantes. Mas capazes de nos encher. Enchendo a alma.
No abandono do que fui e desejei, não encontrei um novo modo de vida, encontrei-a finalmente. E assim, me encontro. 11 March TORNANDO-SE ADULTOTales Messias
“Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”
Essas são palavras de Jesus para Pedro. Sempre admirei Pedro! Não pelos milagres realizados por ele. Não por sua liderança. Não por ser um dos pilares do cristianismo primitivo. Sempre o admirei por sua humanidade. E, por essa razão, sempre me vi nas atitudes de um Pedro temperamental (quantas vezes quis enfiar uma espada em alguém. Mesmo que conseguisse arrancar só uma orelhinha); de um Pedro extremista, exagerado (quantas vezes teimei com Deus – tal como Pedro que não quis que o Mestre lavasse seus pés – para logo em seguida abrir-me completamente a Ele – assim como o Pedrão: “lava-me completamente, Senhor); de um Pedro que quando acerta algo (“bem-aventurado és Simão...porque do céu te foi revelado”) logo se enche e se incha levando-o a pecar e tendo que ser corrigido por Deus(“arreda, satanás, tu és para mim pedra de tropeço...”). Por isso, o que mais me causa admiração em Pedro é sua semelhança comigo. E por isso sempre penso: “se houve jeito para Pedro, há jeito para mim também”.
Com a frase de Jesus para Pedro (“Quando você era mais jovem, vestia-se e ia para onde queria; mas quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”), apesar do evangelho afirmar que essa frase foi dita com a intenção de indicar qual a morte que Pedro teria (crucificado, tal qual Jesus), quero propor um outro modo de interpretá-la. Isso não é idéia minha. Costumo citar as fontes de minhas idéias: esse novo modo de interpretar esse texto é do Henry Nouwen. Ele entende que essa frase nos leva ao discipulado. Com essa frase Jesus queria nos ensinar que quando jovens – não apenas na idade, mas na maturidade – guiamos nossas próprias vidas. Caminhamos segundo nosso próprio pensamento e desejos. Não pensamos nos outros. Não medimos conseqüências. Não calculamos os prejuízos. Somos guiados apenas por nossos desejos e por aquilo que apenas nos satisfaz.
Quando vem a maturidade...continuamos tendo desejos escusos. Obscuros. Maliciosos. Distoantes. Mas, com a maturidade entendemos que maior que nossos desejos está a vontade dEle e também o que chamamos “bem comum”. Na maturidade, entendemos o que é amar ao próximo como a nós mesmos. Entendemos que precisamos pensar no outro e buscar o bem do outro. Aprendemos a renunciar nossa própria vontade em favor do bem alheio. Não chamem isso de massa manipulável. Nem de “Maria vai com as outras”. Não é disso que falo. Falo de solidariedade (quando doamos algo nosso a fim de que todos ganhem). Falo de sensibilidade (quando passamos a sentir as dores do outro como sendo nossa própria dor). Falo de coletividade (quando buscamos o que é bom para todos e não apenas o que beneficia a mim). Falo de comunidade (quando entendemos que vida em comum exige renúncia a fim de que todos cresçam. É o oposto de egoísmo).
Pedro tornou-se nesse homem. Alguém que se doou a fim de que todos recebessem. Alguém que renunciou crenças e paradigmas e que reconheceu que necessitava expandir-se em várias concepções e convicções (quando foi conscientizado por Deus – e por Paulo – de que precisava considerar os gentios como sendo iguais aos judeus). Alguém que deixou ser preso pacificamente porque reconheceu ser privilégio sofrer pelo evangelho.
Se houve jeito para Pedro, há jeito para mim e você. “...quando for velho, estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o levará para onde você não deseja ir”. Desejo aprender isso um dia. Quero ser vestido por outro, aprender que outros poderão me cobrir de meu “frio” e necessidade, reconhecer que por outras pessoas posso ser “aquecido”, protegido. Quero aprender a renunciar meus próprios desejos. Quero aprender a não ver a mim mesmo. Quero aprender a ter prazer em ver os outros me guiando. Mesmo que para caminhos que eu não deseje ir. Mas, quero aprender a ser guiado. Desde que não contrariem minhas convicções de fé. Mas, quem sabe se até nas minhas convicções não precisarei reaprender com outros? Quero aprender esse caminho.
Sempre fui ensinado que quanto mais maduro mais nos tornamos bons chefes. Por esse texto aprendo que quanto mais maduros mais nos tornamos abertos à liderança de outros. E que quanto mais maduros líderes formos, saberemos pensar no outro, viver para o outro.
Se houve jeito para Pedro, creio que haverá jeito para mim e para você.
02 March CAMINHANDO...Tales Messias
CAMINHANDO... (Baseado na história bíblica do Bom Samaritano)
Certo homem, seguro de si, num dia aparentemente comum, caminhava. Caminhava com destino certo. Ele tinha morada certa e andava para um local já conhecido. De Jerusalém ele se encaminhava para Jericó. A estrada era conhecida, o percurso e os percalços também. Enquanto aquele homem caminhava, num dia comum, numa estrada conhecida, para um local não desconhecido, exalava em seu rosto tranquilidade e segurança.
Qualquer pessoa que tenha conhecimento da estrada que trilha, do rumo que tomou e do destino de sua peregrinação, vive externando segurança. Seu semblante é de alguém que tem a vida sob controle. De alguém seguro.
De repente, porém, subitamente, algo estranho, inesperado, fora do script pré-determinado acontece: aquele homem é golpeado, espancado, esmurrado incansavelmente. Não só fisicamente é atingido mas, a essa altura, sua suposta segurança foi abalada. Aquela estrada conhecida guardava mistérios. Sua alma, antes segura, agora sofre pelas surpresas. Como é difícil ser surpreendido por tragédias e mudanças de rumo!!! Assaltantes, então, espancam aquele homem, roubam tudo e o deixam quase morto na estrada. E nu.
Muita poeira, muito sangue, muita dor, tantas dúvidas agora. Sem mais nenhum senso de direção, sem mais forças pra reagir, fugiu dele aquela antiga sensação de segurança e controle. Assim ficou aquele homem.
Assim ficamos nós quando, inesperadamente, a vida muda o rumo. Sem avisos prévios. As surpresas nos tiram aquela falsa sensação de segurança e controle. O poder de reação às vezes nos foge. A direção fica confusa. Um profundo sentimento de solidão aparece. Nu ficamos. Vulneráveis.
De repente, passos. Aquele homem, abrindo um pouco os olhos, vê se aproximando alguém com roupas conhecidas: um sacerdote. Novamente teima em voltar aquele sentimento de segurança pelo que se conhece. E o homem pensa: “que bom. Estou salvo. Um homem bom, de Deus, me ajudará.” Ele, então, fecha os olhos – cansados e doloridos – aguardando um toque em seu corpo, uma mão amiga a ajudá-lo. Os passos, porém, não diminuem o ritmo. E vão se esvaindo, indo embora... As dúvidas retornam...e aumentam...
Novos passos, os olhos se abrem novamente, menos esperançosos agora. Novamente um estilo de roupa conhecido: um levita. “É um homem de Deus, esse me ajudará.” Novamente os passos se vão, e com eles a esperança. Vem, porém, a frustração, o medo, o sentimento de desamparo.
Pela terceira vez, novos passos. Ele já nem mais abre os olhos. Cada vez sente-se mais morto e menos disposto. No corpo e no espírito. Mais inseguro. De repente...um toque...uma voz...alguém o segura forte. Dói muito aquele toque. Mas, agora, são mãos de ajuda. O homem é colocado sobre um cavalo. Cada pisada do animal, faz o homem gemer. O homem é levado a uma pousada, deitado numa cama, tratado, amado... e dorme. Antes, porém, abre mais uma vez os olhos... e vê quem o ajudou... um samaritano ?! Um inimigo ?!
Tantas são as vezes que, no meio da dor e de tanta aflição, somos surpreendidos pelo amor de pessoas que nunca pensaramos receber. Um amor desobrigado, apenas amor!
Dias depois – até porque a cura dificilmente vem de forma instantânea nem através de fórmulas pré-estabelecidas– aquele homem vai embora. Descobre, antes, porém, que todas as despesas já foram pagas.
Ao retornar, há um misto em seu coração. Temor por reconhecer que era falso aquele sentimento de segurança e controle. A vida, por vezes, nos surpreende com notícias e eventos que nos tiram completamente a sensação de controle e administração de nossa vida.
Mas, além de temor, um profundo sentimento de que sua vida foi levada a um novo, e mais alto, patamar. De que aquela experiência, de ter sido subjugado, maltratado, espancado, desrespeitado, roubado, deixado nu ...trouxe à sua alma uma sensibilidade nunca antes sentida. As perdas, as falências, as humilhações e solidões trazem muita dor, mas, junto a ela, vêm sensibilidade – a Deus e aos que sofrem – vêm disposição para a meditação e reflexão, entendimento de que muito do que se fazia era mera coreografia, enfeite, sem profundidade para a alma, ganha-se solitude diante de Deus, respeito à vida sem esquecer-se de que ela, por vezes, nos lança num epicentro de um furacão.
Aquele homem, antes tão seguro ...volta agora, pra casa, pensativo e refletindo. Vez por outra, ainda caminhando, lágrimas saem dos seus olhos. É ele percebendo que sua vida pode ser muito mais profunda do que já foi. Pode ser menos previsível do que já foi. Que irá confiar menos em si mesmo, em suas capacidades e conhecimentos, do que antes. Que aquele senso de que podemos administrar completamente a vida, tê-la sob controle, é uma ilusão. Que não podemos fugir às perdas, desilusões e falências mas que a profundidade e a maturidade vêm anexadas aos sofrimentos.
E assim ele volta... e ... finalmente ...aquela estrada se tornou um caminho. 19 February SOBRE O SOFRIMENTO HUMANOTales Messias Ferreira
Uma observação rápida nos jornais é suficiente para nos chocarmos diante de tanta violência e auto-destruição: uma garotinha de 11 anos morta na garagem do edifício de seus tios, espremida entre o carro e uma pilastra; o Estado preocupado com o uso das “buzinas” como droga, entre a juventude, no período do carnaval; bebê que leva um tiro dentro de um ônibus durante tentativa de assalto; violência aumentada no Quênia devido a guerra entre tribos que já levou a morte quase 1000 pessoas. O sofrimento humano nos encontra e nos deixa vulneráveis a todo instante. As perguntas que geralmente surgem em momentos assim são: Onde Deus está? Por que Deus não termina com esse sofrimento? Se Deus é bom por que tanta maldade causadora de tanto sofrimento? Se Deus é Todo-Poderoso por que não demonstra poder e vontade em acabar com todo esse sofrimento? Por que seu silêncio e aparente apatia diante de todo o sofrimento humano? Jesus, como afirmam alguns, não veio aqui apenas para ser um Profeta, ou uma “pessoa iluminada”. Além de nos trazer salvação, por sua morte e ressurreição, Jesus inaugurou um novo Reino, onde, neste, a vontade de Deus é realizada tanto quanto existe no céu. Um novo Reino, com novo estilo de reinado, com o fim de uma nova humanidade. Ou a restauração desta. Neste novo Reino, uma de suas marcas seria a solidariedade. Por esta, muito dos sofrimentos seriam sanados...ou minimizados. Quando Jesus tocou em leprosos, gente que ninguém poderia tocar na época, ele não queria apenas curar aqueles doentes, ele pretendia curar a humanidade de sua natureza excludente, preconceituosa e insensível. Queria nos ensinar sobre solidariedade. Quando Jesus envergonhou aqueles homens que queriam apedrejar a mulher pega em adultério, afirmando que só deveria atirar pedras quem não tivesse pecado, ele não queria apenas “livrar” a mulher das pedradas. Não só isso. Ele queria ensinar que em seu Reino, a humanidade deveria se despir de toda hipocrisia, inclusive religiosa, que lotam os templos e que pregam piedade e religiosidade mas que não consegue enxergar os pecados dos outros como dignos de serem ajudados e, ainda, que impede de nos vermos como iguais, como pessoas potencialmente capazes de sofrer os mesmos problemas e cometer torpezas tanto quanto o outro. Sem distinção de gênero, de cor e muito menos de função, pois muitos de nossos títulos apenas nos servem de esconderijo para nossos desvios morais travestidos de piedade. Se aprendêssemos com Jesus, nos importaríamos menos com nossas estruturas materiais eclesiásticas e mais com nosso próximo - e este pode ser encontrado em qualquer estrada diária (tal qual o samaritano da Bíblia); enxergaríamos os olhos marejados por tanto sofrimento; perceberíamos, no trabalho, aqueles que lutam internamente – e silentemente – com tantos problemas e que necessitam de um amigo com quem dividam as cargas; leríamos os jornais e as más notícias como sendo co-responsáveis para buscarmos mudanças e transformações sociais, mesmo que em nível micro: em nossos ambientes de trabalho, em nossa casa, em nossa rua; olharíamos para os pobres como Jesus os enxergou - “sempre que deste um alimento, um copo de água a um destes pequeninos, a mim me deste...sempre que os cobriste...a mim me cobriste...”. Solidariedade. Amor ao próximo. Os valores de um Reino. Não de uma religião. Não de um movimento. Não de uma instituição. Valores de um novo Reino, que busca simplesmente tornar homens, em homens semelhantes a Jesus. Que foi homem. Que viveu entre nós. Que nos ensinou a ser homens. Uma nova humanidade. Como a que Ele criou. Um retorno. Diante do sofrimento Deus nunca esteve apático, ausente. Nos enviou Jesus para nos ensinar uma nova consciência de como deveríamos viver. Solidariedade.
12 February Quem é meu próximo?Rubem Alves
E perguntaram a Jesus: "Quem é o meu próximo?" E ele lhes contou a seguinte parábola: Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garçom que trabalhara até tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garçom é muito dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia, à espera de uma vítima. Vendo o homem assim tão indefeso saltaram sobre ele com armas na mão e disseram: "Vá passando a carteira". O garçom não resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter tão pouco dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no chão. Às primeiras horas da manhã passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem caído, ele se compadeceu, parou o caro, foi até ele e o consolou com palavras religiosas: "Meu irmão, é assim mesmo. Esse mundo é um vale de lágrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu mais que você." Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvição de pecados: "Ego te absolvo..." Levantou-se então, voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religião. Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evangélico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunião de oração matutina. Vendo o homem caído, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi até ele e lhe perguntou, baixinho: "Você já tem Cristo no seu coração? Isso que lhe aconteceu foi enviado por Deus! Tudo o que acontece é pela vontade de Deus! Você não vai à igreja. Pois, por meio dessa provação, Deus o está chamando ao arrependimento. Sem Cristo no coração sua alma irá para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas serão resolvidos!" O homem gemeu mais uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitação do Cristo no coração. Disse, então, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido salvar mais uma alma. Uma hora depois passava por aquela rua um líder espírita que, vendo o homem caído, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu não aconteceu por acidente. Nada acontece por acidente. A vida humana é regida pela lei do karma: as dívidas que se contraem numa encarnação têm de ser pagas na outra. Você está pagando por algo que você fez numa encarnação passada. Pode ser, mesmo, que você tenha feito a alguém aquilo que os ladrões lhe fizeram. Mas agora sua dívida está paga. Seja, portanto, agradecido aos ladrões: eles lhe fizeram um bem. Seu espírito está agora livre dessa dívida e você poderá continuar a evoluir." Colocou suas mãos na cabeça do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justiça da lei do karma. O sol já ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braços, boca pintada de batom. Vendo o homem caído, parou sua motocicleta, foi até ele e sem dizer uma única palavra tomou-o nos seus braços, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o aos cuidados médicos. E enquanto os médicos e enfermeiras estavam distraídos, tirou do seu próprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem ferido. Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Alguns já o olhavam com ódio. Jesus, porém, os olhou com profundo amor e lhes perguntou: "Quem foi o próximo do homem ferido?" |
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