Tales 的个人资料Tales Messias照片日志列表更多 ![]() | 帮助 |
|
|
11月10日 Valores relacionais da igreja estão errados!"Valores relacionais da igreja estão errados! A categoria que está errada é a categoria de sucesso na igreja e no ministério. No ministério cristão não existe essa categoria de sucesso. Existe, sim, a categoria de fidelidade. Existe, sim, a categoria de vida em aliança. E certamente a certeza de que o amor é a natureza de Deus.
Temos que parar de pensar em ministério com ou sem sucesso e sim em um ministério fiel a Deus. Está ligado a vida em compromisso e não ligado a números e performance. Isso acontece quando aplicamos os valores dos negócios à igreja. Os lideres se tornam os responsáveis em levantar fundos para a igreja e ministério.
O problema do ministério hoje é que eles estão tão frenéticos que não há tempo para ser aprofundado. Quando começo a falar para uma platéia grande começo a ficar surreal. Impessoal. Por isso essa é a tragédia do expansionismo global do ministério cristão: tem kilômetros de expansão mas meio centímetro de profundidade. Então, quanto mais institucional nos tornamos, mais nos tornamos isolados dos nossos verdadeiros sentimentos, vamos nos tornando impessoais, surreais, fora da realidade humana. Com isso, quanto maiores os nossos ministérios, mais secularistas se tornam e, por isso, incríveis no sentido de perda de credibilidade."
Palavras do Dr. James Houston, em 2008. 9月20日 NECESSIDADE DE RELEMBRAR O QUE É BÁSICOTales Messias
Neste final de semana, assistindo ao programa Fantástico, me impressionou a entrevista do ator Fábio Assumpção. Um jovem ator, já consagrado, galã de novelas, cara de bom moço, bem sucedido financeiramente, aparentemente feliz. Repentinamente ele foi afastado das novelas, divulgando-se sua dependência com drogas. Só agora, quase um ano depois, ele “coloca o rosto na rua” e comenta seu drama pessoal e sua luta para se recuperar da dependência.
Me impressionou aquela entrevista, primeiramente, pela aparente mudança em seu aspecto físico. Mais abatido. Mais envelhecido. Mas, por outro lado, mais humano. Menos ator. Mais gente. Menos estrela global. Mais parecido com todo mundo. Assumindo fragilidades (quando perguntado se achava que poderia ter recaídas no consumo de drogas ele respondeu que não sabia, não poderia prever). Assumindo solidão (quando perguntado sobre o apoio dos amigos afirmou que ninguém ficou ao seu lado a não ser os pais). Visivelmente mais maduro, mais consciente de seus limites, até mais ponderado em suas palavras.
Impressionante a força que subsiste por trás dos sofrimentos. Capaz de nos transformar em quem nunca sonhávamos. Capaz de nos moldar tal como o fogo ao ferro. Pela dor. Com choro. Com a quase insuportável companhia da solidão.
Após esses momentos, relembramos do que é básico. Volta à memória o que nos foi ensinado primeiro. Parece que finalmente ouvimos o sussurro do que nos diziam nossos avós e pais. Como uma ruminação de memórias, quase podemos ouvir a voz suave daqueles, nos afirmando dia a dia sobre o amor deles quando nos diziam que estariam sempre ao nosso lado. Na época, era só uma voz aos nossos ouvidos jovens e impacientes. Hoje, com os ouvidos envelhecidos e combinados ao coração, enxergamos ser verdade o que diziam. E não só isso mas tudo o que era de mais básico voltam a nós como se fossem “novidades”. Sendo, no entanto, vozes conhecidas. Mas, esquecidas.
- Nos esquecemos que cuidar dos que estão perto de nós é mais importante do que buscar o sucesso profissional.
- Nos esquecemos de que nossa casa precisa ter prioridade sobre nosso escritório.
- Nos esquecemos de que nossa mesa de jantar traz mais saúde do que nossa mesa de trabalho.
-Nos esquecemos de que as vozes de nossos pais – que não ouvíamos por vezes – serão as mesmas repetidas aos nossos filhos.
- Nos esquecemos de que a gentileza, a educação, o “bom dia” deve-se dirigir a todos sem distinção de classe.
- Nos esquecemos de quando nossos pais diziam “como se diz, meu filho? Diga ‘obrigado’ a ele”. Nos ensinando a agradecer pequenas gentilezas dos outros.
- Nos esquecemos de que a maioria absoluta de nossas amizades cessam diante das nossas crises ou mesmo ausência pois eram pautadas nas relações de trabalho ou em qualquer outra atividade e não num verdadeiro sentimento de afeto.
- Nos esquecemos que os cabelos brancos não são só sinônimos de velhice mas de experiência, de maturidade, de beleza interior, de conselhos pautados em experiências.
- Nos esquecemos que a beleza física atual que superestimamos durará apenas mais alguns anos. Em seu lugar, ficará a sutil beleza da impressão dos anos.
-Nos esquecemos que felicidade não é um patamar, um estágio onde se chega. Mas, um “meio de caminhar”, a forma em que se vai e não um local onde se chega.
- Nos esquecemos que o que nos forma e nos molda não é o que ganhamos pelo caminho mas o que se conseguiu ser nesse caminho. É no que nos tornamos e não aquilo que alcançamos.
- Nos esquecemos que diplomas ornamentam nossos escritórios, impressionam os outros, mas não nos fazem ser melhores amigos, melhores pais e maridos, melhores amantes, melhores filhos.
- Nos esquecemos que nossas maiores crenças são revistas ao longo de nossa vida e que por isso deveríamos ser mais tolerantes e pacientes com a opinião dos outros.
- Nos esquecemos de que um beijo sincero vale mais e enche mais a alma que qualquer quantia em dinheiro.
- Nos esquecemos que, quando crianças, por vezes valorizávamos mais alguns simples brinquedos em detrimento de outros tão caros. E que isso deveria nos ensinar a valorizar pequenos gestos, pequenos presentes (um cartão, um chocolate pequeno mas exatamente do tipo de que você gosta), pequenas lembranças ao invés de valorizarmos apenas grandes fatos e presentes caros.
Por fim, deveríamos aprender com a água que não se detém diante dos obstáculos. Apenas os contorna. Mas, nos esquecemos disto e gastamos tanta energia e tempo em questões que simplesmente poderiam ter sido contornadas.
É um chamado à memória. Um lembrete para a alma. Para que lá de dentro as vozes que um dia já ouvimos voltem a soar. Que as coisas básicas voltem a ser praticadas. E cridas. E valorizadas. E repassadas a outros.
8月2日 QUANDO O VIVER SE TORNA MAIS IMPORTANTETales Messias
Há um momento na vida (no meu caso isso só chegou após os 32 anos) onde descortina-se para nós novos modos de enxergarmos a vida. Atividades que antes valorizávamos, perdem completamente a beleza. Pessoas antes cultuadas deixam de exercer influência. Livros e autores antes admirados passam a ser questionados. Temas que nos arrebatavam por horas, que nos levavam a debates calorosos, são completamente desinteressantes. Preletores que nos levavam ao êxtase são igualados a quase todos os demais. A atração da multidão se torna em repúdio. O sem-número de amigos não resiste ao filtro do tempo. Por fim, os poucos amigos gotejados cabem nos dedos das mãos. Mas, são capazes de encher mais o coração. Aquela nossa forte tendência em precisarmos depender de conselhos dos outros torna-se numa independência madura que valoriza os conselhos mas ponderando-os com sua própria consciência e espírito. As intituições – antes tão sólidas e transmissoras de piedade humana – por fim mostram-se frágeis e por isso mesmo tão dependentes de líderes que a exaltem a fim de que seja preservada.
Diante de todas essas desconstruções, o que fica em seu lugar? Em seu lugar, vem o deslumbrar-se com a vida. Agora mesmo, enquanto escrevo, minha filha (com 04 anos), gratuitamente chegou perto de mim, colocou sua cabecinha em meu braço para enxergar o que eu fazia no computador, me beijou espontaneamente e foi embora. Que atividade poderia me arrebatar mais que isso?
Aprendemos a olhar para a vida como um descobridor-observador, ávido por ser surpreendido por algo novo, mesmo sendo os mesmos cenários de sempre. Que sedução pode haver mais no aplauso de uma multidão? Em seu lugar a beleza de se estar com poucos é sobreposta. A experiência de poder enxergar poucos de forma mais profunda, de tomar um café podendo deliciar-se do aroma e sabor ao mesmo tempo em que descobre-se quem o outro é torna-se incomparavelmente mais sedutor do que a sedução de estar sendo visto por uma multidão. A delícia de podermos ser quem somos sem que se precise representar um personagem diante de uma multidão sedenta por ícones.
Descobrimos que as emoções existem quando estamos sozinhos também. Enquanto somos visitados em nosso espírito lendo um livro de extrema sensibilidade. Enquanto somos abençoados com um e-mail amigo, com uma mensagem (até no power point) de uma amiga, quando somos surpreendidos com um beijo ou um olhar apaixonado (mesmo de um filho). Quando nos sentimos extremamente-divinamente-completamente-absurdamente amados por Deus, sem que precisemos fazer coisa alguma para Ele. Sim! Pois quem ama não ama por termos feito algo. O Amor não tem preço. É gratuitamente caro. É espantosamente espontâneo. Não faço hoje, por isso, mais nada para Deus. Mais nada! Nada! Vivo com Ele agora. Simples assim. Vivo tendo a sólida noção de que Ele não tem casa de pedras, por isso não mora em templo de igreja algum. Nenhum! Ele mora em nós. Como diz o Mário Quintana, “Amor é quando um mora no outro”. Por isso, minha relação de amor com Deus hoje é uma moradia nEle e Ele parcialmente em mim pois Ele inteiro não caberia de jeito algum em mim.
Um dia essa forma de ver vida chega. E olhamos para as pessoas, para a natureza, para a criança, para a TV, para o sorriso, para os olhares, pelas ruas, pelas janelas e percebemos que coisas antes despeercebidas ganham valor incomparável e que coisas antes supervalorizadas já não “saltam à vista”. Para mim essa nova forma de ver a vida chegou após meus 32 anos. Após imensas falências pessoais. Após imensas crises pessoais. E, também, após êxitos em outras áreas de minha vida. Tudo então refaz-se de forma diferente. Para algumas pessoas essa visão nova da vida chega em outra idade. Infelizmente para alguns parece que nunca chega.
Como enxergo os que ainda não parecem ter vivido essa reviravolta? Com amor. Não tenho mais a impulsividade e violência próprias da juventude. Minhas convicções estão mais firmes do que nunca! Mas não preciso que ninguém acredite mais em mim. Não preciso mais que ninguém me siga. Não preciso que ninguém concorde com o que penso. São minhas essas convicções. Por isso, enxergo os que não vêem assim com amor e, lá dentro, uma pontinha de pena, de compaixão, de vontade de vê-los vivendo e enxergando coisas ainda não vistas, mas tão belas. Mas, não sou responsável em abrir os olhos das pessoas. Desisti da ambição de ser Deus. Desisti. Preferi ser filho dEle.
Preferi viver. 5月26日 Síndrome de Melissa CadoreTales Messias (Maio 2009)
‘Melissa quer se blindar dos aborrecimentos e não fala dos problemas com as pessoas. Cultiva a aparência e a vaidade’, descreve a atriz Cristina Torloni à Folha. Melissa é a personagem de Cristiane Torloni na novela Caminho da Índia. Ela é uma eterna fugitiva da realidade. Cultiva a vaidade não por amor a si mesma. Mas, semelhante ao avestruz, que diante de algum perigo real não corre mas, ao invés disso, enterra sua cabeça num buraco, assim Melissa reage diante dos problemas que enfrenta diariamente: esquizofrenia de um filho, infelicidade no casamento, ociosidade. Todo o tempo refugia-se nos cosméticos, na ginástica, na contemplação de si mesma, na preocupação exagerada de sua pele, cabelos e corpo. Melissa nada mais é do que um protótipo do que vemos todo dia junto de nós. Ou em nós mesmos. Isso porque somos tentados a fugir da realidade ao invés de enfrentar os problemas que se apresentam. Somos inclinados a nos ocuparmos ao invés de encararmos tudo aquilo que nos perturba e nos tira a paz. Preferimos a fuga ao enfrentamento. Preterimos o diálogo às atividades. Vejo isso todos os dias. Próximo a mim e até em mim mesmo. Usar maquiagem é mais fácil do que enxergar nossos defeitos e mostrá-los aos outros. Buscar fuga traz mais prazer do que o desgaste de encontrar soluções. E tudo serve como fuga. Tudo. Não falo das fugas óbvias: drogas, bebidas, alucinógenos. Esses são declaradamente utilizados para “esquecermos de nossos problemas”. Falo de nossos sutis “passatempos” que nos servem ocultamente como alucinógenos. Coisas que por vezes sequer temos consciência de tal efeito em nós. Falo de ocultarmos nossa realidade através de obsessões por diversas coisas fúteis (futebol, jogos, trabalho – que é fútil diante de outros valores - roupas, compras, televisão, novidades tecnológicas), ou nos furtamos da realidade com programações (religiosas, acadêmicas ou outra) que em si mesmas não trazem mal algum, mas que, pela motivação da fuga, acaba por nos alienar e potencializa ainda mais as nossas doenças da alma. Falo de por que precisarmos trabalhar além do que se exige, da razão de comprarmos além de nossas necessidades, de gastarmos além do que podemos, de precisarmos comprar não exatamente o que gostamos mas o que os outros gostam de ver, de preferirmos mais o shopping do que nossa casa, de precisarmos rir quando necessitávamos de alguém para chorar (ou o oposto quando queremos usar o choro na busca de atenção das pessoas). Por que precisamos nos esconder daquilo que somos? Ou de como estamos? Por que a necessidade de não se assumir nosso estado? Talvez por medo de como seremos julgados. Talvez por termos sofrido muito quando em alguns momentos tivemos coragem de mostrar o que somos. Talvez porque as expectativas dos outros sobre nós nos pressionam a vivermos mascarados. Talvez porque desejamos ser o que o outro é e vivemos nessa eterna insatisfação por nos enxergarmos diferente do outro. Talvez porque temos a ilusão de precisarmos ser diferentes para Deus para que Ele nos ame. Talvez porque precisamos ser amados e achamos que se formos vistos como de fato somos, seremos então rejeitados. Talvez porque o grupo social onde estamos inseridos faça coerção sobre nós a fim de nos amoldarmos ao que este acha que seja uma “normalidade”. Por fim, nessa ansiedade de mostrarmos quem não somos acabamos nos perdendo de nós mesmos. Além de nos perdermos da realidade. Tal qual Melissa. Que nada mais é que um protótipo do que vemos no dia a dia bem perto de nós. Muitas vezes dentro de nós.
4月28日 A dificuldade de se entender e viver na Graça de DeusTales Messias
Me intriga a forma como estamos presos e escravizados à forma de vida legalista. É tão sutil e ao mesmo tempo tão forte nossa prisão que não nos percebemos aprisionados. Tal como relatou o Rubem Alves, somos como pássaros que, por termos vivido tanto tempo engaiolados, não adianta vermos as portas abertas. Nós teimamos em nos sentir mais seguros dentro da gaiola do que o risco de voarmos livres. Nós tememos a liberdade. Nos mantemos na gaiola mesmo sabendo que as portas estão abertas. Nós continuamos presos emocionalmente. Nos surpreendemos o quanto estamos acostumados com a falta de liberdade que essa prisão nos atrai. Ela transmite segurança, abrigo, proteção, senso de organização.
Vejo isso o tempo todo. Até em mim. São sinais que, se não nos avaliarmos, serão imperceptíveis. Quer exemplos?
- Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, entregávamos o dízimo devido a toda a pressão psicológica a que éramos submetidos. Seríamos chamados de ladrão caso não entregássemos os dízimos. Seríamos tidos como infiéis. Como usurpadores, sempre baseados no livro do profeta Malaquias. Hoje, após nos libertarmos dessa visão judaica e, por isso, legalista, indo para o ensino cristão dos dízimos e ofertas, onde ofertamos “segundo determina o nosso coração” e não tendo valor fixo, porcentagem fixa de tudo quanto ganhamos. Hoje, entendendo que não há uma parte “do Senhor” em nossa receita mas cônscios de que tudo é dEle, o impacto disso em nossa vida deveria ser o transbordamento da generosidade (tal como houve com os coríntios). Mas, não é. O impacto disso, é o encolhimento das ofertas. De modo geral, doamos menos que os 10% que doávamos quando sob o regime da lei. Isso é incoerente. Nosso coração deveria sentir-se livre e, por isso, gratos e generosos. Mas, nos encolhemos. Nos enxergamos mais egoístas. Menos doadores. Menos parecidos com a velhinha da parábola, que doou tudo quanto tinha. Menos parecidos com Zaqueu após o encontro com Jesus que devolveu tudo o que havia roubado do povo, quatro vezes mais. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça, nos tornamos mais avarentos. Foi realmente a mensagem da Graça que escutamos?
- Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, estávamos presentes semanalmente nos templos (às vezes, diversos dias por semana). Por causa dessa nossa atitude, éramos chamados de “cristãos comprometidos”. Mesmo que essa nossa freqüência sacrificasse nosso tempo em família, nossos estudos, nossa missão de atuar no mundo e não nos templos, etc. Ao contrário disso, éramos tidos como pessoas descomprometidas se não estivéssemos tão presentes nos templos. Hoje, após nos libertarmos dessa visão judaica que centralizava a vida da igreja nos templos o correto seria nos vermos com prazer e disponibilidade para desfrutarmos de momentos nas casas, nos restaurantes, nas praias e em todos os possíveis lugares onde os cristãos pudessem se encontrar para desfrutar de comunhão e, ao mesmo tempo, de atuar em missão. Mas, tristemente, o que vemos é a restrição cada vez maior para estarmos juntos.O que vemos é a eleição de nossos projetos particulares como prioridades quase únicas em nossas vidas. A coletividade perde importância. Torna-se “programa” para quando não estivermos ocupados com nossas tarefas domésticas, com nossos cursos pessoais, com nossos passeios individuais. Se não houver shopping, feira, aula de inglês, carro a ser levado à oficina, trabalhos da faculdade, cansaço ou qualquer outro programa pessoal. Com isso, o senso de igreja, de Corpo, de vida em comunidade vai perdendo-se. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça, nos tornamos mais individualistas. Foi a mensagem da Graça que realmente escutamos?
- Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, havia um policiamento constante quanto a nossas atitudes em busca de uma perfeição moral. Vivíamos neuroticamente preocupados em não errarmos, em não pecarmos. Achávamos que haveria condições de sermos pessoas moralmente quase perfeitas. E, para isso, elegíamos quais eram os pecados mais graves. Fugíamos de cair nesses (ou escondíamos eles para que ninguém soubesse) e, caíamos apenas naqueles que elegíamos como pecados “leves”, banais. Assim, nos sentíamos melhores, superiores àquelas pessoas que haviam caído nos pecados “graves”. E, dessa forma, nos sentíamos dignos de atuar em algum ministério da igreja. Não precisaríamos passar por “disciplina”. Estávamos mais limpos que os demais. Hoje, após entendermos que a santificação é operada por obra do Espírito em nossas vidas e não por esforço próprio. Que a nós cabe apenas o querer ser moldado dia a dia e buscarmos a voz de Deus por uma vida de oração (entendendo oração como relacionamento, comunicação constante com Deus e não preces e rezas lançadas ao céu) e busca de entendimento da revelação de Deus em sua Palavra. Hoje, entendendo isso, mesmo assim nos flagramos, lá no íntimo, com atitudes críticas e de julgamento perante a pessoas que erram. Críticos e com julgamento diante de notícias de pessoas que caíram em determinado pecado. Pior do que isso... após nos libertarmos da pressão das leis para o aperfeiçoamento pessoal entendendo que isso se deve a uma ação do Espírito, nos enxergamos com uma frouxidão moral beirando a libertinagem. Deixamos de perceber que Deus, de fato, deseja que tenhamos um comportamento que se coadune com sua mensagem de sermos uma nova humanidade. Apenas passamos a entender que o caminho que nos leva a isso não é através de regras e determinações mas pela ação do Espírito e que não há ninguém que possa estar moralmente acima dos outros pois todos são igualmente pequenos e injustos diante de Deus. Apenas isso. Mas o alvo deveria ser mantido: buscarmos uma vida que se assemelhe a de Jesus. Por qual via? Pela ação de seu Espírito em nós. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça nos tornamos mais “frouxos” moralmente. Foi a mensagem da Graça transformadora que escutamos?
Eu poderia citar tantos outros exemplos... onde está nossa atuação social pelos mais fracos e excluídos após termos entendido a mensagem da Graça que nos ensina que o Homem deveria ser salvo em todas as suas dimensões incluindo a dimensão física? Que a salvação – como projeto de restauração da criação – inclui restauração de tudo aquilo que o pecado destruiu como a natureza e nossa humanidade. Que deveríamos ser atuantes na busca da justiça social, na denúncia dos males sociais (tal como os profetas), na preservação da natureza, na conversão de pessoas bem como na defesa dos valores do Reino na sociedade. O que estamos fazendo após termos entendido isso?
Meu sentimento é de que ou não entendemos a mensagem da Graça de Deus e do evangelho de Deus tal como ele. Plenamente. Ou, pior que isso, entendemos mas isso não causou impacto profundo em nossas vidas. Houve apenas entendimento intelectual. Não houve encarnação dessas verdades. Não falo como um pregador. Falo como confissão. Incluo minha vida a tudo isso. Por isso, falo como uma oração. Que Deus nos leve a um outro patamar. De entendimento à prática. Como dizem os pragmáticos, “transformando nossa visão em ação”. Que seja assim. Senão de nada adiantou entendermos sobre o evangelho. Se é que o entendemos de fato...pois este é “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”.
3月28日 Abraçando para o arrependimentoTales Messias Ferreira
Há textos que nos saltam aos olhos de tempos em tempos. Assim tem sido para mim a parábola do filho pródigo relatada no livro do médico Lucas (cap 15). Principalmente quando ele relata o encontro do Pai com o filho mais novo. Aquele filho que tinha pedido sua parte na herança e tinha gasto tudo com prostitutas e festas. Aquele que tinha dado as costas à família indo morar o mais longe possível do Pai. Aquele que perdeu parte da herança ganha as custas do trabalho do Pai. Aquele tido como o mais irresponsável da casa. E o texto nos diz que esse filho decide voltar para casa, humilhado, com fome, desejando receber o tratamento que os empregados de seu pai tinham. A motivação de seu retorno: fome. Teve fome e lembrou que na casa de seu pai ninguém passava fome, nem mesmo os empregados de seu pai. Decide voltar e pedir que seja tratado como um empregado e não mais como filho. Pois tinha gasto a parte que lhe cabia na herança como filho. Ele não parece estar arrependido. Ele não parece ter voltado por ter tido a consciência de seus erros e falhas. Ele não parece decidido a voltar porque avaliou suas atitudes e enxergou-se errado nelas. Não! Ele teve fome! Passou a comer comida de animais (e não qualquer animal mas sim porcos. Que era um animal tido como impuro para os judeus). E diante da extrema necessidade e fome, decide voltar.
O retorno é marcado por emoção: o pai o vê de longe e, cheio de compaixão, corre ao encontro do filho. Para a época, um ancião correr em direção ao filho era sinônimo de humilhação. Era algo inaceitável. O Pai da história faz isso. Sequer ouve o filho pedir que o trate como empregado. Pede que traga para o Filho uma capa, um anel e uma sandália a fim de que se sinta filho novamente (o anel sinalizava isso), distinto dos demais (apenas empregados andavam descalços) e acolhido.
Sabe o que acho interessante por demais nessa história? O Pai não esperou o filho à porta. O Pai não fez questionamentos a ele. Não esperou ele primeiro explicar-se dos seus erros. Não precisou primeiro demonstrar arrependimento de seus pecados, erros e ingratidões. Não foi necessário submetê-lo a humilhação. Não foi necessário puni-lo.
O Pai não quis abraçar o filho arrependido. O Pai não quis abraçar o filho caso ele demonstrasse arrependimento. Ele abraçou o filho PARA o arrependimento. O abraço era sinal de perdão antecipado. O abraço não era resposta ao arrependimento mas sim catalizador para que isso acontecesse. O abraço era movido por um amor não diminuído diante dos erros. Abraço para arrependimento e não abraço caso haja arrependimento.
Nos nossos piores momentos precisamos de um abraço para o arrependimento. Pois o amor nos constrange a isso. O Pai da história representa Deus. Meu maior desafio é entender que cada vez que Jesus agia enquanto por aqui andou ele me ensinava como o ser humano deve ser. Cada história, como essa, que Jesus contava ele estava gritando para nós de que o ser humano devia ser e viver de uma forma diferente do que temos vivido. Por isso, enquanto leio, ouço Jesus sussurrando em meus ouvidos e dizendo: “seja assim, Tales...abrace. Mesmo quem não se arrependeu. Mesmo quem não demonstra consciência de pecado. Com seu abraço, talvez ele faça isso. Simplesmente ame. Assim, talvez, ele caia em si... e volte. E lembre-se: eu ensinei a você como fazer isso pois fiz e faço isso com você. Todos o dias”.
3月21日 A HUMILHAÇÃO VEM DE DEUS ?Tales Messias
Certa vez ouvi um preletor a quem muito estimo afirmar que “toda humilhação vem de Deus”. De imediato aquela frase me causou estranheza. E discordei dela. Pensei comigo nas diversas injustiças vistas diariamente por causa de tantas desigualdades sociais. Lembrei-me dos pobres, daqueles que enfrentam horas a fim de serem atendidos nos hospitais públicos. Daqueles que não possuem condições de pagar um advogado diante de injustiças sofridas. E tantas humilhações que os excluídos são obrigados a enfrentar e que não parecem, de forma alguma, coadunar-se com a vontade e desejo de Deus. Deus nunca nos ensinou a tratarmos os outros de forma diferente. Deus nunca nos mandou “criar” um mundo e um sistema com tamanhas desigualdades e injustiças. Deus nunca nos ensinou isso... isso é coisa nossa. Fruto do homem. Conseqüência de nós mesmos. Contra nós mesmos.
Mas, por outro lado... anos depois...aquela frase ainda soa em meus ouvidos...será que a humilhação vem de Deus? Não seria mais correto afirmar-se que Deus, por ser onipotente, utiliza toda forma de humilhação para nos ensinar a sermos gente? Será que não seria mais fácil afirmarmos que Deus, sendo como é preocupado na formação de uma humanidade mais parecida com aquela que ele idealizou, quer nos ensinar que é possível e digno vivermos aprendendo a humildade e amor?
Pois não é possível negar o quão pedagógico é passarmos algumas humilhações, sofrimentos, angústias e momentos de choro. Não há nada que nos ensine mais na vida do que momentos assim. Não há melhor professor do que momentos onde as lágrimas se tornam nossa bebida (como diz o salmista). São nesses momentos que somos transformados. Que somos confrontados com nossa pequenez e limitações. Que somos confrontados com nossas inadequações e incoerências. Que nos enxergamos iguais aos outros. Que nossas máscaras e escudos caem e nos sentimos indefesos e desnudos. Onde precisamos mostrar quem de fato somos. São nas humilhações que aprendemos a chorar. A pedir ajuda. A não sermos tão independentes de Deus e dos outros. São nas humilhações que nossa imagem externa é esquecida, posta de lado, importando apenas aquilo que sabemos que somos. Não mais aquilo que demonstramos ser.
Olhando-se a partir dessa ótica, chego a quase concordar com aquele preletor. Não acho que “Toda humilhação vem de Deus” mas sim que “Deus está presente em todas as humilhações”. Usando-a para nos tornar pessoas melhores. Usando-a para nos ensinar a perdoar. Sim! Porque após sofrermos humilhação e desonra nos vemos iguais aos outros. Nos enxergamos como potencialmente capazes de fazer e sofrer o que todos fazem e sofrem. Dessa forma, como iguais, nos tornamos mais humildes para entender o outro. E distribuir perdão e compreensão. 3月10日 Saudades de um amigo silente e do silente amigoTales Messias Março 2009
De um lado, temos hoje imensa dificuldade de encontrar aquele amigo que nos conhece pelo olhar. Apenas por ele. Sem precisar dizer absolutamente nada. Sem sentir-se constrangido a emitir opinião. Sem sentir-se obrigado a ser conselheiro. Sem que precise ter última palavra para sentir-se útil. Apenas o olhar. E bons ouvidos.
Saudades daqueles amigos que, diante de uma crise, sabem apenas estar junto. Recostar a cabeça no ombro. E ir embora. Sabedor que palavras não consolam. A presença, sim. Palavras instruem. Dão conhecimento. Enchem o intelecto. Algumas até a alma. Mas, só. Um abraço, um sorriso, uma lágrima, um carinho, um olhar piedoso são, sim, capazes de trazer conforto.
Saudades de um amigo silente...
Por outro lado, tenho saudades do silente amigo, daquele tempo solitário – em silêncio – a fim de que nossa alma finalmente seja vista. Aquele tempo em que nos despimos para nós mesmos, onde roupa alguma é capaz de embelezar ou esconder algo. Onde as máscaras não são necessárias. Onde a alma e todas as sujeiras são expostas. Onde o espelho interior nos faz ver quem de fato somos mas, pela corrida diária, nos escondemos.
Tempos onde não precisamos encenar, transparecer quem não somos, tentar convencer pelo semblante o que nossa alma sabe ser mentira, tempos de decepção necessária por vermos quem de fato somos e por nos percebermos imensamente diferentes de quem gostaríamos de ser. Tempos pedagógicos. De silêncio. Para nos ouvirmos.
Saudades do silente amigo...
Desejo ter os dois silêncios de volta à minha vida, mais freqüentemente. 3月8日 Nota Pública sobre as declarações do presidente do STF, Gilmar Mendes
Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional Assessoria de Comunicação NOTA PÚBLICA “Ai dos que coam mosquitos e engolem camelos” (MT 23,24)
Nota Pública sobre as declarações do presidente do STF, Gilmar Mendes
A Coordenação Nacional da CPT diante das manifestações do presidente do STF, Gilmar Mendes, vem a público se manifestar.
No dia 25 de fevereiro, à raiz da morte de quatro seguranças armados de fazendas no Pernambuco e de ocupações de terras no Pontal do Paranapanema, o ministro acusou os movimentos de praticarem ações ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito por repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica ações ilegais. Cobrou do Ministério Público investigação sobre tais repasses. No dia 4 de março, voltou à carga discordando do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para quem o repasse de dinheiro público a entidades que “invadem” propriedades públicas ou privadas, como o MST, não deve ser classificado automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente, de recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade a ações sobre conflitos fundiários. Esta medida de dar prioridade aos conflitos agrários era mais do que necessária. Quem sabe com ela aconteça o julgamento das apelações dos responsáveis pelo massacre de Eldorado de Carajás, (PA), sucedido em 1996; tenha um desfecho o processo do massacre de Corumbiara, (RO), (1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do Ministério do Trabalho, em Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de sem terras, em Felisburgo (MG) 2004; o mesmo acontecendo com o arrastado julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang, em Anapu (PA) no ano de2005, e cuja federalização foi negada pelo STJ, em 2005. Quem sabe com esta medida possam ser analisados os mais de mil e quinhentos casos de assassinato de trabalhadores do campo. A CPT, com efeito, registrou de 1985 a 2007, 1.117 ocorrências de conflitos com a morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda dados parciais, são 23 os assassinatos). Destas 1.117 ocorrências, só 85 foram julgadas até hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e absolvidos 49 e condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra preso. Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram da prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram. Causa estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo tomada neste momento. A prioridade pedida pelo CNJ será para o conjunto dos conflitos fundiários ou para levantar as ações dos sem terra a fim de incriminá-los? Pelo que se pode deduzir da fala do presidente do STF, “faltam só dois anos para o fim do governo Lula”... e não se pode esperar, “pois estamos falando de mortes” nos parece ser a segunda alternativa, pois conflitos fundiários, seguidos de mortes, são constantes. Alguém já viu, por acaso, este presidente do Supremo se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores do campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar medidas contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra escrava?
Ao contrário, o ministro vem se mostrando insistentemente zeloso em cobrar do governo as migalhas repassadas aos movimentos que hoje abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos dos seus assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda de diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações de educação, de assistência técnica, e em ações comunitárias. O ministro não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de vultosos recursos ao agronegócio e às suas entidades de classe.
Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê na organização dos trabalhadores sem terra, sobretudo no MST, uma ameaça constante aos direitos constitucionais.
O ministro Gilmar Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado está. Como grande proprietário de terra no Mato Grosso ele é um representante das elites brasileiras, ciosas dos seus privilégios. Para ele e para elas os que valem, são os que impulsionam o “progresso”, embora ao preço do desvio de recursos, da grilagem de terras, da destruição do meio-ambiente, e da exploração da mão de obra em condições análogas às de trabalho escravo. Gilmar Mendes escancara aos olhos da Nação a realidade do poder judiciário que, com raras exceções, vem colocando o direito à propriedade da terra como um direito absoluto e relativiza a sua função social. O poder judiciário, na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo para atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento ou omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi a veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande latifundiário no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias, inclusive de tentativa de corrupção.
O Evangelho é incisivo ao denunciar a hipocrisia reinante nas altas esferas do poder: “Ai de vocês, guias cegos, vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo” (MT 23,23-24).
Que o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre de juízes como Gilmar Mendes!
Goiânia, 6 de março de 2009
Dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges Presidente da Comissão Pastoral da Terra
Maiores informações: Assessoria de Comunicação - Secretaria Nacional da CPT 1月12日 DEUS QUER ESSA CRIANÇA VIVA.Tales Messias Ferreira Eram pouco mais de seis horas da manhã do dia 09 de fevereiro de 2005. Eu fui chamado no quarto por minha esposa. Ela, com rosto expressando dor, avisou-me que as contrações haviam chegado. Ligamos para a médica. Ela aconselhou que aguardasse até ao meio dia e só então ligasse novamente para, confirmando-se as contrações, proceder à cirurgia do parto.
Nós não obedecemos à médica. Às 08 horas da manhã já estávamos no hospital. Pensamos: “se vamos esperar, esperaremos já no hospital”. A pediatra de plantão fez o primeiro exame em minha esposa às 08 horas. A pedido nosso. Ela, após o exame, olhou espantada para nós dois e nos alertou: “Ligue imediatamente para sua médica. O parto precisa ser realizado rapidamente. Já há presença de muito mecônio (substância semelhante a fezes expelida pelo bebê quando diante de algum sofrimento. O que faz com que ele fique literalmente “mergulhado” nessa substância dentro da placenta absorvendo-o). A médica, então, contactou toda a equipe médica. Mas esta só chegou ao hospital ao meio dia pois, por ser quarta-feira de cinzas, muitos estavam viajando. Às 13 horas a cirurgia foi iniciada. Pude assisti-la por ter estudado odontologia (segundo a médica, apenas pessoas ligadas à área de saúde tinham permissão. Muitos pais atrapalhavam a cirurgia com desmaios e etc). Tudo corria muito calmo. Mais calmo do que eu imaginava. Rouse, tranqüila, encostava a cabeça em minha barriga. Eu apenas acariciava a cabeça dela e a tranquilizava. Toda a preparação foi feita. Os cortes já haviam sido feitos. A pediatra já estava a postos para receber a criança. A gestação havia sido perfeita. Sem nenhuma anormalidade. Tudo indicava que seria extremamente tranquilo. A não ser pela presença de mecônio....
Finalmente minha filhinha estava saindo. Sendo tirada pela cabeça. Metade do corpinho dela já estava de fora. Foi quando a médica, estupefata, olhou pra mim com olhos arregalados. Tensos. De imensa surpresa. O bebê estava todo “preto-azulado”, língua de fora , olhos arregalados e imóveis. Os bracinhos caíram ao lado do corpo, como mortos. A médica me olhou, como quem diz: “o que o pai vai fazer agora?”. Da forma em que eu estava entendí tudo: “Minha filha morreu”. Apenas gesticulei para a médica com as mãos como quem diz: “continue, pode continuar. Está tudo bem.”. A criança foi trazida para uma mesa ao meu lado. Um pouco acima da cabeça de Rouse para que ela não enxergasse, apenas eu. Ali, sem vida, ela foi limpa. Um tubo foi colocado nela a fim de retirar todo o mecônio de dentro dela. Uma substância marrom escuro começou a sair por esse tubo de forma constante, por minutos. E a minha criança continuava da mesma forma, imóvel e com aqueles olhos fixos, abertos, bonitos mas sem vida.
Rouse perguntou-me: “por que ela não chora?”. Apenas dizia a ela: “Ela está bem. Ela está bem. Relaxe, está acabando.”.
A sala e cirurgia, a esta altura, estava completamente em silêncio. Apenas se ouvia os sons metálicos dos instrumentos cirúrgicos sendo colocados na mesa. Ninguém ousava falar nada. A médica não me olhava. Olhos fixos na cirurgia. Tristes.
Repentinamente, para surpresa de todos, ouviu-se (e apenas ouviu-se devido ao silêncio da sala) um leve gemido. Muito baixo. A pediatra, que cuidada do bebê, de súbito deu um grito para a equipe pedindo um tubo mais largo. O tubo anterior foi tirado e um tubo grosso foi colocado. Eu via o pescoço de minha filha mexer, enquanto o tubo entrava nela. Aquele líquido jorrava agora num volume muito maior de dentro dela. Um aparelho respiratório foi colocado nela. Toda a equipe médica voltou-se para o bebê. Finalmente ela foi desentubada. E um choro – fino, ainda baixinho – encheu a sala cirúrgica. Ela foi colocada no peito de Rouse. Apenas por uns segundos pois a pediatra disse que ela precisava ser levada de imediato para a UTI.
Nesse momento o clima da sala era outro. Risadas. Conversas paralelas. Todos falavam. A médica, finalmente, olhou para mim de novo. Fitou meus olhos enquanto continuava a costurar Rouse. E disse: “Deus quer essa criança viva. Deus quer essa criança viva. Só pode ser isso”.
Após todo o processo concluído. Deborah na UTI. Rouse de volta ao quarto onde os familiares estavam. A médica veio conversar conosco e nos contou todo o processo que Deborah enfrentou (e que enfrentaria nos próximos 11 dias na UTI e nos próximos três meses em casa). Por fim ela nos disse que de cada 10 crianças que enfrenta o que ela enfrentou, apenas uma sobrevive ao parto e ao pós-parto.
Encurtando toda essa história pois teria muito ainda a escrever - todos os dias termos que enfrentar o sentimento de ir embora e nossa filha ficar na UTI com a médica nos alertando sobre a possibilidade de ela não reagir e morrer; os três meses em casa que ela enfrentou diversos sufocamentos devido ao tempo em que ficou entubada na UTI e diversos outros traumas – por fim tudo passou. Escrevo agora com minha Deborah, nesse exato momento, passando final de semana na casa dos avós, com quase 04 anos de idade. Perfeita. Linda.
Mas, uma frase ainda ressoa em minha mente: “Deus quer essa menina viva”. Converso com minha esposa sobre essa frase e somos unânimes em reconhecer que parte dessa frase hoje entendo. Que parte da razão de Deus querê-la viva eu já entendo. Eu e minha esposa enfrentamos uma crise conjugal terrível após um ano do nascimento de Deborah. E nos separamos. Após mais de um ano e meio separados, estamos novamente juntos. E muito bem juntos. E vemos claramente o quanto Deborah foi essencial em nos manter ligados. Ela salvou nossa família. Ela, sem saber, foi o elo que não deixou que uma família se esfacelasse.
Mas, ainda há mais. Somos unânimes também em concordar que ainda há mais por explicar a razão de Deus querer nossa Deborah viva. Tenho certeza que no futuro - talvez um futuro longínquo – eu vou olhar para trás e vou me lembrar do que aquela médica disse. Vou olhar para trás – vendo no que Deborah se tornou – e vou dizer, junto da minha esposa, “hoje estou entendendo porque Deus queria minha filha viva”. Não tenho a mínima idéia do que seja. Da razão de sua manutenção. Mas, sempre cri que todos nascem para algo dentro de um projeto maior de Deus. E Deborah está inserida nisto.
Minha oração e desejo: que eu nunca atrapalhe essa caminhada que é só dela. Que eu, por ser pai, não perca de vista que ela tem um caminho diverso do meu. Que eu, por ser pai, não queira realizar meus sonhos através da vida dela. Que eu, por ser pai, não queira dominá-la a ponto de interferir no processo natural da vida dela desde o nascimento. Que eu seja apenas pai. Para que o Pai a guie. Que eu seja amigo. Que eu seja disciplinador a fim de que ela se discipline. Mas, que eu não seja dono dela. Que eu entenda que ela tem um vôo próprio, apenas dela, para que eu entenda um dia a razão do porque de Deus querer minha Deborah viva.
12月31日 “...Enquanto eu andar distraído”Tales Messias “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais e até errado mais. Queria ter aceitado as pessoas como elas são. Cada um sabe alegria e a dor que traz no coração. Devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr. Devia ter me importado menos com problemas pequenos. Ter morrido de amor.” (Titãs) Às portas de um novo ano, época em que nos auto-avaliamos e projetamos o futuro, essa música me veio à mente. E pensei em como gostaria de viver segundo os valores que acredito! Pois creio que precisamos valorizar mais a mesa de jantar que a de negócios. Valorizar mais meus chinelos que os sapatos sociais. Mais meus livros que as planilhas financeiras; mais sentar no chão com minha filha do que sentar num escritório; mais sorrir com amigos do que por obrigação e “educação”; mais um abraço íntimo que um aperto de mão negociado; mais o sol que a paisagem pela janela do escritório; mais o que o olhar e o corpo do outro me comunicam que as palavras esmaltadas. Como fazer isso se a vida impõe um ritmo onde tudo é tiranicamente urgente? São planilhas, análises, agendas, gráficos a serem desenvolvidos, relatórios a serem escritos, projetos pendentes e sempre urgentes. Em casa, por tudo o que foi mencionado, temos poucos minutos para “engolir o café” e, à noite, encontramos apenas parte da família acordada ao retornarmos. Como viver da forma que acreditamos e valorizamos? É o meu desafio também! Acredito que tudo isso deve ser vivido sem esquecermos do que é prioritário. Diferindo o que é importante do que é apenas urgente. Assim sendo, tenho esperança de, nos poucos momentos de dedicação ao que é importante, fazê-los inesquecíveis. Podem ser pequenos, mais curtos, em relação ao todo. Mas, podem ser mais intensos. Mais vivos. Mais sinceros. Mais sensíveis. E esses pequenos momentos é que nos darão lucidez para viver o restante de nosso tempo – presos às urgências – mas sem perdermos os valores internos, as prioridades bem definidas, a ética pessoal do que é negociável e inegociável. É fazer com que os pequenos momentos suplantem os outros. Como exemplo, é fazer com que aquele momentinho – no final do dia – onde me deito após intenso trabalho e ouço minha filha debruçando em meu peito pedindo baixinho: “conta uma historinha pra mim, painho!” e, lá dentro, de imediato ouço minha voz cansada se opondo a isso, tentado a responder: “agora não minha filha, estou cansado”. Ao invés disso, conto para ela a mesmíssima história de ontem. De novo. Mas sendo recebida de forma nova. Com seus olhinhos atentos. História tão repetida que ela já a complementa, de tão decorada. Enfim, é fazer desses minutos os regentes de todo o restante do dia. É fazer que estes momentos, curtos, sejam capazes de trazer motivação, ética, amor, valores, espiritualidade, sensibilidade a tudo o que faço nas outras horas do dia. É assim que busco viver. Sabendo que, como dizem os titãs, algo vai nos proteger enquanto andarmos distraídos. Mas não é o acaso. É Deus. 12月7日 Seiscentos e sessenta e seisMario Quintana 11月30日 HIPOCRISIA E MATURIDADETales Messias Ferreira
Hipócrita é uma palavra grega que significava “aquele que representa”. Ou seja, utilizada para quem era ator. Para alguém que representava um papel irreal num palco. Hoje, com outro uso, refere-se àqueles que, no cotidiano, comportam-se de forma irreal, diferente do que são realmente. Àqueles que, de forma incoerente, externam aquilo que não são internamente. É quando há dissociação entre o interior e o exterior. Quando agimos coreograficamente. Quando reagimos em contrariedade ao coração. Já fiz muito isso. Muito! Já apertei a mão quando tive vontade de xingar. Já elogiei quando tive vontade de humilhar. Já me humilhei quando interiormente sentia orgulho. Já demonstrei piedade sem que o coração sentisse nenhuma ponta de compaixão. Já abracei com vontade de manter-me distante. Já sorri tendo a alma vazia e em prantos. Já me vesti bem sentindo-me desnudo. Já aparentei felicidade sentindo-me oco. Já fechei os olhos demonstrando emoção quando na verdade – em conversa comigo - desejava ir embora daquele lugar. Já beijei sem sentimento. Enfim, já ornamentei tantas vezes meus comportamentos com o fim de que, ao ser observado, transmitisse aquilo que eu gostaria de ter. Ciente, porém, da ausência daquelas virtudes em minha vida.
O tempo passa. A idade – junto com as tempestades da vida – vão transformando nossos valores. Gradualmente começamos a perceber que o palco vai perdendo valor para os bastidores. Nos notamos diferentes. Começamos a valorizar mais a copeira, a faxineira do que os artistas principais. Pois começamos a enxergar o quão patológico é viver-se sempre num palco. Preocupado e tenso com os aplausos. Ansioso quando estes não vêm. Felizes apenas quando se ouve o barulho das palmas. Pois começamos a enxergar a solidão do palco. Nele não há espaço para a informalidade pois tudo foi ensaiado. Nele não há estímulo a uma vida particular pois tudo é exposto. Nele não há liberdade para se errar, pois as vaias virão. Nele não há tempo de se olhar pra si mesmo, pra dentro. Para a alma. Pois tudo é feito com a preocupação de agradar o público.
Quanta gente vive assim. Neurótica. Com a mesma eterna preocupação interior: “o que vão pensar e falar de mim”. É o peso sufocante da opinião alheia.
A libertação vem quando descobrimos quem somos. Quando nos percebemos como pessoas inacabadas e por isso mesmo em constantes mudanças. Quando percebemos que nem Deus nos cobra que sejamos moralmente perfeitos de forma imediata. Ao contrário, Ele nos ensina que isso será feito ao longo da vida...dia a dia. Tal qual um nascer do sol, na aurora do dia. Vagarosamente vai crescendo, um pouquinho de cada vez. Até ser dia completamente. Quando entendemos isso, então nos libertamos! Não para o comodismo. Mas para entendermos que o processo de “construção e acabamentos” será realizado em toda a vida. Diante disso, caem as máscaras. Desfaz-se a necessidade de se representar. Não é mais necessário demonstrarmos quem não somos. Nos rendemos a nós mesmos. A vida se torna mais leve. O humor é melhorado por sabermos que sempre – em toda a vida – haverá o que se aperfeiçoar. O moralismo dá lugar à sensibilidade. O legalismo dá lugar ao respeito pelo que o outro já alcançou. Os julgamentos dão lugar à misericórdia por perceber o que o outro ainda não alcançou. O dedo em riste, apontando os defeitos do outro, dão lugar às mãos unidas, em oração, por notar nossas próprias limitações e fraquezas. Meu desejo permanente: que eu perceba que o processo é longo; que eu deseje sempre caminhar por ele; que eu entenda que pode-se caminhar por ele levemente – de bom humor – aproveitando-se o caminho pois que não estamos sós. É um caminho coletivo. Com Deus.
11月8日 “No fundo dos meus olhos, pra dentro da memória eu te levei...”Tales Messias Ferreira
Grandes verdades são, por vezes, ilustradas em pequenos detalhes e momentos. Hoje, em dois acontecimentos, uma grande verdade “saltou aos meus olhos”. Nada novo. Mas, geralmente esquecida. Logo cedo assisti uma reportagem sobre o jovem Marcos Mena, ex-vocalista da banda LS Jack. No melhor momento da banda aquele jovem, por vaidade, quis submeter-se a uma lipoaspiração o que resultou numa parada respiratória de 20 minutos vitimizando ele a um sério distúrbio mental. Muitos deram a ele um final na carreira. Mas hoje, cinco anos depois, vi espantado ele lançar num programa da televisão seu novo CD e contar (ainda com fala e raciocínio lentos) emocionado como retornou a vida. Ele, para isso, precisou desdobrar-se em um grande esforço, voltou a ter aulas de música e canto, passou a praticar exercícios físicos diários e a se submeter a uma série de outras disciplinas com o intuito de exercitar a mente e o corpo. Nas palavras da mãe dele: “meu filho está melhor hoje do que antes da tragédia em sua vida”. Nas palavras dele mesmo no programa: “Deus me ajudou e eu voltei”.
Ainda hoje, durante a tarde, assisti a um filme extremamente sensível – por isso raro – e com uma mensagem riquíssima: Noites de Tormenta, todos tem uma segunda chance. A história do filme inteiro, com aguda sensibilidade, nos passa uma mensagem de que é possível retornar e reconstruir aquilo que julgávamos perdido e terminado. Nem sempre o recomeço vem pela reconciliação. Às vezes a separação é necessária para um novo começo. Outras vezes, são necessários humildade e perdão para que haja reconciliação e chance de se reconstruir uma história já tida como encerrada.
Esses dois momentos de meu dia me ensinaram muito. Me relembraram o que ando esquecendo. Trouxeram a mente o que tinha preterido. Me levaram novamente a pensar sobre o que tenho priorizado. Constrangeu meu coração a uma auto-avaliação de meus relacionamentos. Mais que isso, me fez questionar minhas motivações escondidas em cada relacionamento. Me desnudou para minha própria consciência. Tudo isso ao final fez com que eu fosse dormir com muitas perguntas para minha alma: me questionando sobre o local que minha esposa ocupa em meu coração e vida; sobre se tenho sido pra minha filha um pai sensível e presente; sobre minha própria mente e como tenho dissensibilizado ela quando priorizo atividades ao invés de pessoas; sobre meu coração e alma avaliando que tipo de alimento tenho enviado a eles diariamente e sobre como tem sido minha espiritualidade a fim de que não corra o perigo de transformá-la em ritual ensinado, aprendido e reproduzido sem que seja um efervescer diário que brote a partir de momentos e fatos dos mais simples da vida transformados em profundas experiências de minha existência. Por fim, como me ensinou o Marcos Mena e o filme, desejo que cada área de minha vida conheça a possibilidade divina de um novo começo, de uma mudança possível de rota, e que me leve sempre acreditar que há sim – a cada dia – disposição e disponibilidade em Deus para nos levar a um novo começo porque as misericórdias dEle se renovam a cada dia, como bem afirma o texto sagrado.
ONDE DEUS ESTÁ NO MEIO DE TANTO SOFRIMENTO?Tales Messias Ferreira
Semana triste em minha vida. Dessas que a terminamos com um enorme peso emocional nos exigindo um desabafo. Por isso escrevo. Principalmente por dois fatos principais essa semana foi negativamente marcante: por um lado assisti chocado o seqüestro de duas adolescentes - por um jovem de 23 anos - terminar de forma tão trágica: a ex-namorada do rapaz baleada na cabeça e virilha e por isso terminando num estado gravíssimo de coma induzido (depois, morte) e sua amiga com um tiro na boca. Quanta tristeza. Quanta dor reproduzida. Penso nos pais, sendo eu pai também. Penso nos pais do rapaz. Penso no rapaz, em seu desequilíbrio emocional e em tantos outros jovens igualmente desequilibrados emocionalmente que devem existir bem perto de nós (E nem sempre os motivos do desequilíbrio se encontram neles próprios). Penso na dor dos pais das meninas e vejo que meu pensamento confunde-se com um medo horrível de um dia me encontrar em situação semelhante. Penso nas meninas e nos traumas e seqüelas emocionais e físicas. Penso em como a população de forma imediata trata o rapaz como “louco” e “monstro” sem discernir que por vezes nós mesmos criamos um ambiente propício a essas “loucuras” e “monstruosidades” brotarem. Às vezes, inclusive, dentro de nossa própria casa. O outro fato, igualmente triste, foi eu ter presenciado - retornando do trabalho - um assassinato. Aconteceu a poucos metros de mim. Vi um Policial matar um jovem (depois li que era um ex-presidiário) a queima roupa com quatro tiros, em Boa Viagem. Voltei pra casa naquela noite transtornado. Por um lado vi a violência pela televisão, mas com a proteção por estar apenas assistindo sem que estivesse fisicamente próximo da violência. De toda forma nos dá uma sensação de que aquilo está longe de nós. Por outro, vejo o quanto todos nós estamos vulneráveis a sofrer violência ou assisti-la de forma extremamente próxima. Uma pergunta sempre presente quando em meio a muito sofrimento é: Por que Deus permite que fatos como esses aconteçam? Ou ainda: Se Deus é bom, por que permite tanto mal? A única resposta que encontro diante de tudo isso é que Deus nunca planejou que vivêssemos mergulhados em tanta maldade. Deus nunca projetou que a criação dEle (criada por Ele e para Ele) se afastasse tanto de seu Projeto Original. Mas, diante disso, sempre uma outra pergunta vem a mente: “Ele é impotente para que nada possa fazer diante da maldade crescente?”. E a resposta dEle foi vir aqui nos ensinar a viver. A resposta dEle foi ter vindo aqui não apenas trazer redenção futura, mas nos ensinar a viver hoje. Nos ensinar a ser gente. Por isso, enquanto Jesus tocava em leprosos Ele não tinha apenas intenção de curar pontualmente alguém mas ensinar a humanidade de que todos nós precisamos sentir a dor do outro e, mais que isso, que todos nós precisamos ir em direção daquele que vive excluído socialmente (como eram os leprosos). Quando Jesus citou - naquela cena magnífica da mulher flagrada em adultério e merecedora de apedrejamento segundo lei judaica – que “atire a primeira pedra aquele que não cometeu pecado” queria nos ensinar a não considerarmos monstros e loucos o erro dos outros sem, antes, pararmos para considerar nossos próprios erros, loucuras e monstruosidades, feitas às vezes em secreto. Quando Jesus multiplicou pães para famintos nos ensinava que muito das dores dos outros podem ser aliviadas através da solidariedade. Por isso, diante de tantas más notícias e tristezas apenas posso desejar aprender mais com Jesus sobre como eu devo ser. E afirmar que há um novo modo de ser gente, de se viver, de se relacionar. Olhando para o Cristo.
10月20日 Com toda certeza, sabemos o que é relevante. O que aconteceria se pensássemos um pouco no que é irrelevante?Philip Yancey
Houve um tempo em que eu considerava os eremitas reclusos intratáveis, caracterizados principalmente pela obsessão com eles mesmos e pela falta de traquejo social – pessoas parecidas com o Unabomber. Thomas Merton corrigiu meu erro. “Para ser loucos, precisamos de outras pessoas”, explicou ele. “Quando ficamos sozinhos, logo nos cansamos de nossa loucura. Ela é exaustiva”. Um livro recente de Peter France, Hermits (Eremitas), ajudou a completar o quadro. France desistiu de uma carreira bem sucedida na BBC para se dedicar a uma vida de contemplação em uma ilha grega. Não fez isso como ato de sacrifício, mas sim para buscar a sabedoria que apenas os que vivem em solitude encontram. Viver longe da pressão da opinião popular “confere percepções que não estão disponíveis na sociedade”, concluiu ele. Santo Antão do Egito, o famoso Pai do Deserto, escolheu a vida de eremita para um contraste deliberado com sua vida elitizada. Depois de 20 anos isolado, sem ver um rosto humano sequer, ressurgiu saudável, equilibrado e cheio de conselhos sábios. Daí em diante, passou a alternar períodos de isolamento com visitas pastorais. France compara esse padrão ao dos cientistas que trabalham sozinhos na busca de cura para doenças fatais. Claro que não se pode ler sobre eremitas sem encontrar estranheza. Certo monge desejava uma bela mulher. Ela morreu e ele foi até o túmulo, tirou-lhe a túnica e secou com ela os fluidos do corpo da mulher. Com o mau cheiro perto dele, em sua cela, ele dizia a si mesmo: “É isso que você desejava – aproveite bem”. Há monges que competem em um tipo de Olimpíada asceta, observando quanto tempo conseguem ficar sem alimento, água ou sono. Eles também possuem um método em sua loucura: as privações causam tanto sofrimento que não deixam espaço para pensamentos carnais. France narra outras histórias que lançam uma luz diferente sobre esses eremitas. Um irmão se gabava de sua disciplina alimentar. O orientador espiritual respondeu: “Não me importa, filho, se você passou 30 anos sem comer carne. Mas quero saber a verdade: quantos dias você passou sem falar mal de seu irmão? Sem julgar o próximo? Sem permitir que seus lábios pronunciassem palavras vãs?”. A sede de isolamento parece crescer toda vez que a sociedade entra em turbilhão. Os judeus essênios se retiraram para o deserto nos dias de Jesus; Buda afastou-se de todos para se purificar de ilusões sociais; Gandhi mantinha silêncio total às segundas-feiras, prática que não interrompeu nem para reunir-se com o rei da Inglaterra. A solitude arranca todas as máscaras e disfarces e quebra dependências desnecessárias aos bens materiais. Henry Thoreau demonstrou uma mistura peculiar de ascetismo, amor à natureza e autoconfiança. Um dos amigos dele comentou que Thoreau aproveitava mais 10 minutos passados com um rouxinol do que a maioria dos homens desfrutaria em uma noite com Cleópatra. Thoreau insistia: “Nunca encontrei companheiro tão agradável quanto a solitude”. No fim do século 18 e início do 19, os ingleses da baixa nobreza contratavam “eremitas de ornamentação”. Reconhecendo o valor da solitude, mas sem disposição para suportar os rigores que ela impõe, os ricos abrigavam esses substitutos em pequenas habitações nos jardins luxuosos. Se você não pode se dedicar a uma vida de simplicidade e oração, por que não pagar alguém para fazer isso em seu lugar? Thomas Merton foi o melhor apologista da vida de solitude em nosso século. Considerava a vida em sociedade um verdadeiro sacrifício e solicitava constantemente o privilégio da solitude, que só lhe foi concedido após 24 anos. Merton ansiava por se unir aos “homens nesta terra miserável, tumultuada e cruel, homens que saboreavam a alegria maravilhosa do silêncio e da solitude, que habitavam em celas nas montanhas esquecidas, em monastérios isolados, onde notícias, desejos, apetites e conflitos do mundo não os alcançavam”. Ainda assim, insistia que “a única justificativa para uma vida de solitude deliberada é a convicção de que ela ajudará a amar não apenas a Deus, mas também o semelhante”. Merton provou que a vida de solitude não leva, necessariamente, ao isolamento ou à estranheza. Nosso século não conheceu observador da política, da cultura e da religião mais preciso do que esse monge que raramente falava e não deixava quase nunca o monastério. Fico surpreso por a Igreja não ter reagido ao tumulto do século que termina com um movimento rumo à solitude. Elias, Moisés e Jacó encontraram-se com Deus quando estavam sozinhos. O apóstolo Paulo, João Batista e o próprio Jesus saíram para o deserto em busca de alimento espiritual. É fato certo que dominamos a relevância. As páginas de organizações religiosas na internet são um primor técnico. Novos grupos de música cristã brotam aos montes, em resposta à menor alteração cultural. O que aconteceria se buscássemos um pouco de irrelevância? O que aconteceria se todos os cristãos fizessem uma caminhada de duas horas pela natureza todas as semanas, sem falar? Ou se, como Gandhi, observássemos um dia de silêncio? Ele escolheu as segundas-feiras. O que aconteceria se ficássemos em silêncio todos os domingos, depois da Escola Dominical? Sendo ainda mais radical, o que aconteceria se silenciássemos todos os eventos esportivos da televisão e do rádio nos domingos? É melhor que eu pare por aqui. Como os eremitas nos mostram, essas disciplinas espirituais podem sair de nosso controle. 10月12日 Sou evangélico demais para continuar sendo “evangélico”Tales Messias
Acredito demais no evangelho para continuar me identificando com a mensagem e práticas da maioria evangélica.
Acredito demais nos benefícios da confissão e transparência (por isso, que todos meus tropeços públicos foram confessados publicamente, nunca descobertos por alguém) para continuar comungando do sentimento homicida da maioria evangélica que adora matar os pecadores confessos;
Acredito demais na Graça de Deus que nos acolhe da forma que somos (e estamos) e que também nos transforma para continuar me identificando com o conteúdo moralista / legalista da maioria evangélica;
Acredito demais no sacerdócio universal e nos dons que se manifestam em todos para continuar concordando com a liderança sacerdotal da maioria dos pastores evangélicos, que necessitam de uma multidão dependente deles, que – por serem tão inseguros – precisam tanto de títulos a fim de que afirmem através deles. Eles não só se afirmam, mas passam a ter apenas identidade pessoal caso esteja acompanhado de seu título de pastor / reverendo.
Acredito demais na mensagem de Jesus para que continue concordando com o dízimo sendo ensinado como uma obrigação a todos os fiéis, inclusive chamando de ladrão aqueles que não dizimam. Jesus chamou de mercenário os líderes que se tornam “pesados” ao povo, que enriquecem as custas do povo, que desfilam de carro novo as custas do povo, que viajam nas férias para suas casas de praia as custas do povo. Alguns inclusive pedem que seus salários sejam mascarados em várias contas (aluguel de casa, estacionamento, etc) a fim de que o salário líquido seja menor e assim possam sonegar imposto de renda. Esses são os ladrões e mercenários que Jesus intitulou. O povo dá dinheiro conforme determinou no seu coração não conforme o pastor determinou.
Acredito demais na mensagem do evangelho para que eu valorize a massa e grandes multidões, quando Jesus disse que onde estiverem dois ou três reunidos em nome dEle, Ele estaria no meio destes.
Acredito demais no apelo do evangelho para que vivamos como irmãos, em comunhão, para que eu acredite nas mega-igrejas;
Acredito demais no Espírito Santo para que eu continue comprando os “pacotes” prontos dos executivos da fé, que prometem nos ensinar sobre todas as boas estratégias sobre absolutamente tudo: como amar, como fazer a igreja crescer, como ser santo, como ser dominado pelo Espírito, como evangelizar, como pregar, como descobrir seus dons, como fazer a igreja ter comunhão, como curar as feridas da alma...etc. No fundo eles domam o povo a fim de que pensem de uma só forma. Matam a diversidade. A criatividade do Espírito. Cerceiam o povo a fim de que pensem da forma que a liderança pensa e apenas façam aquilo para o qual foram domadas a fazer.
Acredito demais no louvor a Deus para que continue concordando com a redução dele à música e para que eu continue assistindo ser pregado que aquelas músicas que se cantam na igreja são as únicas formas de se louvar.
Acredito demais no evangelho que nos ensina a irmos em busca dos excluídos e esquecidos para que eu continue assistindo a elitização das igrejas onde a voz é dada prioritariamente aos ricos. Isso é a reprodução do pecado social dentro das igrejas. Jesus nunca fez isso. Nunca desprezou os ricos, mas ensinou a eles de onde vêm a desigualdade social e como dividir faz parte de nossa conversão a Ele.
Acredito demais em Jesus, em como Ele viveu, em como Ele andou, nos atos que praticou, no Reino que inaugurou, no evangelho, para que eu continue me identificando com os “evangélicos”. Agradeço hoje a Deus por ser cristão, seguidor de Jesus Cristo. Apenas isso. Mas com todo o significado que tudo isso significa.
Acredito demais nos evangelhos para que eu me orgulhe do que foi dito. Foi dito, mas com pesar e tristeza. E com muita paz por saber que Jesus é que continua tendo a palavra final sobre a igreja dEle.
10月1日 SIMPLESMENTE GENTEBráulia Inês Ribeiro
Gente é ruim, mas é boa. Todas as gentes do mundo têm algo de Deus. Um indivíduo, um sujeito qualquer – gente simples, que vai construindo a história de Deus no mundo
Uma vida é importante. Um indivíduo, um sujeito qualquer – Maria, Pedro, Carolina, Raimundo... Gente qualquer, gente simples. Gente que vai construindo a história de Deus no mundo. Não é fácil viver à luz deste entendimento. Vivemos cercados de aparatos que nos afastam da realidade simples de quem nós somos. Entretenimentos, atos, rituais, sistemas conceituais religiosos. É difícil a gente ser real; ser apenas gente. Na maioria das vezes, representamos. Representamos o que gostaríamos de ser ou que pensamos que Deus gostaria de que nós fôssemos. Representamos religião – como se Ele, que vê lá de cima e sabe tudo, não soubesse quem somos, totalmente e pelo avesso. 'Gente quer ser feliz, gente quer respirar pelo nariz', diz Caetano Veloso. Gente é pra brilhar. No filme Central do Brasil, as caras do povo pedindo cartas sempre me fazem chorar. 'Fala pra mãe que eu estou bem', diz a prostituta, que tem família católica que a ama; 'Vê se me esquece, seu cafajeste!', fala outra mulher dolorida. Saudade, amor, vergonha, dor; coisa de gente. Amo a Dôra de Central. Ela teve a cara de pau de vender a criança, trocando-a por uma televisão com controle remoto, na sua ética dúbia de uma vida ressequida, deserta de amor. Mas tem coragem de resgatá-la de volta, e vai se entregando a ela aos poucos, aprendendo com uma criança solitária uma linguagem nova. Da vida de antes, Dôra só conhecia amarguras – amargura contra o pai, contra si mesma, contra todos. Mas vai aprendendo com o menino a língua do amor. 'Você está bonita, Dora, diz o menino, e lhe compra um vestido. E ela anda com ele no meio da multidão de casinhas iguais e lhe encontra a família. Aí tem que tomar a decisão de deixá-lo, para o que ela considera um destino melhor do que poderia lhe oferecer. Dôra se arruma na madrugada, coloca o vestido novo e passa batom. E no ônibus, indo embora, lhe escreve: 'Me lembro que meu pai me deixou apitar a locomotiva, coisa muita importante, que não era pra ele fazer pra uma menininha...' Pela primeira vez, Dôra perdoa. Alcançou a redenção pelo tanto que foi amada pelo menino solitário. Gente é ruim, mas é boa. Todas as gentes do mundo têm algo de Deus. Uma vez, quando eu cruzava uma rua de Belo Horizonte com uma amiga, ela disse uma coisa que me martela na cabeça até hoje. Havia um bêbado caído no meio-fio, semimorto, imundo. Visões assim são tão normais na cidade grande que a gente olha sem ver. 'Veja, Bráulia, a imagem e semelhança de Deus', apontou. Era verdade. Gente legal e gente desconjuntada, todos somos a imagem do Criador. Nossa jornada com ele não começa quando nos convertemos, como alguns pensam, como se o Senhor fosse cego para nós antes de pertencermos ao rebanho evangélico, ou como se o Pai fosse algum tipo de religioso que discrimina pessoas. A cantora Baby do Brasil diz que Jesus não é evangélico, e eu concordo inteiramente. Ele é Deus. Sua jornada conosco começa antes de nós nascermos, já que seus olhos nos viram quando éramos embriões, conforme diz a Bíblia – e prossegue nos vendo enquanto ainda respirarmos. Sua jornada conosco leva em conta nossas experiências, ainda que dolorosas: as tribulações que passamos, os dons, e até as dúvidas e falta de fé que carregamos. Não é tudo anulado aos pés da cruz, mas tudo é reorganizado de forma a fazer sentido, a gerar vida em outros, a produzir cura para nós e para quem chegar perto. Lembro-me daquele homem 'pobre mas sábio' que, com sua sabedoria, salvou sozinho uma cidade. E nós repetimos o bordão que diz que 'uma andorinha não faz verão', achando que está certo. E o que dizer de tantos outros homens mencionados nas genealogias, pessoas de obscuras trajetórias mas de cujo nome que conhecemos hoje e até colocamos em nossos filhos. O que fizeram e deixaram de fazer ficou para a posteridade. Abraão tinha fé; mas também era covarde, já que mentiu sobre sua verdadeira relação com sua mulher Sara. José perdoou a seus irmãos, mas Davi deixou de perdoar seu filho Absalão. 'Gente espelho da vida, doce mistério...' Jesus, ressuscitado, caminhava na estrada com dois discípulos. Abatidos, eles narravam para sua percepção do que havia acontecido alguns dias antes. O 'profeta' havia morrido. Fôra assassinado pelos religiosos. Deviam estar pensando que, afinal de contas, aquele rabi não era quem eles esperavam que fosse. Jesus se impacienta um pouco com eles: 'Como é que vocês custam a entender e demoram a crer em tudo o que os profetas falaram?', questiona. O Deus que eles esperavam não era gente – então, não poderia ter morrido. Mas Jesus, o Deus Criador em quem habitava toda a plenitude da divindade, ainda era gente. E os discípulos de Emaús não o reconhecem ali no ato religioso, enquanto ele lhes ensinava as escrituras. Não o reconhecem pela pregação, apesar de depois perceberem que tinha sido poderosa. Vieram a reconhecê-lo quando se sentaram juntos para comer. No partir do pão, quando Cristo deu graças e lhes ofereceu uma porção – ato cotidiano e rotineiro, ou seja, atitude de gente, não de um religioso ou de um pastor –, só aí seus olhos se abriram para reconhecer o Salvador. Às vezes, me pergunto se a Igreja sabe quem é. Nós nos cremos representantes de Cristo na terra, mas pensamos ser melhores que ele. Não precisamos ser gente – basta-nos o ofício religioso, o distanciamento cultural do que chamamos de 'mundo', e que confundimos com santificação. Basta-nos falar um jargão próprio e criar redomas santas onde nos escondemos. E aí, pensamos estar ganhando o mundo e nos aproximando do Senhor. Nesse processo, esquecemos quem somos, e de que é tudo muito mais simples. 'Gente espelho de estrelas, reflexo de esplendor Não, meu nêgo, não traia nunca esta força não Esta força que mora em seu coração' 9月18日 Religião e alucinação.Ricardo Gondim. Extraído do site www.ricardogondim.com.br Tenho muita pena dos crédulos. Chego a chorar por mulheres e homens ingênuos; os de semblante triste que lotam as magníficas catedrais, na espera de promessas que nunca se cumprirão. Estou consciente de que não teria sucesso se tentasse alertá-los da armadilha que caíram. A grande maioria inconscientemente repete a lógica sinistra do, “me engana que eu gosto”. Se pudesse, eu diria a todos que não existe o mundo protegido dos sermões. Só no “País da Alice” é possível viver sem perigo de acidentes, sem possibilidade da frustração, sem contingência e sem risco. Se pudesse, eu diria que não é verdade que “tudo vai dar certo”. Para muitos (cristãos, inclusive) a vida não “deu certo”. Alguns sucumbiram em campos de concentração, outros nunca saíram da miséria. Mulheres viram seus maridos agonizarem sob tortura. Pais sofreram em cemitérios com a partida prematura dos filhos. Se pudesse, advertiria os simples de que vários filhos de Deus morreram sem nunca ver a promessa se cumprir. Se pudesse, eu diria que só nos delírios messiânicos dos falsos sacerdotes acontecem milagres aos borbotões. A regularidade da vida requer realismo. Os tetraplégicos vão ter que esperar pelos milagres da medicina - quem sabe, um dia, os experimentos com células tronco consigam regenerar os tecidos nervosos que se partiram. Crianças com Síndrome de Down merecem ser amadas sem a pressão de “terem que ser curadas”. Os amputados não devem esperar que os membros cresçam de volta, mas que a cibernética invente próteses mais eficientes. Se pudesse, eu diria que só os oportunistas menos escrupulosos prometem riqueza em nome de Deus. Em um país que remunera o capital acima do trabalho, os torneiros mecânicos, os motoristas, os cozinheiros, as enfermeiras, os pedreiros, as professoras, vão ter dificuldade para pagar as despesas básicas da família. Mente quem reduz a religião a um processo mágico que garante ascensão social. Se pudesse, eu diria que nem tudo tem um propósito. Denunciaria a morte de bebês na Unidade de Terapia Intensiva do hospital público como pecado; portanto, contrária à vontade de Deus. Não permitiria que os teólogos creditassem na conta da Providência o rio que virou esgoto, a floresta incendiada e as favelas que se acumulam na periferia das grandes cidades. Jamais deixaria que se tentasse explicar o acidente automobilístico causado pelo bêbado como uma “vontade permissiva de Deus”. Se pudesse, eu pediria as pessoas que tentassem viver uma espiritualidade menos alucinatória e mais “pé no chão”. Diria: não adianta querer dourar o mundo com desejos utópicos. Assim como o etíope não muda a cor da pele, não se altera a realidade fechando os olhos e aguardando um paraíso de delícias. Estou consciente de que não serei ouvido pela grande maioria. Resta-me continuar escrevendo, falando... Pode ser que uns poucos prestem atenção. Soli Deo Gloria. 9月12日 HÁ CONTROVÉRSIASEd René Kivitz
Extraído do site: www.edrenekivitz.com.br
Gostamos de afirmações categóricas, declarações definitivas e certezas. Não gostamos de perguntas, considerações provisórias, dúvidas, debates e discussões. Gostamos de respostas prontas e critérios claramente definidos. Não gostamos de probabilidades, possibilidades e indicadores relativos. Gostamos de "isso ou aquilo". Não gostamos de "isso e aquilo". Gostamos de "certo e errado". Não gostamos de "nem certo, nem errado", apenas diferente. Deus é amor. Deus é justiça. Quando, então, devemos agir com amor, e quando devemos optar pela justiça? Exigimos: uma coisa ou outra, categoricamente, sem necessidade de interpretações. Dizer que somente a ação amorosa é justa e somente a ação justa é amorosa deixa margens para mal entendidos e, consequentemente, confusão. Melhor é escolher entre uma coisa e outra; as duas, não dá. Ou amor. Ou justiça. Talvez por isso sejam poucos os que se aventuram pelas trilhas do discipulado de Jesus. Seguir a Jesus implica abandonar o jugo da lei para buscar a justiça do reino de Deus. A justiça sempre extrapola a lei. O ser humano é complexo demais para que suas ações sejam resumidas a um conjunto de "isso pode e isso não pode". A vida é complexa demais para que tenha suas circunstâncias definidas em termos absolutos por mandamentos, regras e normas de procedimento. A vida não cabe num manual. Responda rápido: meu filho adolescente não está bem na escola. Devo ser duro na disciplina ou compreensivo nesta fase de conflitos e mudanças? Estou absolutamente convencido de algo, mas minha esposa não quer assumir riscos. Devo seguir em frente e fazer a coisa sozinho ou devo esperar um pouco mais para tentar chegar a um consenso? Meu marido não agüenta mais a pressão no trabalho. Devo encorajar que ele peça demissão e cuide de sua saúde psíquica e emocional ou devo ajudá-lo a superar essa fase difícil, lembrando a dificuldade que é arrumar um outro emprego? Meus pais se intrometem demais na educação que dou aos meus filhos. Devo ter uma conversa franca com a mamãe e arrumar uma tremenda confusão ou devo continuar pedindo ao meu marido que compreenda minha situação e administrar nosso conflito conjugal? Meu amigo me confessou um pecado. Devo contar a quem de direito e forçar a solução da situação ou devo dar a ele o tempo de que precisa para tomar providências – quanto tempo devo dar a ele? Descobri uma falcatrua na empresa. Devo colocar a boca no mundo e denunciar os colegas ou devo ficar quieto, deixando que os responsáveis cuidem do problema? Tenho um ótimo funcionário que compromete o ambiente da equipe. Devo manter o funcionário e sacrificar a equipe ou preservar a equipe e sacrificar o funcionário? Meu pai está em tratamento médico. Devo vigiar rigorosamente seus hábitos alimentares ou devo deixar que ele faça uma extravagância de vez em quando? Pois é, a vida é assim. As coisas que realmente importam não têm respostas fáceis, nem exatas, nem podem ser padronizadas em conselhos do tipo “faça sempre assim” ou “nunca faça isso”. Tomar decisões é uma arte que carece de boa consciência. E a boa consciência não é aquela que sabe, é aquela que ama. Como bem disse Santo Agostinho, “ama, e faze o que quiseres”, o que significa que quando a gente ama não existe certo e errado, certo? Há controvérsias. |
|
|