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日志


4月28日

A dificuldade de se entender e viver na Graça de Deus

Tales Messias

 

Me intriga a forma como estamos presos e escravizados à forma de vida legalista. É tão sutil e ao mesmo tempo tão forte nossa prisão que não nos percebemos aprisionados.

Tal como relatou o Rubem Alves, somos como pássaros que, por termos vivido tanto tempo engaiolados, não adianta vermos as portas abertas. Nós teimamos em nos sentir mais seguros dentro da gaiola do que o risco de voarmos livres. Nós tememos a liberdade. Nos mantemos na gaiola mesmo sabendo que as portas estão abertas. Nós continuamos presos emocionalmente. Nos surpreendemos o quanto estamos acostumados com a falta de liberdade que essa prisão nos atrai. Ela transmite segurança, abrigo, proteção, senso de organização.

 

Vejo isso o tempo todo. Até em mim. São sinais que, se não nos avaliarmos, serão imperceptíveis. Quer exemplos?

 

- Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, entregávamos o dízimo devido a toda a pressão psicológica a que éramos submetidos. Seríamos chamados de ladrão caso não entregássemos os dízimos. Seríamos tidos como infiéis. Como usurpadores, sempre baseados no livro do profeta Malaquias. Hoje, após nos libertarmos dessa visão judaica e, por isso, legalista, indo para o ensino cristão dos dízimos e ofertas, onde ofertamos “segundo determina o nosso coração” e não tendo valor fixo, porcentagem fixa de tudo quanto ganhamos. Hoje, entendendo que não há uma parte “do Senhor” em nossa receita mas cônscios de que tudo é dEle, o impacto disso em nossa vida deveria ser o transbordamento da generosidade (tal como houve com os coríntios). Mas, não é. O impacto disso, é o encolhimento das ofertas. De modo geral, doamos menos que os 10% que doávamos quando sob o regime da lei. Isso é incoerente. Nosso coração deveria sentir-se livre e, por isso, gratos e generosos. Mas, nos encolhemos. Nos enxergamos mais egoístas. Menos doadores. Menos parecidos com a velhinha da parábola, que doou tudo quanto tinha. Menos parecidos com Zaqueu após o encontro com Jesus que devolveu tudo o que havia roubado do povo, quatro vezes mais. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça, nos tornamos mais avarentos. Foi realmente a mensagem da Graça que escutamos?

 

 

- Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, estávamos presentes semanalmente nos templos (às vezes, diversos dias por semana). Por causa dessa nossa atitude, éramos chamados de “cristãos comprometidos”. Mesmo que essa nossa freqüência sacrificasse nosso tempo em família, nossos estudos, nossa missão de atuar no mundo e não nos templos, etc. Ao contrário disso, éramos tidos como pessoas descomprometidas se não estivéssemos tão presentes nos templos. Hoje, após nos libertarmos dessa visão judaica que centralizava a vida da igreja nos templos o correto seria nos vermos com prazer e disponibilidade para desfrutarmos de momentos nas casas, nos restaurantes, nas praias e em todos os possíveis lugares onde os cristãos pudessem se encontrar para desfrutar de comunhão e, ao mesmo tempo, de atuar em missão. Mas, tristemente, o que vemos é a restrição cada vez maior para estarmos juntos.O que vemos é a eleição de nossos projetos particulares como prioridades quase únicas em nossas vidas. A coletividade perde importância. Torna-se “programa” para quando não estivermos ocupados com nossas tarefas domésticas, com nossos cursos pessoais, com nossos passeios individuais. Se não houver shopping, feira, aula de inglês, carro a ser levado à oficina, trabalhos da faculdade, cansaço ou qualquer outro programa pessoal. Com isso, o senso de igreja, de Corpo, de vida em comunidade vai perdendo-se. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça, nos tornamos mais individualistas. Foi a mensagem da Graça que realmente escutamos?

 

- Antes, quando vivíamos sob o legalismo das instituições religiosas, havia um policiamento constante quanto a nossas atitudes em busca de uma perfeição moral. Vivíamos neuroticamente preocupados em não errarmos, em não pecarmos. Achávamos que haveria condições de sermos pessoas moralmente quase perfeitas. E, para isso, elegíamos quais eram os pecados mais graves. Fugíamos de cair nesses (ou escondíamos eles para que ninguém soubesse) e, caíamos apenas naqueles que elegíamos como pecados “leves”, banais. Assim, nos sentíamos melhores, superiores àquelas pessoas que haviam caído nos pecados “graves”. E, dessa forma, nos sentíamos dignos de atuar em algum ministério da igreja. Não precisaríamos passar por “disciplina”. Estávamos mais limpos que os demais. Hoje, após entendermos que a santificação é operada por obra do Espírito em nossas vidas e não por esforço próprio. Que a nós cabe apenas o querer ser moldado dia a dia e buscarmos a voz de Deus por uma vida de oração (entendendo oração como relacionamento, comunicação constante com Deus e não preces e rezas lançadas ao céu) e busca de entendimento da revelação de Deus em sua Palavra. Hoje, entendendo isso, mesmo assim nos flagramos, lá no íntimo, com atitudes críticas e de julgamento perante a pessoas que erram. Críticos e com julgamento diante de notícias de pessoas que caíram em determinado pecado. Pior do que isso... após nos libertarmos da pressão das leis para o aperfeiçoamento pessoal entendendo que isso se deve a uma ação do Espírito, nos enxergamos com uma frouxidão moral beirando a libertinagem. Deixamos de perceber que Deus, de fato, deseja que tenhamos um comportamento que se coadune com sua mensagem de sermos uma nova humanidade. Apenas passamos a entender que o caminho que nos leva a isso não é através de regras e determinações mas pela ação do Espírito e que não há ninguém que possa estar moralmente acima dos outros pois todos são igualmente pequenos e injustos diante de Deus. Apenas isso. Mas o alvo deveria ser mantido: buscarmos uma vida que se assemelhe a de Jesus. Por qual via? Pela ação de seu Espírito em nós. Ao nos defrontarmos com a mensagem da Graça nos tornamos mais “frouxos” moralmente. Foi a mensagem da Graça transformadora que escutamos?

 

Eu poderia citar tantos outros exemplos... onde está nossa atuação social pelos mais fracos e excluídos após termos entendido a mensagem da Graça que nos ensina que o Homem deveria ser salvo em todas as suas dimensões incluindo a dimensão física? Que a salvação – como projeto de restauração da criação – inclui restauração de tudo aquilo que o pecado destruiu como a natureza e nossa humanidade. Que deveríamos ser atuantes na busca da justiça social, na denúncia dos males sociais (tal como os profetas), na preservação da natureza, na conversão de pessoas bem como na defesa dos valores do Reino na sociedade. O que estamos fazendo após termos entendido isso?

 

Meu sentimento é de que ou não entendemos a mensagem da Graça de Deus e do evangelho de Deus tal como ele. Plenamente. Ou, pior que isso, entendemos mas isso não causou impacto profundo em nossas vidas. Houve apenas entendimento intelectual. Não houve encarnação dessas verdades. Não falo como um pregador. Falo como confissão. Incluo minha vida a tudo isso. Por isso, falo como uma oração. Que Deus nos leve a um outro patamar. De entendimento à prática. Como dizem os pragmáticos, “transformando nossa visão em ação”. Que seja assim. Senão de nada adiantou entendermos sobre o evangelho. Se é que o entendemos de fato...pois este é “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”.

 

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